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terça-feira, 9 de abril de 2019

AS POMBAS

José Gonçalez Collado
AS POMBAS

As pombas
pintadas de tom cinza,
nas suas casas de árvore,
resguardadas,
esperam que a chuva amaine
para poder contra o sol
bater as asas.
Sentada no café,
a temperatura amena,
não sei se quero ser eu
ou o bando de aves
com liberdade plena.
Estar, partir,
conforme a estação do ano.
Rolo a caneta
no tampo da mesa,
mordo o croissant
demasiado amanteigado.
O dia a ficar com sentido,
um poema novo
vestido de Primavera,
 morangos lavados
ao lado.

terça-feira, 19 de março de 2019

SER


COLLADO
SER 

Ser, não ser,
partir, permanecer,
ouvir, calar,
rir até doer a boca,
brincar com a chuva
de lágrimas,
avançar, devagar.
Dançar em frente
ao espelho,
ver reflectido
quem não se é.
Ser cor rasgando
a tela,
vulcão de lava
incandescente,
soro curando
a maleita,
sono intermitente,
almofada decadente,
bordada a ouro e azul.
A história escrita
e que não é entendida,
pássaro andante,
raízes fortes
amarrando tudo à terra.

terça-feira, 12 de junho de 2018

VERÕES

Collado

VERÕES 

Quando as pêras se mostram
pendidas, pesadas,
nos ramos fragilizados,
estendo as mãos e colho-as.
Levo-as até à cozinha,
corto em tirinhas a polpa doce e macia
e faço doce temperado com canela.
Duram meses envolvidas
no ponto pérola de açúcar amarelo,
fechadas em potes redondos
com fitinhas coloridas.
São o desejo de mais verões
onde o olhar pousava nos pássaros
voando com eles para outras galáxias.

RESTOS


Collado
RESTOS

Tiveram sempre um disponível colo
pronto, macio, acolhedor,
abraços de dia e de noite
sem regatear,
uma mesa farta a preceito,
grandes frascos de compota,
queijo fresco,
café acabado de fazer.
Lágrimas sentidas
por cada partida programada,
sorrisos largos às chegadas.
Desses tempos nada resta
até o toldo branco
abrigando as festarolas
esgueirou-se no vento.
Cada um para seu lado
esquecido o passado
nenhum retorno é possível.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

ASCENDÊNCIA


Collado
ASCENDÊNCIA

O pai, um Manuel alfaiate,
o avô ferreiro,
o bisavó lavrador,
Primo de muitos emigrantes
que no início do século XX
rumaram ao Brasil
o el dourado distante.
Filhos de uma geraçâo
pós guerra,
de poucos teres e haveres,
muito trabalho, pouco comer..
apesar de tudo sonhavam
sonhos comezinhosa
ter família,
ver os filhos crescerem,
multiplicarem-se,
ao fim do dia mesa farta
a acalmar as crianças

esfomeadas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

COMBINAÇÃO

José Gonçalez Collado

COMBINAÇÃO   

À noite,
num encontro fortuito
no portal da entrada
ele e ela,
mais ele que ela,
selam a combinação
com um beijo.
Subir amanhã o rio Douro
num barco rabelo
até à Régua
pensando ser igual

a caminhar nas pegadas da lua.

DIZENDO


José Gonçalez Collado
DIZENDO  

A onda será um barco
a areia argamassa
a partida um abraço
a chegada uma casa.
A marginal autoestrada
iniciada a viagem,
o poeta um armário
guardando tantos poemas.
Os livros arrecadados
sonhos,
pássaros alados  voando…
O ofício, isso mesmo
algo pagando-nos as contas.
O canto do sofá azul
o espaço do aconchego,
muro entre nós e lá fora
 onde a vida é como é

sem pudor, desenvergonhada.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O COMPLEXO DA ESCRITA

José Gonçalez Collado

O COMPLEXO DA ESCRITA

Escreves,
teimas em escrever
todos os
em sítios vários.
São simplesmente palavras
atravessadas de ti
com  letras de terra
e pontos  de luz.
Escreves,
fica tudo mais certo,
a alma aquece,
o sono desce,

apaga-se o dia

DESCRIÇÃO



José Gonçalez Collado

DESCRIÇÃO
Estendes-te no sofá
embrulhado na manta quente,
levas à boca repetidamente
cada cereja rubra, resplandecente,
Brilham as achas na fogueiras,
a pele aquece, a alma aquece.
Nada de dúvidas,
esquecidas as perguntas,
é vasta a sala

para pensar na vida.

A ESTUPEFAÇÃO DE TERESA

José Gonçalez Collado

A ESTUPEFACÇÃO DE TERESA

Sentada a um canto
de um botequim
da nova cidade
a ser renovada.
É olhada constantemente
por alguém desconhecido.
Porque a olham?
não tem poemas
escritos na testa,
é discreta, paciente,
não entende
ser objecto de avaliação.
Perdão,
tem a camisola ao contrário,
que diabo,
afinal era chacota
pela sua distracção.

VIZINHANÇA

José Gonçalez Collado

VIZINHANÇA

Tenho uma vizinha
gente fina,
não lhe conheço defeitos
de vizinha.
Admiro a sua forma de vestir
muito vintage.
Não se mete em confusões,
não ouve televisão
em alto som.
Não treina o cão
nas escadas,
não deixa aberto o portão
nem sacode o pó
na cabeça de quem passa.
Mas um dia
assustou-se com um fio
da TV cabo,
servindo a minha casa
passava-lhe ao lado.
De dedo em riste
soltou-o da parede.
Foi má a opção
era tal a burocracia
da operadora
para encontrar solução
que continua dependurado,
a vizinha permanece emburrada

desde então.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ABANDONO



José Gonçalez Collado
ABANDONO  

ABANDONO

Escapar
sem saber como
ao inferno de Dante,
sem G.P.S.,
sem ajuda de homem,
anjo ou arcanjo.
O corpo enfrentando
chamas que queimam
primeiro a alma
depois o corpo.
Fugir, fugir
sempre para a frente
com poças de lume
a toldar os paços.
Esta angústia sem nome,
um abandono perene
como se a gente do interior
não fosse gente.
Que país este
achando que alguns
não têm direito
ao pão diário.
Cerram-se os dentes
a boca fecha-se
não sai o grito libertário.

FALAR SEM SER

José Gonçalez Collado

FALAR SEM SER  

Só têm língua viperina
de aço,
quando oposição,
dentro, entram no sistema,
olham pela sua vida,
o alheio entrega-se à sorte.
Desancando
perante a televisão
é só um som a sair da boca.
Fonética, guião de palavras
que não calam
a dor no peito
de quem ficou sem nada.
Não têm que se levantar
de madrugada,
contar cada cêntimo
para o pão de cada dia,
não gritam, não fedem,
dormem de vendas nos olhos,
mandam mensagens rápidas
com instruções presas
a seus pares,
Riem sem mostrar os dentes,
elaboram discursos
sobre dicionários abertos,
vendem o país ao desbarato,
tornam-nos tristes,
estamos fartos.

ESCREVER UM POEMA

José Gonçalez Collado

ESCREVER UM POEMA  

Escrever um poema
em Outubro quente,
um poema com ruas,
gente, ruído,
silêncios momentâneos,
noites dormidas,
outras em claro.
Contigo seguramente,
rigorosamente,
bebendo champanhe rosé
regando as ostras negras
da ria Formosa.
Acaba o poema,
a cabeça vazia
sem palavras de ponto final.

UM DIA DE OUTONO FRIO

José Gonçalez Collado

UM DIA DE OUTONO FRIO  

Um nevoeiro fino
impregna a cidade
vestida de parkas
e casacões.
O capuz tapa os cabelos,
a humidade atravessa
o pescoço,
desce até ao umbigo.
Na rua ninguém vê ninguém,
os contornos
dos monumentos antigos,
são manchas.
A respiração é ofegante,
o bafo embacia os óculos.
A fila é imensa no metro,
por minutos o lar
onde se pretende algum calor.