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terça-feira, 30 de abril de 2019

RELEMBRANDO


Collado
RELEMBRANDO

Não é para esquecer
o cinza pesado do passado,
o não poder respirar-se
de tanto o ar sufocando.
Não é para esquecer
a miséria
que se prolongou pós-guerra,
as crianças descalças,
a fome instalada.
Não é para esquecer
os mortos de guerra,
as viúvas por casar,
as mães de olhar vazio.
Não é para esquecer
as bocas fechadas,
os sonhos emparelhados
nas prateleiras do tempo.
Não é para esquecer
a repressão nas fábricas,
nos campos alentejanos.
Não é para esquecer
o grito prolongado, o pranto
dos poetas engajados.
Não é para esquecer
a oposição vencendo
as sombras do medo
e depois à descarada
no parlamento amarrado,
vencendo com a palavra
a maldição da ditadura,
fazendo a democracia acontecer.
Não é para esquecer,
o respirar das facas
afiando-se nos quartéis
para libertar-nos.
Por todos os que morreram,
por todos os presos
e torturados.
Por todos os que foram silenciados,
por todos os que ergueram  
a bandeira da luta
a nossa solidariedade,
o eco das nossas vozes desarmadas.

terça-feira, 28 de março de 2017

RELEMBRANDO



 António-Lino
RELEMBRANDO  

Passa a vida tão depressa
no ponteiro do relógio,
levanta, acorda,
lava a cara qual sonâmbulo,
apanha o metro,
toma café e um croissant
num boteco junto ao escritório,
pega pasta, arquiva pasta,
cataloga mil papéis,
a luz do dia esvai-se
por entre os estores entreabertos,
que vontade de voar
na asa branca da última gaivota,
poisar numa ilha deserta,
escrever poemas,
o dia escorrendo
entre os dedos e a caneta,
Que fazer, que dizer,
não há relógio de pulso,
sacode-se a areia,
é uma emoção o pôr do sol,
adormecer ao som doce
das ondas calmas

abraçando a praia.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

RELEMBRANDO

Collado

RELEMBRANDO

Dois poetas velhos
conversam,
sentados na esplanada,
da confeitaria Ateneia,
num dia farrusco
do mês de Abril passado.
Lamentavam-se de tudo :
da falta de educação
dos mais novos,
da chuva que caía,
da reforma parca.
Queriam a Primavera de outrora
que de amena
fazia descer os decotes
das pequenas da cidade.
Olhavam para o cimo da fachada
do actual Continental,
falta-lhe os cabeçalhos
dos matutinos do Porto
passando continuamente,
informando, avisando.
Queriam o café de saco
servido em chícaras
de porcelana,
os pregões dos muitos vendedores
ambulantes, circulando,
das beatas papa missas
madrugadoras e recatadas,
dos cavalheiros de bigode
penteado
tomando café e conhaque
ao fim da tarde.
O tempos são outros, mudam
só os velhos poetas
ficaram parados.