quarta-feira, 27 de abril de 2016

COMO SE DESENHA UMA CASA

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COMO SE DESENHA UMA CASA  

Tu lês o poema em voz alta
“como se desenha uma casa”
de Manuel António Pina,
sentindo cada palavra.
Conforme a entoação
abro o portão da casa,
a horta, o pomar prenhe,
o cão rafeiro
mordendo-me o dedo do pé,
o lampião de lata,
a iluminação velada do jardim.
As fotos espalhadas na arca
do hall de entrada,
os amores passados
estampados no vinil
enfileirado na estante
desenhada a régua e esquadro.
Os planos adiados
por falta de dinheiro
ou de oportunidade.
As ruínas que ficaram,
as frases não escritas,
as defesas rechaçadas,
a história espalhada nas paredes
verdes de verdete,
o medo do futuro.
Embalada pela récita,
repetia entusiasmada cada frase
do poema
aconchegando-me na casa
construída pelo poeta.

INÊS

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INÊS

Pensei em ti o dia todo
queria fazer algo grandioso
para te impressionar,
agradar-te.
Bati à tua porta
com o dia a declinar ,
nas mãos um ramo de vinte rosas
vermelhas
como as faces coradas
do teu rosto emocionado.

OBSERVAÇÃO DE FIM DE TARDE

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OBSERVAÇÃO DE FIM DE TARDE  

A esplanada é convidativa,
em vez de cadeiras,
espreguiçadeiras
viradas para o mar.
As gaivotas esvoaçam
à volta da traineira
à espera que lhes caia a refeição.
Um ventinho irritante
abana o guarda-sol,
o bar da praia cheio de gente.
O café não espera,
quente, escaldadiço,
negro, fumegante,
bebo-o em três goles.
Paisagem que enche
o olhar e a alma,
acalma, faz o dia melhor.

PROMESSA

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PROMESSA  

Hoje, calo-me
não falo,
faço do silêncio mensagem,
não escrevo,
espero.
Amanhã,
talvez tudo melhore
e eu esqueça
este voto de silêncio
num tempo sem vento
deixando-me ouvir.
Quero apenas um país
sem jovens emigrantes,
sem canais retratando
desgraças diariamente,
esquecem-se os problemas
de um povo sofrido,
sempre adiado,
sem timoneiros audazes
Por isto falo,
agito,
grito de tempos a tempos,
recordando:
é preciso trabalhar
para engrandecer de novo
este país adormecido.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

BOM DIA

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BOM DIA   

Todos os dias nos cruzámos
com a vida,
bom dia!
Neste dia de sol,
estranhamente brilhando,
no meio do Inverno triste,
levantei-me com vontade
de fazer qualquer coisa diferente
pintar de verde
todas as casas escuras
das vielas do meu Porto velho.

COISAS DOS TEMPOS

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COISAS DOS TEMPOS  

Nos cantos das ruas da minha cidade
onde antes havia canteiros
de sardinheiras floridas
existe agora um mendigo
de mão estendida à caridade.
Usando várias tácticas de ataque :
lengas lengas repetidas
pai nossos e avé marias,
cantigas e acordeão
aleijões e cegueira,
pensos rápidos e almanaques
e cães muitos cães.
deitados no chão.
Perdem estas pessoas a dignidade
perde o país a identidade.

UM DIA FRIO DE PRIMAVERA


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UM DIA FRIO DE PRIMAVERA  

A chávena de café com leite
escaldada
é mais quente
neste dia de Primavera
muito frio.
As pernas passam apressadas
por entre as mesas das muitas esplanadas,
o trabalho é urgente,
o dinheiro mais urgente ainda
e sempre pouco.
No canto do café
entre a sombra e a luz rasante
um par de namorados roqueiros,
intervala entre as mensagens
recebidas e enviadas,
beijos com a intensidade da mostarda.
Adivinha-se noitada agreste
quem sabe se nevará,
purificando
tudo o que há para purificar.

PASSOS


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PASSOS  

Quantos passos demos juntos
pelo caminho da vida?
Tantos
que lhe perdi a conta.
Lado a lado
puxando cada um para o seu
com passadas largas,
ligeiras, apressadas,
frescas ou cansadas,
falando, caladas,
observando a paisagem
ou apenas cumprindo a caminhada.
Sentindo as batidas do coração
de cada um de nós,
sentindo a pele fria ou quente,
marcando nas ruas do Porto
a nossa presença.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

UM RAMO DE ROSAS

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UM RAMO DE ROSAS

Cairam-me os olhos
num vaso negro
cheio de rosas amarelas,
no cimo de uma prateleira
de uma loja antiga de flores
a ocidente da cidade.
Peguei à toa
numa mão cheia
posteriormente embrulhada
num celofane lilás
e amarrado com fita de cetim
discreta.
Não minto se disser
que foi o ramo mais lindo
colocado por mim
na jarra de cristal
do meu quarto verde
com vista para o mar.

POLITIQUICES

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POLITIQUICES

Sentados nas bancadas do povo
jogam com as palavras
e riem.
Riem de quê
pergunto eu
na minha eterna ignorância.
Percorrem as redes sociais
tentando limpar
a sua ineficácia
com discursos estudados
até ao último pormenor.
É vendar os olhos
a quem ainda quer ver
para vencerem
e permanecerem
no pedestal do poder.
O povo de cabresto enfeitado
encolhe os ombros
e prossegue resvalando
na sua triste realidade.
Votem, votem,
olhem para mim
a beijar velhinhos e crianças,
a beber ginginhas e minis
a provar bolinhos e pastelinhos
a ouvir rap em bairros pobres.
A abraçar velhos e novos,
a percorrer vilas e cidades
num carocha emprestado..
E cai-se na lábia
de tantos
que só nos conhecem
para lhes enchermos os cofres.

BAIRRO COM FLORES

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BAIRRO COM FLORES

No bairro das Fontaínhas
por entre vielas estreitinhas,
casas de paredes rasgadas,
ondas de roupa secando ao sol,
lajes antigas cobrindo ruelas,
despertam nas bermas
pequenas flores.
O vento soprando forte
do rio
arrasta de quintalejos sementes leves
e o milagre da germinação acontece.
Os barcos percorrem o Douro
os turistas aplaudem tudo,
dançam rindo
ao som da música pimba
de que nada entendem
a não ser que é para pular.
O tempo é inseguro
nesta Primavera de nome,
capas e guarda-chuvas
esvoaçam pelas ruas
correndo até aos cafés,
degustam a nossa gastronomia
que os autóctones
não podem provar.
A cidade renasce das cinzas
por todo o lado reconstrução
o capital aproveitando a ocasião.
Mas o que me fica
são as flores
brotando e salpicando de cor
a gasta e negra calçada.

PEQUENO BURGUESA

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PEQUENO BURGUESA  

Presa à sua pequenez
e à cintura de classe média
mediana,
vai vestida de Zara pela rua
pensando em alta costura
aperaltando-se
com o último elo
de uma cadeia de produção.
Cola o nariz  bicudo
à montra do Marcolino,
vê a última tendência
dos relógios suíços,
estão como os da igreja
da sua terra
numa torre alta
dando horas só para alguns.
As casas de arquitectos
consagrados
guardadas por altos muros
são o vislumbre último
de um longínquo lugar ao sol.
E um Jaguar
ah, um Jaguar verde
onde iria a Luísinha
de vestido de cetim
pavonear-se na marginal
ancestral,
da cidade de Espinho.
Não toma em conta as explicações
o topo tem códigos rígidos,
alçapões, segredos,
degredos, desilusões,
espezinhamento múltiplo,
pragas rodadas, sarnas,
quermesses e muitas lágrimas,
tédio, inocências perdidas.
Degustam não comem como a Luísinha
uma francesinha apimentada
na Capa Negra da Baixa,
numa sexta feira ao fim da tarde.

terça-feira, 5 de abril de 2016

PAISAGEM NOCTURNA

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PAISAGEM NOCTURNA

Noite, luar,
ralas, pirilampos,
sapos, morcegos,
circundando o jardim
ensombrado,
a dormir.
O silêncio é pesado
atravessado apenas
pelo coaxar das rãs no lago.
A gata da vizinha
recentemente parida
transporta na boca
as suas crias.
Deposita-as no cesto da lenha
junto ao forno
onde de quando em vez
asso um cabrito.
A casa fica num baixio,
de noite o céu e as estrelas
são a única paisagem
que entra pela minha janela
entreaberta.
O mar dista meia dúzia de quilómetros
a nascente,
chega  aqui o cheiro a maresia,
a barcos parados
que nunca chegaram a partir,
a velhos marinheiros
fumando cachimbos esquecidos
no baú das recordações.
Tu que não chegas,
a chave que não roda
na porta da entrada,
que frio,

deixa-me ir dormir.

ERA SÓ UM CARACOL

Octavi Intente

ERA SÓ UM CARACOL

Era só um caracol
comendo de noite
escondendo-se de dia
na concha redonda.
Não opinava,
não barafustava,
não escolhia o lado
esquerdo ou direito,
o meio era o seu fio de prumo.
Entre deus e o diabo
não se comprometia.
Um dia tendo de escolher
entre a vida e a morte
sentou-se no telhado
esperando escorregar

até ao caixote do lixo.