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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

BUGAMBILIA

António Sampaio

BUGAMBILIA  

O caminho pejado
de flores de bugambilia,
os pés esmagam-nas,
levanta-se um odor
a seiva libertada.
Cresceu, cresceu o arbusto,
tomou conta da parede
e plantou-se a seguir
nas nossas memórias.
Cravada a um canto do jardim
virado ao sol,
exige apenas água.
Quem o plantou foi-se,
talvez por falta de cuidados,
a bugambilia apagou-se,
a labareda vermelha
inundando a parede sul
da gasta casa
foi-se a seguir.
Já não há flores,
nem caminho atapetado
só a triste certeza
que tudo se acaba.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

SAUDADES


António Sampaio

SAUDADES  

Não te vejo
sentada nessa cadeira
esquecida no jardim.
Tenho saudades
das sestas dormidas
no decadente cadeirão,
lado a lado
esquecendo tudo
o que está por detrás do muro.
Era bom o equilíbrio,
a natureza esplendorosa
rompendo a terra
escura, húmida.
Estranho não te ver,
ainda ontem, juro,
estavas lá,
esperando o chá
com rodela de limão.
Vida, multiplicação de factos,
sérios, adultos, responsáveis,
com consequências.
O resto, particularidades,
o descanso relaxado,
a dureza da existência

passando ao lado.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

ANA

António Sampaio

ANA

Acredito nela
como acredito em mim.
Numa tarde auspiciosa,
embrulhada em Primavera,
levei um ramalhete de orquídeas,
um frasco de compota
de mirtilos
para celebrarmos o dia.
Deve ter razão a Ana
enchendo a mesa
de ferro forjado
com bules de chá de menta
e caixinhas de doces de mel
e gengibre,
para dar brilho à coisa
um cesto de cerejas do Fundão.
Esperámos os dois,
sentados displicentemente,
bebericando o chá,
trincando os bolinhos,
falando com saudade
dos ninhos,
só espreitados,
nas  árvores gigantes
do pomar.
Que entre alguém:
um duende,
um ser de luz,
uma fada,
aprovando os nossos gestos
agendados,
novos deuses,
amoras douradas,
acrescentando brilho
a um lanche  burguês,
numa casa velha,
numa quinta improdutiva

herdada pela Ana.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

LEMBRANÇAS

António Sampaio

Lembro-me
daqueles dias felizes,
sem preocupações,
relaxantes!
Lembro-me
das conversas idiotas
sobre o último filme
de Bergman!
Lembro-me dos cafés
tomados no Estrela
entre bocejos e desejos
de um mundo melhor!
Lembro-me das cartas escritas,
diárias, muito pensadas,
emotivas!
Lembro-me
de um S. João quente
contigo embrulhado
na capa negra de estudante!
Que esquisito,
no meio da folia
com um trajo errado!
Existiram esses dias
 de pura alegria,
de excessos,
 de descontracção,
segurando o mundo
apenas com a mão,
 com a inocência!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ACTO DE MEDITAÇÃO

António Sampaio
ACTO DE MEDITAÇÃO

Hoje não bocejei
a caminho do trabalho!
Adormeci a ver
o Porto/Sporting,
como descansei,
não me cansei
na camioneta
a rebentar pelas costuras,
não senti o cheiro a ranço
dos trabalhadores
que não gostam de água!
Levanto-me todos os dias
com a alvorada,
é preciso pôr pão na mesa,
é pecado mortal
não criar diariamente
a comida que nos sustenta!
No fim da jorna
penso assistir a um concerto
de rua,
gratuito no Verão!
A cultura á cara,
lavar a alma
é só para alguns privilegiados!
Sei de cor todas as cantigas
do grupo
abridor do concerto!
A letra encaixa na melodia,
perfeitamente,
tal como as canções 
antes proibidas!
Pus-me janota
para viver o acontecimento,
calças e blusão de couro,
contrafeitos,
comprados na feira,
aos ciganos!
Muni-me na lancheira
de algumas minis,
uma  bifana apimentada!
Aprendi
num liceu marado,
último lugar de ranking,
não me autocensuro,
dou-me ao luxo de pensar,
mesmo quando me divirto,
suo as canções,
passo a mensagem,
sem remorsos dos excessos,
remorsos é para quem
nos liquida a vontade de lutar!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

AGARRA O PIÃO...

Rosa Elvira Caamaño
in
http://janeiro2010.blogspot.com/


Agarra o pião
põe o cordel e rebola
como se fosse uma bola
a querer chegar à baliza!
Leva-o para diante
que mesmo sem ser gigante
vai rodopiar, quebrar
e voltar a rodopiar
até parar!
És garnizé, baixote
mas queres levar o archote
de herói da pequenada!
Eu quero jogar também
deixar de ser Zé ninguém
dar um ar de experiente
acabar o jogo em momento delirante!
Gosto de jogo limpo
mas também finto,
ato o cordel , atiro o pião
que abanca no meu coração
e me faz lembrar os tempos de criança!