terça-feira, 30 de maio de 2017

TEMPO

 J. Elizeu

TEMPO

Trai-nos o tempo
na sua urgência
de continuar,
tanta coisa inacabada,
tanto sonho truncado,
tanta toalha a bordar.
Branca e fria cai a noite,
estranho o silêncio
a envolvê-la.
Depois do merecido
descanso,
apressa-se o dia
com a pequena cotovia
batendo na janela
a acordar-nos.
Ah realidade real
sempre melhor que sonho,
funde corpo e alma,
prometendo

um tempo diferente.

CONTINUAR


Collado
CONTINUAR

Ainda não se cumpriu a estrada,
faltam manhãs claras,
pequenos almoços
de mel e maçã,
dias luminosos, arqueados,
notas arrancadas a violinos
esquecidos até agora
no pó do sótão.
Caíram as palavras, meu amor,
acção é urgente,
ser capaz de escrever,
derradeiros poemas,
acreditando nos poderes da lua,
espalhando na praia

centelhas da estrela da manhã. 

GUERRA NO MÉDIO ORIENTE



 J. Eliseu
GUERRA NO MÉDIO ORIENTE

Quanto tempo a guerra,
quanto tempo a morte,
quanto tempo a desdita
de ser-se abandonado.
Caem as máscaras,
acerta-se o passo,
centra-se a mira, dispara-se
Corpos caindo, sangue jorrando,
a guerra selvagem,
cadinho de interesses
tantos ceifando.
A terra violentado
grita: paz.
As palavras ocas repetem-se,
continua a negrura
em nome da prosperidade do G 7.
Ninguém enterrará as vitimas,
nem uma flor
nas suas mãos hirtas,
só cheiro pútrido
de quem está mais morto

que os mortos.

CANTILENA


Collado
CANTILENA

Num minuto
bate
repete
pára
o meu coração.
De ver-te
de ter-te
ao pé,
tomando comigo
um café,
iminente
é amar-te.
A lua
no teu rosto
alastra,
é segredo
manter-te
por tantas horas
a olhar para mim.
Vejo
a noite descida,
bom o fogão
a fazer tortilhas
para jantarmos

os dois.

terça-feira, 23 de maio de 2017

SONHOS

Collado

SONHOS

Sonhos, jogos
a esconder-nos
a realidade.
Perdidos, achados,
tecidos, adiados,
enquanto houver vontade
nada se perde
tudo se alcança.
Sonhos,
casa de bonecas,
luz coada, o odor
a rosas machucadas.
Sonhos,
sono a hora errada,
a cabeça rodando,
a luz a nascer
por entre a liberdade.
Sonhos
a vida mostrando-se
sob a verdade.
Mais dia menos dia,
juro,
dar-te-ei à sobremesa

um sonho com açúcar e canela.

ESQUECER


Collado
ESQUECER

Esquece o tempo,
esquece as lembranças,
esquece o lamento,
esquece o ferrete
enterrado na alma.
Esquece a ausência,
esquece o medo,
esquece o degredo
a que te votaram.
Esquece a sala,
o espelho grande
que te ajudava
a embonecar-te.
Esquece a partida,
o fim da linha,
vai noutra direcção,
faz acontecer de novo.
Desdobra os braços,
volta a lutar,
sai da encruzilhada,

não é o teu lugar.

REBOBINAR


Collado
REBOBINAR

Tudo volta ao princípio
tu e eu,
dentro de nós, o quê?
Que fizemos
amodaçados, atados?
Regressam as dúvidas,
a vida não dá descanso.
O coração vibrando
ainda bate
procurando em cada caco

o sentido de tudo.

ESTAÇÃO DE S. BENTO


Collado
ESTAÇÃO DE S. BENTO

A estrela cadente
deslizante, fremente,
quase, quase acosta
no meu colo.
Brilha na noite
a noite mais noite
à noite
no vazio do cais de embarque
depois da última partida.
O cenário é o costumeiro
um comboio que chega,
outro que parte,
o jornal esquecido
no banco da frente.
Alguém de olhar perdido,
encontros e desencontros
não ficando para a história,
Uma lágrima deslizante
num rosto sem brilho,
um beijo sentido,
a vida tomando o seu rumo.

terça-feira, 16 de maio de 2017

CHEGAR

 Collado
CHEGAR

A noite é o chegar
a qualquer coisa
a que se chama lar.
Um lugar sem trovoadas,
os relâmpagos riscam
para lá da janela larga
da sala de jantar.
Presente sempre
a música clássica
transportando a alma
a outros patamares.
Recomeça-se o jantar:
uma mera brochetta
de rúcula e presunto de Parma,
salpicada de azeite
e flor de sal.
Não me lembro de nada
mais reconfortante
a não ser um copo

de vinho branco gelado.

FOTÓGRAFO DE GUERRA



  Collado
FOTÓGRAFO DE GUERRA

Tu que no escaldante
rebentar de bombas
fotografaste os olhos
da morte,
o trio da destruição
metralhadora, mísseis,
snipers,
o catraio a deambular
só com um sapato,
ao encontro
do que já não existe,
o silêncio da dor restante
depois de todos os sonhos
se escaparem,
o vazio parido
nos escombros
dos prédios caídos.
No fim do dia,
no momento exacto
em que o sol cai no horizonte,
és capaz ainda
de tirar do teu velho violão
enlacrimado
uma canção ou fado
lembrando

que amanhã é um novo dia.

PRIMAVERA



  Collado
PRIMAVERA

Primavera
quem me dera,
lágrimas grossas
de chuva intensa
escorrem na janela
contraída pelo frio.
Um cinzento metálico
instala-se no céu,
voraz o vento
empurrando as nuvens
desabando em água.
Nem sinal de sol,
de pátios plenos de vozearia

à volta de tábuas de queijo e mel.

DOURO



 foto AC
DOURO

O rio correndo
sempre no mesmo leito,
águas revoltas sem parar,
a caminho da foz,
entrando no mar.
As margens comprimem-no
até ao Inverno
que o faz galgar muros e pontões
Invade a velhinha Miragaia
antigo poiso
de bêbados e pescadores.
Na infinitude da água
perco-me no meu finito,
quero chegar a qualquer lugar,
o tempo é pouco,
é preciso fazer a coisa certa.
Cismando,
agarrada às margens,
à cidade telúrica
de burgueses e poetas.
antes de partir num navio
em redor do mundo

para me conquistar de novo.

PENSAMENTO



 Collado
PENSAMENTO

Ausente de mim
que importa a tua sombra

na soleira da porta dos outros. 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

TUDO COMEÇOU ASSIM



 Carlos Antunes
TUDO COMEÇOU ASSIM

Exíguo era o assento
no parque central da cidade,
não cabiam dois
ou caberiam,
com algum encolhimento.
Sentamo-nos,
um pouco apertados,
arreda para lá,
chega para aqui,
o desconforto criou conversa.
Passou a hora, passou a pressa,
passou o incómodo,
passou o comboio
que nos levava até casa.
Nasceu empatia,
nasceu magia,
nasceu outra coisa
mais enevoada
dissipando-se à medida
que a manhã nascia.
Trocaram-se os números
dos telemóveis,
prometeram-se
novos encontros
em lugares maiores,
com mais amplitude
para novos sentimentos

que de intensos não caberiam

1 º DE MAIO - PANFLETO



 Octavi Intente

1 º DE MAIO - PANFLETO

Mais um dia comemorado
no poder já morno das palavras,
que significa dia do trabalhador
sem trabalho, que significa trabalhar
em economias neo-liberais
cuja meta é ter cada vez mais
na mão de uma minoria possidente.
Ah europeus molengos
passeando as armas e os cantis
nos abandonados jardins
de cada cidade adormecida.
Temam os novos guardiões
mandando cães arreganhados
morder a liberdade.
Afinal o que queremos
migalhas de sobrevivência
ou ter de novo lugar
na mesa da distribuição

da riqueza criada por todos nós?

PRIMEIRO CAFÉ



 Dunieski Garcia
PRIMEIRO CAFÉ

O aroma do café
de manhã cedo,
ascende ao olfato.
Apercebo-me
 automaticamente
do acto de sentar,
ler o jornal,
pegar na chávena
do lado contrário
à asa,
saborear o líquido
quente,
forte, negro,
capaz de preparar
o começo

de um novo dia.