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terça-feira, 15 de outubro de 2019

OUTONO

Mário Couto
OUTONO

Outono, no Porto granítico,
o céu enevoado e cinza,
dia sim, dia não.
Os turistas aos magotes
em grupos enfileirados
guiados por rapazes e raparigas
alguns até cantam o fado.
As mulheres entram apressadas
em ourivesarias antigas
e compram jóias em filigrana.
Uns param nas calçadas
e tentam interpretar
os desenhos calcetados.
À tarde quentura,
à noite sopra um vento do rio,
põem as damas uma echarpe
antes do jantar na esplanada.
O Porto empurrado
por estes pilares inesperados
fica lavado graças a eles.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

PORTO


Mário Couto

Palavras de granito rosa
ditas em tom berrado,
os carros em velocidade
percorrendo a cidade com gente,
os moços imberbes
lançando piropos às moças
tontas como eles, é da idade.
O calceteiro de cócoras
conserta uma rua principal,
é o Tino de Rãs
e ninguém dá por nada.
As casas de estrutura igual
com varandas de ferro forjado,
clarabóias coloridas,
jóias lindas no Porto
que eu amo.
Algumas solidões
encolhidas nas mesas
dos cafés históricos,
hoje só para turistas.
O livro escancarado,
penso porque leio,
sou  uma pensadora
sem salário.

terça-feira, 3 de abril de 2018

UM ABRAÇO


Mário Couto
UM ABRAÇO

O abraço é breve
sem razão, sem porquê,
pássaro correndo
contra o vento,
mão semeando
pensamento transitivo
no asfalto da cidade.
Na cabeça um vazio
contrapondo-se ao rio
sabendo ao certo o caminho
na direcção da foz.
Canto nostálgico
das gaivotas imperiais
pousando firmemente
no capot  d e um carro
donde se vê o casario
do outro lado da marginal.