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terça-feira, 23 de junho de 2020

ELOGIO

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ELOGIO  

Um aluno meu
ao cumprimentar-me disse:
que pele tão macia,
eu estranhei,
só uso pela manhã
um creme hidratante
da Diadermine.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Natal

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NATAL

Quero começar pelas rabanadas de mel
depois as filhoses , o bolo – rei.
Um punhado de frutos secos
e um cálice de ruby
cheirando a socalcos do Douro.
Uma pausa demorada,
a seguir recomeço com a caldeirada
de bacalhau e couve portuguesa,
umas perninhas de polvo
regadas com molho verde,
pão de milho e um palhete de estalo.
Os outros, os demais convivas,
não me acompanham,
degustam agora a doçaria .
O champanhe rebenta no fim
borbulhando em copos próprios
arranhando a garganta,
dando boa disposição.
O gato ressona
junto à quentura da lareira.
A criançada alterada
corre pela sala,
só pensam no minuto
da abertura das prendas .
O avô pede um chazinho
para atrasar.
Faz- se um silêncio,
olham – se de frente.

Bom Natal.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

POEMA

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POEMA 1

Todas as alterações de crescimento
nascem de húmus apodrecido
ajudando a vida a rebentar
no flanco da Primavera.


POEMA 2

A tesoura de poda
amassada,
é minha por herança,
corta o seco
e faz frutificar as hastes novas
em açafates de  cor e cheiro.


POEMA 3

As asas da pomba
planam sobre a copa
das árvores atentas,
poiso e descanso
depois da labuta
colhendo os víveres
da sobrevivência.


POEMA 4

Na escrevaninha
riscada com palavras
e manchas de tinta
vê-se o tempo que gasto
a criar poemas.



POEMA 5

O livro aberto
planície de opções
onde cabe o meu anjo
da guarda.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

POESIA

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POESIA   

Poesia é um rio
límpido ou opaco
programado na cabeça
e nascendo em folha
de qualquer textura.
Poesia uma saudade fria,
um dia sem brilho,
um raio de sol
brincando no ladrilho
na hora do café.
Um ramo de florista,
o namorado embebecido,
a mentira piedosa,
o rascunho perdido
em palavras banais.
A brancura da asa do cisne
desmaiando no lago mágico,
a lua caindo devagar
no telhado desbotado
num dia de Primavera.
O amor espalhando-se
em dedos de conversa  frouxa,
a vontade de viver agarrados
a um mundo assustador.

EXISTIR

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EXISTIR 

Existimos
por sobre símbolos
inventados por outros.
Os olhos vazios
cravados na alma,
prestámos homenagens
a nadas.
As manhãs acordam-nos
no nevoeiro pintado
das janelas fechadas.
O lume desagua
na água fria,
extingue-se, as mãos ficam frias,
o caminho escurece,
é difícil o regresso a casa.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

RODANDO


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RODANDO  

O passado lá atrás
pendurado no alpendre
em bengaleiro enferrujado.
Os passos perdem-se
a procurá-lo,
as lembranças entrelaçam-se
em fios embaraçados.
A teima de factos é só teima,
a colecção de espanta-espíritos
alinhados,
fazendo barulhos contra o vento.
Os dias capazes deslizaram
num caderno quadriculado
longe dos guardiões do templo
sem ser em ombros levados.
As profecias não se concretizaram,
os filmes do Chaplin passavam
no ecrã gasto
do salão paroquial.
Adultos e crianças riam-se,
os galãs, filhos da vizinha,
muito perfumados,
apressavam-se a caminho do ginásio.
A filosofia presente
penso logo existo.

VERÃO 2019


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VERÃO 2019 

Os braços incompletos
faltam-lhes as asas,
erguem-se em prece
ou desespero,
mas não voam.
O céu plumbeo,
cinzas móveis,
incêndios pecaminosos,
falta de medidas atempadas,
palavras gastas,
onde estão as soluções?
Vivem felizes
comem, bebem, fazem amor,
não se redimem
não querem um mundo melhor.
Ai verde que te foste e não voltas não.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

FIM DE TARDE

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FIM DE TARDE

Fim de tarde, pôr do sol,
sentados sob os ramos fortes
do castanheiro,
expomos palavras
e sentimos ser o lugar certo
para ouvir os pássaros.
O ventinho Norte sopra forte
acrescentámos à alma
o calor dos corpos.
Conjugámos o verbo ser
no explendor da natureza
e adormecemos cansados
com a lua a bater de frente.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O TOUCADOR

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O TOUCADOR 

No toucador antigo
as gavetas estão abertas,
 as fechaduras frouxas
e dentro
um amontoado de papéis,
receituário, fotografias,
facturas, lembretes,
 botões, atilhos,
memórias, sonhos.
Foi vida, hoje é nada.
Dentro do toucador
estão as vaidades,
a maquilhagem colorida,
as lágrimas em dias molhadas.
Inalterável  nos dias existentes
e nos outros silenciados.
De castanho ofertado
e cinzelado por operário
especializado,
de vazio ficou apinhado.
Foram-se a quem serviu,
hoje olho e retenho
o significado de um simples móvel
que por ninguém querer
se esfumará.

terça-feira, 2 de julho de 2019

UMA BIBLIOTECA ESPECIAL

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UMA BIBLIOTECA ESPECIAL

Era uma professora primária
em época salazarista,
muito trabalho, muitas crianças,
uma ridicularia de salário,
os tostões contados,
a tristeza de não ser recompensada.
Naquela aldeia perdida
sem permissão para sonhar,
sacudiu o marasmo
e criou uma biblioteca pública.
Os primeiros livros
consegui-os de um poeta,
inconsequente como todos os poetas,
expurgou-se do que mais gostava.
Mas quem queria ler poesia?
Pelo final do ano escolar
a surpresa foi geral,
cada criança recitou um poema,
elaborado por si na turma.
A biblioteca cresceu,
a professora saíu,
os alunos agora homens,
são por certo criaturas melhores.

terça-feira, 25 de junho de 2019

FINITO


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FINITO  

O dia morre no horizonte,
bem cansado, escurecido,
vai olhando  a lua
iluminando os sonhos
e as vozes adormecidas.
O fio de calor
que sai da chávena
aconchega a noite,
aquece as mãos doridas
de tanto que descascaram fruta
para fazer marmelada.
Esquecida a correria do dia,
as horas de trabalho suado,
coloco no cabelo solto,
a fita de cinza prateada.
A cabeça leve, leve,
tomba sobre o sofá
e toma conta finalmente
do meu desenfreado destino.

A CADEIRA


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A CADEIRA

A cadeira encostada
à parede larga
alinhada
para ver quem passava.
Um céu cinzento
para abraçar
o meu estado de alma.
a folha de papel
pardo
a interpretar os meus poemas.
O que olhei para o portão
a ver se entravas,
queria dar-te um bombom,
o primeiro da caixa quadrada.
Oh se o céu se abrisse
e eu me perdesse no infinito
com asas de cores várias.
Vou agora no comboio rápido
apanhar a lua.

terça-feira, 18 de junho de 2019

DESCRIÇÃO

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DESCRIÇÃO

Disseram-me
que o tempo vai mudar,
fechadas as portadas,
cerradas as portas,
venha a tempestade,
venha o vendaval.
A casa fica mais escura,
os quadros mais escondidos,
as paredes mais gastas.
Qualquer dia
compro um branco magnólia
e pinto as paredes
da cor que eu gosto,
da cor de antes de desbotada.
Foi uma semana de mau tempo,
de árvores a vergastar,
de coração apertado,
de surdina nas ruas desertas.
Há certa esperança de melhoria
para sexta feira,
ai esplanadas do Porto
à minha espera
com as gaivotas ao redor
teimando em comer as migalhas.
Os peixes no rio vindo à tona
e os velhos a inchar ao sol.
Serve-nos o tempo
desde que brilhe o dia,
os pássaros limpem as penas,
se esqueçam as mágoas expostas,
se dessipe o vento e a chuva.

VIM

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VIM

Vim porque gosto de poesia
ainda não é proibido gostar,
e eu pretendo sonhar,
sonhar cada dia
em cada poema falado.
Estou aqui
porque cada dia
é um prato de framboesas
servidas frescas,
envolvidas no orvalho
da manhã.
Vim porque fica de fora
a mentira, a corrupção
que grassa no meu país
esmiuçado por comentadores
pagos.
Antes de vir sorri,
falarão de amor,
de liberdade,
da vida mais que da morte,
de palavras com asas
pintadas com gaivotas,
de glória e redenção,
da alma descansando,
da fragilidade das coisas,
dos seres.

terça-feira, 14 de maio de 2019

VIDA


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VIDA

Colocam-nos um nome
ao nascer
nome que não se encaixa
e de que não sabemos a história.
Registam-nos
com os apelidos da família
que se agarram,
se colam como letreiro
em cobertura de autocarro.
Pensam para nós destinos,
orientam-nos na vida
no leme dos seus sonhos.
Não nos querem actores,
músicos ou malabaristas.
Põe-nos no altar mais alto,
somos santos à força
e vetam-nos os pecados.
Dão-nos vagas esperanças
de uma carreira, vida boa,
não falam de percalços,
de desgostos e lágrimas.
Frisam o céu
como corolário perfeito,
depois da morte imperfeita
o resumo de nós
em três linhas mal alinhavadas.
Memórias livres de fantasmas,
educadamente
chamam-nos boas pessoas.
Flores só no aniversário
presas em ramos, laçarotes
com forma e garrote
para que durem, durem,
tal qual a eternidade.
O nosso pousio é alegre e triste
conforme o ângulo
em que voam os pássaros.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

DESPREOCUPAÇÃO

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DESPREOCUPAÇÃO   

Sem pressas,
já corri muito,
avançando obstáculos,
pernas bambas,
fraquejando e aguentando.
Agora, calma,
quero sentar-me,
sem pressas,
tomar café,
ninguém me incomode.
Silêncio
é o que eu peço,
abstrair-me
enquanto o sol brilha
e o dia sabe a morangos.
As árvores abrigam
o barulhento passaredo,
sinfónica aos meus ouvidos
contemplando os Poveiros.

PINHAL DE LEIRIA – FIM

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PINHAL DE LEIRIA – FIM  

O vento em fúria
levanta as faúlhas,
as chamas adensam-se
propagando o incêndio
pelo matagal.
A esperança desvanece-se,
impossível salvar o pinhal
que levou os primeiros navios
na saga impante
de chegar a novos mundos.
O ruído do fogo poderoso
chega aos céus
Padre Nosso, Avé Maria
livrai-nos de todo o mal.
Braços caídos, desolação,
as forças vivas não salvam
as árvores e arbustos
e os animais apavorados fogem
antes de ser imolados.
Olhos rasos de água,
rostos transtornados,
a História perde-se
num quente dia de Verão.

terça-feira, 30 de abril de 2019

MEDITERRÂNEO


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MEDITERRÂNEO  

Dizem-no um mar meio morto
e há tempo a esta parte
cemitério de muitos cadáveres.
Expulsos pela fome, pelas guerras,
juntam trapos e tostões,
atravessam continentes
vindo amarar em terras
para quem são detritos.
Já não são notícia,
já não abrem telejornais,
corpos em barcos a abarrotar.
Silencie-se o medo da morte
entre o pasmo e a lágrima a correr.
Cheira a maresia,
a gasolina entornada,
é muita a vontade de comer.
Salvam-se alguns
agarrados em esforço
a pequenos botes.
Uma criança dá à costa,
é bicada por uma gaivota
esfaimada.
Os pescadores chamam,
as autoridades,
contam-se os corpos
à deriva nas águas mansas.
As mulheres sentadas
na areia molhada,
as que sobraram,
dão às crianças os seios secos.
Olhos parados, mãos rígidas
não somos todos iguais,
uns têm lápides de luxo,
outros o esquecimento, o nada.

RELEMBRANDO


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RELEMBRANDO

Não é para esquecer
o cinza pesado do passado,
o não poder respirar-se
de tanto o ar sufocando.
Não é para esquecer
a miséria
que se prolongou pós-guerra,
as crianças descalças,
a fome instalada.
Não é para esquecer
os mortos de guerra,
as viúvas por casar,
as mães de olhar vazio.
Não é para esquecer
as bocas fechadas,
os sonhos emparelhados
nas prateleiras do tempo.
Não é para esquecer
a repressão nas fábricas,
nos campos alentejanos.
Não é para esquecer
o grito prolongado, o pranto
dos poetas engajados.
Não é para esquecer
a oposição vencendo
as sombras do medo
e depois à descarada
no parlamento amarrado,
vencendo com a palavra
a maldição da ditadura,
fazendo a democracia acontecer.
Não é para esquecer,
o respirar das facas
afiando-se nos quartéis
para libertar-nos.
Por todos os que morreram,
por todos os presos
e torturados.
Por todos os que foram silenciados,
por todos os que ergueram  
a bandeira da luta
a nossa solidariedade,
o eco das nossas vozes desarmadas.

terça-feira, 2 de abril de 2019

PLANEAMENTO

COLLADO
PLANEAMENTO

Agarrar a força do acordar,
olhar o dia a amanhecer,
celebrar o café da manhã,
degustar, devagar os scones
barrados com doce de maracujá.
Viver rápido as 24 horas,
ouvir música no ar,
esquecer o passado,
correr no futuro.
O corpo exangue
não sente os músculos,
os cartazes à beira da estrada
anunciam novo perfume.
Sentar sob o alpendre,
a sopa no tampo da mesa,
o mapa de afazeres
cruzando o mês inteiro.
Ah, viver é desafiante.