terça-feira, 30 de abril de 2019

MEDITERRÂNEO


Collado
MEDITERRÂNEO  

Dizem-no um mar meio morto
e há tempo a esta parte
cemitério de muitos cadáveres.
Expulsos pela fome, pelas guerras,
juntam trapos e tostões,
atravessam continentes
vindo amarar em terras
para quem são detritos.
Já não são notícia,
já não abrem telejornais,
corpos em barcos a abarrotar.
Silencie-se o medo da morte
entre o pasmo e a lágrima a correr.
Cheira a maresia,
a gasolina entornada,
é muita a vontade de comer.
Salvam-se alguns
agarrados em esforço
a pequenos botes.
Uma criança dá à costa,
é bicada por uma gaivota
esfaimada.
Os pescadores chamam,
as autoridades,
contam-se os corpos
à deriva nas águas mansas.
As mulheres sentadas
na areia molhada,
as que sobraram,
dão às crianças os seios secos.
Olhos parados, mãos rígidas
não somos todos iguais,
uns têm lápides de luxo,
outros o esquecimento, o nada.

RELEMBRANDO


Collado
RELEMBRANDO

Não é para esquecer
o cinza pesado do passado,
o não poder respirar-se
de tanto o ar sufocando.
Não é para esquecer
a miséria
que se prolongou pós-guerra,
as crianças descalças,
a fome instalada.
Não é para esquecer
os mortos de guerra,
as viúvas por casar,
as mães de olhar vazio.
Não é para esquecer
as bocas fechadas,
os sonhos emparelhados
nas prateleiras do tempo.
Não é para esquecer
a repressão nas fábricas,
nos campos alentejanos.
Não é pa esquecer
o grito prolongado, o pranto
dos poetas engajados.
Não é para esquecer
a oposição vencendo
as sombras do medo
e depois à descarada
no parlamento amarrado,
vencendo com a palavra
a maldição da ditadura,
fazendo a democracia acontecer.
Não é para esquecer,
o respirar das facas
afiando-se nos quartéis
para libertar-nos.
Por todos os que morreram,
por todos os presos
e torturados.
Por todos os que foram silenciados,
por todos os que ergueram  
a bandeira da luta
a nossa solidariedade,
o eco das nossas vozes desarmadas.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

25 DE ABRIL

Giga Coelho
25 DE ABRIL

Tempo cinza,
uma névoa varria a terra,
as gentes,
na escola, por detrás da secretária:
o crucifixo, Salazar e Tomás,
a professora pequenina
de saia comprida,
trança amarrada no coruto,
ensinava à reguada,
cada erro uma palmada,
a igreja fazia parte
dos caminhos da subjugação.
Tanto tempo, tanta espera
da bendita liberdade.
Nos grandes cafés da cidade:
Rialto, Astória, Paladium
sussurrava a oposicão,
a Pide disfarçada
esperava a ocasião
de tortura e deportação.
Mas um dia,
o peito encheu-se de gritos,
as algemas cairam na calçada,
dançou-se nas praças e avenidas,
juntou-se o povo comovido
festejando o 25 de Abril,
arredando o fascismo das suas vidas.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

QUERERES

Adi Steurbaut
QUERERES

Sei que quero construir
qualquer coisa
a qualquer hora do dia
nos lugares habituais
com as pessoas comuns.
Sem grandes planificações
apenas com as ideias certas
aproveitando os seus interesses
e as minhas incertezas.
Há sempre em cima da mesa
algo que se veja
um poema a ler,
um bolo a comer,
uma caminhada a cumprir.
Dá-se passos
um de cada vez
e chega-se ao lugar almejado,
admira-se os campos lavrados,
a água que foge a correr,
o sol que queima forte,
corpo e alma.
Aguente-se a lucidez,
derrube-se o muro opaco
que entre a luz
erga-se o espaço.

MANSARDA

Alberto Ulloa
MANSARDA

Este era o sítio
onde dormíamos
por força do calor
com o pote de água
na mesa de cabeceira,
os pés espetados
na parede, latejando.
A aldeia sempre esteve lá
triste e silenciosa
com casas de lavoura
cheirando a excremento
de gado.
O pão era cozido
semana a semana,
amarelo da cor do milho,
denso
tal qual as cabeças dos labregos
que o cultivavam.
As uvas caíam das latadas
escuras, sumarentas,
enchendo-nos de “medalhas”.
Queríamos pouco,
banalidades, passar o tempo,
fazer de índio ou americano,
vencer todas as guerrras
dentro da nossa cabeça.

terça-feira, 9 de abril de 2019

AS POMBAS

José Gonçalez Collado
AS POMBAS

As pombas
pintadas de tom cinza,
nas suas casas de árvore,
resguardadas,
esperam que a chuva amaine
para poder contra o sol
bater as asas.
Sentada no café,
a temperatura amena,
não sei se quero ser eu
ou o bando de aves
com liberdade plena.
Estar, partir,
conforme a estação do ano.
Rolo a caneta
no tampo da mesa,
mordo o croissant
demasiado amanteigado.
O dia a ficar com sentido,
um poema novo
vestido de Primavera,
 morangos lavados
ao lado.

QUOTIDIANO

Silvana Violante

QUOTIDIANO

Digo adeus à vizinha,
na névoa amanhecida
desço as escadas a correr
e volto ao dia a dia.
O escritório bafiento
atafulhado em papelada,
o chefe birrento,
as calças sem vinco,
o blaser démodé.
Cercam as paredes frias
nada de risotas, de paródias,
desfiam-se as histórias
de vidas mal resolvidas.
Um passante vindo não sei de onde
sorri e olha-me longamente
como se me conhecesse,
às oito em ponto.
Ouçam os meus pensamentos
enleados em moinhos de vento,        
fujam os olhos cansados
pousando em campos de trigo.

BANHOS


Raquel Taraborelli
BANHOS

De sombrinha espetada
percorrendo o areal,
bota de estopa
até ao tornozelo
não vá o diabo tecê-las
e ver-se a perna torneada.
Cedo, pelas seis da manhã,
hora purificadora,
vestida de bata comprida,
a minha avó
com a ajuda do banheiro,
mergulhava três vezes
nas ondas alterosas de Espinho,
Cumprida a receita
voltava a Argoncilhe.
Os banhos eram remédio
curando todas as maleitas.

terça-feira, 2 de abril de 2019

PALAVRAS

José Gonzaléz Collado
PALAVRAS

Nascem palavras
no parapeito da janela,
vírgulas, pontos finais
e mais sinais.
Poderosas as palavras
querem mais,
uma frase impressa,
outra e outra
que se junta à primeira.
o texto vence a hesitação,
redime.
A luz turva tremelica,
a chuva lá fora é gelada,
o fogo da lareira
dizima o que senti
durante aquele dia.
Revejo o texto,
acho razoável a produção
nascida a partir da janela.

PLANEAMENTO

COLLADO
PLANEAMENTO

Agarrar a força do acordar,
olhar o dia a amanhecer,
celebrar o café da manhã,
degustar, devagar os scones
barrados com doce de maracujá.
Viver rápido as 24 horas,
ouvir música no ar,
esquecer o passado,
correr no futuro.
O corpo exangue
não sente os músculos,
os cartazes à beira da estrada
anunciam novo perfume.
Sentar sob o alpendre,
a sopa no tampo da mesa,
o mapa de afazeres
cruzando o mês inteiro.
Ah, viver é desafiante.