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quinta-feira, 20 de abril de 2017

DESCOBERTA



 Lima de Freitas
DESCOBERTA 

Acreditando para lá de nós
tudo é explicável,
o sol, a lua, as árvores, as flores,
os pássaros, o mar, o pôr-do-sol.
A vida é um suspiro,
um ai, um esgar,
uma alegria, um prato de lentilhas,
um manjar, um começar,
um fim  de linha
numa estação desconhecida.
Soprando o vento Norte
lá se vão os planos
traçados a rigor.
Cumpre-se, falha-se,
sonha-se,
depois há o cansaço
por detrás de cada gesto
com frutos.
A eternidade não se gasta,
espera-nos
numa ânsia de partilha.
O tempo que nos é dado,
perecível, impaciente,
incerto, curto,
não acatando falhanços,
contra danças,
incumprimentos de prazos.
Para nosso descanso

temos o resto para lá da vida.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

NÓS, PORTUGAL

Lima de Freitas

NÓS, PORTUGAL

Cumpramos alguma coisa,
não nos deixemos ficar
entre o fazer e o calar.
Portugal já foi destino de Deus
depois, abandonado,
não aceita tanta hesitação,
tanta preguiça.
Ao longe raia um novo mundo,
tão complexo, tão profundo,
os barcos  ancorados no cais
rompem as algas,
precisam da partida.
Os segredos não são desvendados
se não ousarmos defini-los.
Sintamos o fervor
dos nossos egrégios avós,
lutemos pelos outros
e por nós.
Arquitectos da nossa luz
do outro lado

só pode haver vida.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

MISERERE DEI


Lima de Freitas, in: http://artexmultipla.blogspot.pt/
MISERERE DEI

Foi anunciado
com alguma pompa
e circunstância,
em todos os jornais,
com letras garrafais:
viragem política,
ou seria voragem?,
o PSD ganhou as eleições!
Miserere Dei!
Perdeu-se o futuro
começou a destruição
de um país fragilizado,
querendo muito encontrar soluções!
Miserere Dei!
Tudo, segundo consta,
programado
por economistas iluminados,
neo liberais,
político europeístas convictos,
desejosos de um cadinho
para experimentar
a eliminação do Estado Social!
Miserere Dei!
Estávamos aqui em sossego,
expectante,
numa ajuda fraterna,
sem darmos por isso,
puseram-nos o açaime,
arrastaram-nos para o abismo,
esperando dar o pontapé final!
Miserere Dei!
Não há pão
para pôr na mesa,
nem trabalho
onde o ganhar,
os velhos em soluços
encostam-se aos muros,
temem que a esmola
mingue cada vez mais!
Miserere Dei!
Quanto tempo durará o degredo,
o apocalipse do medo,
o susto,
a pobreza?
Miserere Dei!
O que será preciso
para nos livrar da carraça
que nos dá bem que coçar!
Miserere Dei!
Portugal é um campo de batalha,
as nossas armas o grito,
a praça pública o eco
da nossa inquietação!
Miserere Dei!
Que filosofia política é esta,
cheira a bafio,
não é esta a Europa que queríamos,
da solidariedade fraterna!
Miserere Dei!
Anjos da Guarda nos acompanhem
e se Deus não ajudar,
não atrapalhe ao menos
os encontros ao luar,
a esperança que ainda temos!
Miserere Dei!
Geração das lousas e ardósias,
que viram os dois lados da vida,
inventem uma nova História
sem vendilhões,
antes que nos esmaguem
com o peso das suas botas cardadas!
Miserere Dei!