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terça-feira, 10 de julho de 2018

PAISAGEM MATINAL


Ana Cristina Dias
PAISAGEM MATINAL 

Acordar com a brisa da manhã,
abancar na mesa de pinho velho,
comer a fatia de tarte de maçã,
beber devagar
o chá de Lúcia-lima
traçado com leite magro.
Olhar pela janela baça
debruçada sobre uma tília majestosa,
vislumbrar os pássaros a planar,
sem pressas, sem contas a pagar.
Esfregar os olhos,
que preguiça santo deus.
E o trabalho? Que lembrança!
Pegar o autocarro da carris,
ir como sardinha em lata,
cumprir o horário,
as ordens do chefe,
sem direito a reclamar.

IDEIAS AMONTOADAS


Ana Cristina Dias
IDEIAS AMONTOADAS 

Palavras, sinais de pontuação,
figuras de estilo, inversões,
o navio a flutuar
no olhar da coisa amada,
mensagens trazidas por Mercúrio
nas suas asas de renda.
Pontios no céu por decifrar,
o verbo que não acompanha
o sujeito,
terça feira diluviana,
o ferro que não desfaz
as pregas do pescoço.
Textos em Inglês
indecifráveis e frios,
a humildade fugida
por imposição da vida.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

POBRES TEMPOS


Ana Cristina Dias
POBRES TEMPOS

Um risco vermelho
mancha a brancura da parede,
a alma sangra
em ferida exposta,
as gaivotas nervosas
atacam alvos ao acaso,
crianças são engaioladas
enquanto os pais são interrogados,
em Itália querem-se os ciganos
em listas fixados,
e pode-se exterminá-los?
A fome passeia na tórrida África,
onde  cristãos são chacinados,
na América Latina mata-se,
mata-se, mata-se,
no Médio Oriente enlata-se
a liberdade.
Os credos servem o poder,
sem permissão traçam em dor
a todos um sombrio destino.