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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

FAMÍLIA

José Gonzalez Collado
FAMÍLIA  

Sandim,
lugar do Calvário,
ao cimo a capelinha
da senhora das Neves,
uma casa igual
a muitas outras,
ali nasceu o meu pai,
na casa que foi dos meus avós.
Soalho de tábuas corridas,
a sala, uma mesa grande,
santuário cheio de imagens
divinas.
A cozinha, centro da casa,
o louceiro de pinho,
guardando a louça
de barro cozido,
a lareira sempre acesa,
achava-a
do tamanho do mundo.
O fumeiro rescendendo,
a resina estourando
na lenha mal seca.
As batatas cozidas com pele
na panela enorme de ferro.
Os tios cheios de fome
comendo à socapa,
engasgando-se.
A visavó Margarida
cortando a broa de milho,
meticulosamente,
como se fosse avaliada por isso.
Os rituais repetidos
no dia a dia de gente pobre.
Trabalhar, alimentar,
sobreviver em tempos difíceis.
O relógio antigo
batendo compassadamente
as horas.
As tias mais novas
alisando os cabelos pretos.
O meu avô tirando do baú
o violino
e eu espantada a ouvir
os sons lindos
saídos da caixa de madeira.
Na parede alinhados os retratos,
a visavó paterna,
o avô e a avó,
os quatro primeiros rebentos
de uma prole imensa.
Dessas gerações entrelaçadas
restámos nós os bisnetos,
ainda ardendo em chama
enquanto vislumbrámos
a eternidade.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

FAMÍLIA

Collado
FAMÍLIA  

Essa  realidade doce e azeda,
encontros nas festas,
solidariedade nas doenças,
participação marcada nos funerais,
odiando-se no dia a dia!
Ah a sobrinha baixinha
de nariz empertigado
nascendo para cantadeira
chegou a Secretária de Estado!
O primo esguio
com ar de retardado
acaba o doutoramento
louvado e distinguido!
Que excêntrica situação!
A cunhada Amélia,
uma pelintra,
conduz coitada,
um Volvo em segunda mão!
A irmã Adriana
já revelha,
pinta os lábios de encarnado
e oferece-se no Facebook!
É esta a estranha vida em família
uma constante contradição
entre o ser e o dever,
entre o querer e o poder,
entre o amar e o odiar!