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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

PARTIDA

Collado

PARTIDA  

É tempo de despedida,
de emoções libertadas,
de madrugadas perdidas,
da convicção de que contámos,
eu, tu, os outros.
Acordados nas noites longas
rememoriando de fio a pavio
esta luminosidade rara,
este cheiro a mar,
esta calma mansa
de um povo acoitado
na sua condição de servir.
Não há pressas,
um último olhar
às fotografias do clã.
Não me liquidem
esta vontade de mudar,
não se perca a luta
nesta nova porta aberta
para poder trabalhar.
Sem submissão,
sem salário parco

legado de más governações.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

PARTIDA

Collado

PARTIDA

Saio de mala de viagem,
o saco de lona a tiracolo,
fecho a porta de casa,
aliso o cabelo,
revejo o corte das unhas,
os dentes foram escovados.
Posso partir.
Ficam na casa dez anos
vividos rebeldemente,
noitadas quentes,
muita bebida à mistura.
Vou trabalhar
num país que me quer,
que valoriza
a minha vontade de singrar,
Adeus casa, adeus cidade,
adeus família, adeus amigos.
Lá longe o dia é menos claro
a minha alma maior.

terça-feira, 8 de julho de 2014

PARTIDA

Mary Carmen Calviño
PARTIDA

Aproveita menino,
hoje,
o pão caseiro
na mesa posta,
o fio de azeite
escorrendo sobre o bacalhau
cozido,
a batata saborosa
do quintal de casa,
a sopa de couve galega,
a tora de chouriça fumada!
Amanhã partes
para o desconhecido,
deixas terra,
deixas amigos,
pai, mãe,
filhos!
A pátria tirou-te o chão,
o pão, o futuro!
Lá longe, do outro lado
do mundo,
escolhe um cantinho
para chorares de saudade
do que te obrigaram a largar!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

PARTIDA

Domingos

PARTIDA

Adeus cidade,
adeus paisagem,
adeus cais
de navios esquecidos!
Adeus mistérios,
ameixas grandes,
coloridas,
em xarope de amêndoa amarga!
Adeus  dias ressentidos
a meio caminho da vida!
Adeus colar de pérolas
sem brilho,
enroladas a pulsos hirtos
em noites  sofridas!
Adeus vento,
fome infame,
vinho tinto,
e, milhos aquecidos!
Adeus olhos molhados,
esplendor na nudez,
preces sentidas
e lágrimas de alegria!
Adeus pobreza de ideias
encarcerando-nos
na inconsequente
submissão consentida!
Adeus tu,
que sem qualquer decência
pedes constantemente
pimenta na comida,
pondo  de lado a vida!