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terça-feira, 3 de novembro de 2015

CONFISSÃO DO LÚCIO NUM DIA CONFUSO

Anita Malfatti

CONFISSÃO DO LÚCIO NUM DIA CONFUSO

Quero ser eu
não outro qualquer,
se incomodo,
paciência.
Quero ter a minha própria
crença,
acreditar nas plantas,
nos animais, nas pessoas,
se isto é ter religião,
sou religioso então.
Não minto.
às vezes desminto
o que disse sem convicção.
Quero amar
sem obrigação de retribuição,
ser livre,
escolher qualquer caminho.
Razão não tenho eu sempre
por haver razões de tantos,
o mundo é grande de mais

para os meus e teus desencantos.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

DEOLINDA

Anita Malfatti

DEOLINDA  

Recompõe-se,
esquece a melancólica infância,
numa aldeia parada,
dum fim de mundo anunciado,
debruça-se na vedação
dividindo o rio do prado,
pensa na vida.
Oscila entre ficar e partir,
aqui não aparece nada,
as mãos esquecem-se
de cortar o tecido,
da prova, da confecção.
Que belos que eram os fatos,
acabados e passados,
pendurados nas cruzetas.
As palavras baralham-se
no cérebro,
os argumentos atropelam-se,
vai hoje, já,
antes que se arrependa
toma o comboio internacional
até França.
Fará novamente vestidos
lindos,

para as madames dos subúrbios de Paris.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

TODOS HUMANOS


Anita Malfatti
TODOS HUMANOS  

Preciso de tudo para viver:
do café amargo
tomado de manhã,
das manchetes dos jornais
com notícias escaldantes,
da caminhada pela vida
da cidade,
do momento de pensar
poesia.
Onde me dispo,
onde vocifero,
onde arreganho a dentuça
que por ora é minha.
O meu coração
ainda sente:
no mundo cabemos todos.
As florestas têm tantas árvores,
os rios levam tanta água,
as terras produzem todos os anos.
Somos de cor diferente,
temos diferentes credos,
mas alimentamo-nos,
amámos,

sofremos igualmente.