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terça-feira, 9 de julho de 2019

IN MEMORIAN

Fernanda das Neves
IN MEMORIAN

Da casa velha
restam as cortinas esfarrapadas,
as persianas batendo
contra a parede descascada.
O gato vadio
entrando à socapa
esperando o último bocado.
Sujidade, humidade,
as almas vagueando
por cima do sobrado.
Folhas voando
à volta do telhado,
a bengala do avó
perdida no telheiro.
Três camadas de gente
sentaram-se na mesa quadrada,
nas festas grandes e nas desgraças,
a mãe gritando: levem os restos.
Tudo é vão para além do nosso tempo
que é curto,
digno de ser bem aproveitado.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

A TIA MARIAZINHA


Fernanda das Neves
A TIA MARIAZINHA

A minha tia Mariazinha
noite e serão
de agulhas e lãs
na mão
fazia um tapete colorido
para me ofertar.
Passados anos
o tapete não se concluia.
Tal como Penélope
que fazia e desfazia
o que a tia queria
era a ideia de presentear.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

LENGALENGA FILOSÓFICA

Fernanda das Neves
LENGALENGA FILOSÓFICA

Tão tarde para descobrir
o que deu origem ao princípio,
não quero também saber
como vai acabar isto!
Findou, eis o facto,
pensar nele é perder tempo
é rastejar sobre as sobras,
é embarcar em memórias,
é  rodar em torno de si mesmo,
tornar o humano eterno!
Enterro o que passou,
enquanto o céu se alivia
numa chuva tropical,
coloco de seguida,
fora da janela,
um canteiro
com ervilhas de cheiro

coloridas!

HUMANOS

Fernanda das Neves
HUMANOS

Somos só humanos
com pretensão a ser deuses,
não sentindo bem
esta dualidade,
tudo o que fazemos
pelas nossas mãos
fica mais tempo

na eternidade!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

NÓS

Fernanda das Neves
NÓS

O nosso país
é uma oferenda
a um deus ausente,
nunca se contenta
com o sacrifício diário
executado por nós
no seu frio

altar de mármore!

terça-feira, 8 de maio de 2012

TRIBUTO AO 25 DE ABRIL


pintura de Fernanda das Neves
TRIBUTO AO 25 DE ABRIL

Nem a chuva tem já força
para te chorar, Abril !
Este tempo de chumbo,
de ignorância política,
de gritos pesados
e de silêncios globais,
não tendo a Pátria meios
para dominar o nojo
que é limpar o cu à Europa,
velha, gorda, doente!
Que tempo é este
que nos esgota
em novos despejos
e incidentes estranhos
com polícias armados!
Há um cheiro bafiento
erguendo - se da tumba do medo
vergando - nos até à chibata!
A Primavera tão fria
não traz o pão para a mesa,
a angústia penetra até ao umbigo,
os erros sucedem - se
fechando o portal da liberdade!
Não,
não cortem as raízes dos sonhos,
não destruam os recursos da esperança,
não desfigurem este país:
facho, luzeiro, lua,
caravela, nau, marinheiro,
mundo novo, mar presente,
namorados ensaiando
um beijo cheio.