quarta-feira, 29 de abril de 2015

BÊBADO

José Malhoa

BÊBADO  

Todas as noites
infalivelmente
percorre o caminho estreito
desde a sua casa até à tasca.
Senta-se ao balcão,
olhos nos olhos do tasqueiro,
pede,
copos cheios de vinho tinto.
De cada vez que esvazia o copo
dá um estalido de satisfação
e pede com sofreguidão
mais outro e outro.
Ao fim de duas horas,
com dificuldade levanta-se,
as pernas arqueiam,
segura-se às paredes,
depois de alguma tertúlia
atina com a porta da saída.
Chega sempre a casa
pelo mesmo caminho
demorando o preço preciso.
É um ritual diário
neste matar a dor
mais forte que o vinho.

PARA TI


Clo Bourgard

PARA TI  

Para ti
sirvo ovo
com pedaços de presunto
frito
e pontinhas de espargos
caramelizados.
Para outro
sirvo ovo,
às vezes no ponto,
outra vez tisnado,
temperado
com sal e pimenta.

O CHEIRO DA COZINHA DA MINHA AVÓ


André Derain

O CHEIRO DA COZINHA DA MINHA AVÓ  

Rescende a cozinha a limão,
as raspas estão sobre a mesa,
o sumo no verde jarrão.
É o perfume da Ana
fazendo bolinhos,
biscoitos, tortas,
na mesa da sua avó.
Mesa grande, corcumida,
de madeira envelhecida,
acomodando comida de amor.
À volta daquela mesa
houve sempre confusão,
o tio Ilídio questionando
a timidez da sobrinha,
a avó Maria
rindo de tudo e de nada,
a criada Albina
servindo sem precisão
o caldo ralo
com couves e feijão.
Os tios músicos
sempre com novas histórias
da capital e das capitais do mundo.
O avô António sisudo
fazendo contas de cabeça,
precisando
se o dinheiro ganho
chegaria ao fim do mês.
Que odor a amoras silvestres,
a mel, a canela,
cortado o bolo redondo,
a visão era apelativa,
a última, naquela cozinha velha,
tingida de cinza,
deixando nesse momento
de ser minha,
mercê de uma divisão de bens.

O MEU COLAR DE PÉROLAS


Maria Lynch

O MEU COLAR DE PÉROLAS  

Perdi as contas do meu colar
de pérolas,
no jardim,
esvaíram-se nos buracos
da relva.
Como irei ao baile
com o Joaquim
sem as pérolas brancas
a brilhar no meu pescoço?
Remexo a caixa de sândalo
onde guardo outras jóias,
há o fio de ouro
oferta da avó o ano passado,
a gargantilha de prata
com cornucópias de marfim,
a fita de cetim
pendendo uma cruz de ametista.
nada serve,
A essência das coisas
não é exacta,
esvaziado o meu querer
o baile não faz sentido!

VISÃO

Max Beckmann

VISÃO  

Vi o meu amigo
deitado no milheiral,
de tronco nu,
tisnado,
só me apeteceu olhá-lo
e pensar que era meu.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

TEMPO


Modigliani

TEMPO  

O tempo passa lento
na alma,
deixa marcas a ferrete,
no rosto, nos braços!
Isabel
não tem dor,
apenas o rubor
da cobardia latente
que a levou
a ficar parada!

SEM DESTINO


Georges Rouault

SEM DESTINO  

Vai por aí sem destino
não sabe de onde é
não tem caminho agendado!
O sol levanta-se de manhã
a lembrar vida
a lembrar faina,
mascara-se de palhaço
todos os dias
e finge que ainda é vivo!

DIVISÃO

Fernando Léger

DIVISÃO  

Separa-me de ti
um vidro
transparente e luzidio,
vejo-te
e não te toco,
coloco à tua volta
um círculo,
não desisto,
mas não te alcanço!
Fico-me pela mirada
à espera do amanhã,
vem a noite,
vem o dia,
vem o fio e o pavio,
o vidro não amolece,
não quebra, não se desfaz
a única coisa que traz
é o luar
que  oferece
a vontade de ser estrela!

A CANETA E AS MEMÓRIAS


Roy Lichtenstein

A CANETA E AS MEMÓRIAS  

Vou retirar da gaveta
aquela caneta envolta
em fios de memória!
Vai partilhar momentos
de glória,
passos de dança
ao som de blues,
as gaivotas ruidosas
girando em torno de nós
na areia molhada da praia
de Lavadores!
A raiva sustida
em noites de lua cheia
iluminando o quarto vazio,
as sestas dolentes,
o calor do verão em Agosto,
as ilhas misteriosas
por acontecer!
O riso cristalino da nascente,
a minha alma magoada,
o amor que deslizou!
O calor da lareira a crepitar,
os desejos exactos, expectantes,
a vida a respirar!
A colheita de lírios
em manhãs frescas,
colocados em cestas de palha,
esperar por ti
em esquinas de nevoeiro
com um grande letreiro de néon:
podes entrar!
O aperto no peito
descendo a asa do veleiro
que navega sem navegar!

UMA CASA


Paul Cézanne

UMA CASA  

Lá na casa da minha mãe
pequena e modesta,
lá onde o nascer do sol
é intenso,
todos os dias de manhã,
lá onde as cotovias
esgravatam a terra
à procura de grãos.
lá onde os ventos fustigam
o faval e o derrubam,
lá onde a fruta é doce
e há abrigo,
lá onde sonhei tanto
e quiz com muita força
a surpresa de dias
incandescentes,
lá onde hoje cultivo
a horta
e me perco
nas flores multicores
que brotam na Primavera,
lá onde dói menos a alma
e me liberto
no voo das borboletas!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

DESABAMENTO


Georges Braque

DESABAMENTO  

Ruiu o muro,
ruiu a casa,
nada ficou de pé,
apenas o barulho da rua
e o respirar do gato vadio
que ainda procura comida
no meio dos destroços!
Da mãe terra nada brota,
cansada,
senta-se à sombra
que ainda é de graça!

APELO

Pablo Picasso

APELO 

Vem amigo,
traz o coração, a alma,
nada acontece
no inicio da tarde agreste,
se não houver quem ouça
de verdade
o que dizemos!
Falemos
dos cegos da História,
das criaturas
que crescem e morrem
rodando
em volta do seu umbigo!
Apodrece o mundo,
choram crianças,
rebentam bombas,
morre gente,
agonizam vozes,
a fome aperta,
o ar é irrespirável na China!
Em Bruxelas
Sentam-se os grandes
em cadeiras de veludo
riem, bebem água de Vichy!
Fazem-nos esquecer
mais um ano sem esperança!
Avancemos com um movimento
novo,
não previsto!
Rompamos nuvens,
janelas, olhos,
façamos com que o sol
brilhe de novo!

PERDA


Giorgio De Chirico

PERDA  

Ai amor!
Em que lugar nos perdermos,
em que esquina, em que rua,
se partiram os fios de caramelo
que nos ligavam à vida!
Onde estão as mãos dadas
em noites de sortilégio
de segredos frente à lua?
Ai amor!
Em que dia, em que hora,
se quebrou o espelho de água
onde lavávamos os sonhos
e tecíamos o futuro
sem qualquer salpico de mágoa!
Ai amor!
Em que minuto, em que segundo,
passamos a ter saudades, tantas,
dos abraços em pôr-de-sois embalados,
de domingos acordados tardiamente
com pequenos almoços à hora da merenda,
olhares quentes
enrolados em mantas macias!

MENDIGO


Umberto Boccioni

MENDIGO  

Sentado
na berma da estrada,
distribui sorrisos,
pede migalhas
e recebe nada!

quarta-feira, 8 de abril de 2015

SAÍDA

Picasso

SAÍDA

Sair da sombra do medo
onde o sol não chega nunca,
rasgar mapas de luz,
embarcar no futuro,
erguer o país de novo,
levar archotes de fogo,
na noite negra e despida,
fazer caminhos, construir,
viver conjuntamente,
sair do túnel obscuro,
é o nosso fatal destino!

DESCRIÇÃO

Paula Rego
DESCRIÇÃO

Olho os teus olhos
cor de centeio maduro,
a leveza dos teus lábios
cor de amora,
os cabelos enredados
ardendo em chama,
a voz aprumada
em concha agachada!
A alma fechada a cadeado,
o corpo espantado,
a violência do verbo
arremesso que não mereço!
Sentado num muro
imaginário
desfias memórias,
algumas glórias
pedindo urgentemente
um guia
de caminhos
para onde caminhar!

TEMPOS DE HOJE

Júlio Pomar

TEMPOS DE HOJE

Os cães de fila
perfilam-se na estrada velha,
guardam com fiel destreza
o traço rígido
entre pobreza e riqueza!
Não escondem a fúria do rugido
sempre que a populaça
se aproxima
das migalhas,
embora pedindo desculpa
pelo incómodo!
Neste tempo errado
não é  permitido purgatório
resta só o céu e o  inferno!

LEMBRANÇAS


Júlio Resende
LEMBRANÇAS

Sento-me numa banqueta
esfarrapada
diante do espelho
de um velho tocador,
com gavetas, gavetinhas,
escaninhos
onde estavam escondidos
os tesouros da minha mãe!
Um coração de ouro oco
onde no meio luzia
a bigodaça farfalhuda,
enfeitando o rosto fino,
jovem, aprumado,
do meu pai!
Um monte de fotografias
amareladas,
contando uma história,
ora sinuosa, ora grandiosa,
de uma cidadã com postura!
Os documentos identificativos
dos que restaram na casa,
embrulhados em papel de seda,
 as nossas cédulas,
os boletins de vacinas,
e numa caixa de metal
uns cachos dourados,
o primeiro corte de cabelo
de um qualquer filho!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

DIA DE DANÇA NO SALÃO

Edgar Degas
DIA DE DANÇA NO SALÃO

Mão na mão
dança e contra-dança
bailada na ponta do tacão!
Arfa o corpo suado
a pele já não retém
o coração rebentando
mesmo no meio do salão!
Ponho-me a jeito,
reflicto no espelho gigante
as portas que abro
para tu poderes entrar!

EU



Munch
EU  

Puxo pela memória
mas não me lembro
do dia em que nasci!
Não sei se era dia
de vento ou de chuva,
se houve um presságio
ou outro acto mágico
para me prender à terra mãe!
Este desassossego
não sei de quem o herdei
nem as mil caras que visto
para poder sobreviver!
Espreito pelo postigo
e só vejo trigo duro,
sem adubo, nem tempero,
o que se dá ao cerdo
para engordar!
A brisa do vento Norte
traz o  odor de coentros
do quintal da minha avô!
Sigo o olfacto,
faço umas migas perfumados
para me alimentar!
Esqueci o dia e a hora
em que me pariu minha mãe
e como com agrado
esta refeição simples
e assim poder continuar!