terça-feira, 30 de abril de 2019

MEDITERRÂNEO


Collado
MEDITERRÂNEO  

Dizem-no um mar meio morto
e há tempo a esta parte
cemitério de muitos cadáveres.
Expulsos pela fome, pelas guerras,
juntam trapos e tostões,
atravessam continentes
vindo amarar em terras
para quem são detritos.
Já não são notícia,
já não abrem telejornais,
corpos em barcos a abarrotar.
Silencie-se o medo da morte
entre o pasmo e a lágrima a correr.
Cheira a maresia,
a gasolina entornada,
é muita a vontade de comer.
Salvam-se alguns
agarrados em esforço
a pequenos botes.
Uma criança dá à costa,
é bicada por uma gaivota
esfaimada.
Os pescadores chamam,
as autoridades,
contam-se os corpos
à deriva nas águas mansas.
As mulheres sentadas
na areia molhada,
as que sobraram,
dão às crianças os seios secos.
Olhos parados, mãos rígidas
não somos todos iguais,
uns têm lápides de luxo,
outros o esquecimento, o nada.

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