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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

AMIGOS

José Gonzaléz Collado
AMIGOS

Algum dia fomos amigos,
conhecidos talvez
e de laços meios forçados?
Entretanto perdemos anos
a acompanhar o mesmo percurso,
que desperdício!
Pensando bem
em cada encontro
e tardes sentados
havia uma faca pendurada
pronta a cair nas nossas costas.

terça-feira, 11 de junho de 2019

VIDAS

José Gonzaléz Collado
VIDAS  

Há vidas mal engendradas
acontecem como as outras,
uma mãe, a dor de parir,
o nascimento da criança.
O novo ser chora,
tem um corpo escorreito,
um olhar grande
agarrando todos os que estão
por perto.
Cresce, vai para a escola,
aprende fácil ou não,
bate nos colegas
com alguma veemência.
É dinâmico, mestre em liderança,
percebe de números
e diz que isso leva ao progresso.
Gosta de praia, de viajar,
fanático por bola até dizer não.
Não escolheu o caminho,
foi por ali derrubando arestas.
à noite comia maçãs reinetas
e bebia um porto velho.
Faltou-lhe o ouvido apurado
não gostava dos clássicos.
Um dia perdeu-se
no denso e obscuro mundo,
alguém se aproveitou
e tomou o seu pedaço.
Tal como um eremita
escolheu uma montanha
e no sossego da serra
é um descanso
comer sardinhas assadas,
beber malgas de tinto verde
tingindo de vermelho os lábios.

PEDIDO


José Gonzaléz Collado
PEDIDO  

Mortais, indefesos,
pequenos, assustados
face às armas do poder,
resta-nos o pensamento
livre, aberto,
lutar contra a informação
manietada.
A ideia de homens-bons
sentados na Casa
dos Vinte e Quatro
decidindo sabiamente
o destino do povo,
foi-se.
Temos o abuso, a corrupção,
o luxo à nossa custa
enquanto contámos tostões.
Ah poetas do meu país
usem, abusem
do direito à indignação,
sejam o facho, a luz,
o inicio de algo novo
e transformador.

terça-feira, 4 de junho de 2019

TEIMOSIA

José Gonzaléz Collado

TEIMOSIA  

Teimar olhar o céu,
querer comprar a lua.
Teimar correr até à paragem,
ter como oferta o bilhete.
Teimar participar
em manifestações anti-sistema,
insultar o polícia que as trava.
Desejar o centenário da minha mãe
Sabê-la morta.
Maquilhar-me
frente ao espelho que emagrece,
achar o vulto projectado
em boa forma.
Teimar em querer ver desfocadamente
a violência, o sangue, na Síria,
ouvir violinos tocando Vivaldi.
Tapar a voz da vizinha
que se expõe à janela,
o gato é que se espanta
e a arranha.
Ouvir anedotas não recomendadas
gozá-las sem achar piada.
Beber copos de água
sonhando com champanhe
e com um mundo fora da realidade.

terça-feira, 2 de abril de 2019

PALAVRAS

José Gonzaléz Collado
PALAVRAS

Nascem palavras
no parapeito da janela,
vírgulas, pontos finais
e mais sinais.
Poderosas as palavras
querem mais,
uma frase impressa,
outra e outra
que se junta à primeira.
o texto vence a hesitação,
redime.
A luz turva tremelica,
a chuva lá fora é gelada,
o fogo da lareira
dizima o que senti
durante aquele dia.
Revejo o texto,
acho razoável a produção
nascida a partir da janela.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A AVÓ OLINDA


José Gonzaléz Collado
A AVÓ OLINDA 

A avó Olinda
mãe do meu pai,
era tão beata, tão beata,
daquelas de terço contado,
diariamente, pós jantar,
preces ao deitar,
missa ao domingo,
em dias santos
e santificados,
e confessos semanais.
O oratório da sala
com Cristo martirizado
ao colo de sua mãe
dolorosa,
assustava-me,
à noite tinha medo
de o olhar.
Assistiu ao baptizado
de todos os netos e bisnetos,
conforme a prática cristã.
Total o seu amor
ao Catolicismo,
sofrida ajoelhava
esquecendo as dores da vida.
Os dedos angulosos
Esticavam-se
tirando do fundo do medo
os deuses por si criados.
Vergada ao peso da alma
só se levantava
confessados todos os pecados,
perdoadas todas as leviandades.
Se fosse viva gelaria
ao ver os poucos frutos
da sua educação cristã.

GLICÍNIAS


José Gonzaléz Collado
GLICÍNIAS

As glicínias
em cacho, pintadas de lilás,
espreitam todos os muros
do país,
os limpos e caiados,
os abandonados
de pedras negras amontoadas.
Espalham em seu redor
um cheiro forte e doce
transportando Primavera
às ruas de todos os lugares.
São brincos dependurados,
enfeitando as cores,
do arco-íris na cal.

PROCISSÃO DA QUARESMA


José Gonzaléz Collado
PROCISSÃO DA QUARESMA 

Estarrecida
vendo o Senhor dos Passos
com toda a dor nos ombros
e ninguém, ninguém
para o ajudar.
O tempo esconso,
as beatas contritas,
porque não pegar
nele ao colo
e curar-lhe as feridas?
Bate o meu coração inquieto
querendo muito
que fosse só uma estampa
e não um episódio
de uma vida matada,
por prometer mudanças.

ESCOLA PRIMÁRIA

José Gonzaléz Collado

ESCOLA PRIMÁRIA 

Aquela escola primária
sem o ser,
casa alugada
com quartos, sala,
cozinha e privado.
O quadro negro de lousa
ocupava a parede
 mais larga.
À quarta feira
pendurava-se o mapa
de Portugal,
e viajava-se.
Cantavam-se as linhas
férreas,
batendo cadentemente
palmas.
Com pioneses coloridos
assinalavam-se os rios,
afluentes e subafluentes.
À sexta contava-se
o hino nacional
e beijava-se a bandeira.
As contas faziam-se
usando os dedos.
Venerava-se todos os dias
a professora esguia
como se fosse a nossa mãe
ou uma estrela guia.

terça-feira, 24 de abril de 2018

DO NADA SE FEZ LUZ


José Gonzaléz Collado
DO NADA SE FEZ LUZ

No príncipio era o nada,
o escuro, o silêncio.
Depois uma explosão,
um vulcão rompendo
nas entranhas da terra.
A lava pousada,
a terra arável,
as plantas crescendo
bafejadas pelo sol.
Deus decidiu
fez-se luz,
os animais
multiplicaram-se,
ocuparam espaços.
Tornaram-se o princípio
e o fim,
a resposta extasiada,
a essência, a crença,
a vida acontecendo
Tremeluzente
nas mãos do homem
um sopro diferente
para o último ser da criação.

ANIVERSÁRIO

José Gonzaléz Collado

ANIVERSÁRIO 

Comprou-lhe uma pulseira
de pérolas
sonhada desde o Natal passado.
Revirados os bolsos vários,
contou todos os tostões,
pediu uns trocos à mãe,
mas a prenda não faltou
festejando o aniversário.
Vinte anos, Teresa,
só se fazem uma vez.
Vestiu o fato escuro,
o que tinha guardado
no armário
para tais ocasiões.
Arrumou o cabelo revolto,
forrifou o lenço branco
com aroma de pinhal.
Ela apareceu,
a boca cor de carmim,
o sorriso de lua.
Ele acenava-lhe
do outro lado da rua.
Na mão o presente,
no olhar um ramo de girassóis,
na mesa reservada
ostras  e uma taça de champanhe.

NESTA PRIMAVERA

José Gonzaléz Collado

NESTA PRIMAVERA 

Manhã jovial
com cantos de pássaro
nos ramos das macieiras.
Poderosa terra
alfobre de raízes,
a luz rasa
entrando pela fresta
da janela.
A casa antiga
herança dos avós
embalando o marulhar
das águas do ribeiro.
O azul do céu
salpicado de gaivotas,
a gente imperfeita,
o corpo inseguro
amparando-se ao restolho
do aparar dos arbustos.

SALA


José Gonzaléz Collado
SALA 

O sol
não entra à tarde
na sala.
Uma lanterna acesa
silencia os contornos,
 o medo,
os movimentos rápidos.
Na parede os quadros,
paisagens reféns
de terras nunca visitadas,
A sala, muro
entre mim e lá fora.
Aconchego
no sítio exacto
onde quero estar.

terça-feira, 17 de abril de 2018

UMA VEZ POR ANO

José Gonzaléz Collado

UMA VEZ POR ANO

No Coliseu do Porto
havia o circo.
Cada Natal
brilhavam as luzes,
tocava-se saxofone,
o palhaço
de nariz arrebitado
fazia aparecer dos bolsos
grandes ramos de rosas
e pedia aos amáveis
meninos e meninas
que batessem palmas.
Numa correria louca
distribui à plateia,
deslumbrada,
bombons e gargalhadas.
Cabia nas suas mãos
a infância de todos nós.

CAMPO


José Gonzaléz Collado
CAMPO

Sentada no alpendre,
cogito,
será que um menino
da cidade
sabe o que é
um ancinho?
Que significa mondar?
Estacar ervilhas?
Coisas simples
para quem
nasceu na terra.
Neste chão
nesta terra fértil
subo com as raízes
da macieira,
desabrocho em frutos.

LEMBRAR


José Gonzaléz Collado
LEMBRAR

Jovem, inconsequente,
perdendo tempo
diante de um espelho
que de tão velho
não devolvia a realidade.
Apanhava o cabelo
num rabo de cavalo,
enche-se de bijutaria,
torna carmesim os lábios.
Sapatos de salto alto
mini saia colorida.
Correndo pelas ruas
pássaro alado
esperando voar.
Real, real, foi o beijo,
de rompante, meio frouxo,
roubado sem aviso
debaixo do velho plátano
enfeitando o jardim do bairro.

terça-feira, 10 de abril de 2018

A CASA DA MINHA MÃE



José Gonzaléz Collado
A CASA DA MINHA MÃE 

Sobe-se uma escadaria
o jardim ao cimo reclama
um pouco mais de atenção.
As buganvílias, as azáleas,
as hortenses, as dálias
meio murchas
suplicam água.
Nos baixos uma cave
maior que toda a casa
espalhando-se
abandonados
as enxadas, os ancinhos,
os gadanhos, as forquilhas,
as foucinhas, os cestos,
as tesouras de poda
mal afiadas.
A horta é um arco iris de cor
as beterrabas, as beringelas,
os tomates, os pimentos
as cenouras, as cebolas.
O forno de lenha há muito
apagado, silencioso,
guardando as memórias
das fornadas de regueifa
cheirando a canela e limão,
a Páscoa, a aniversários,
a gaudeo da filharada
comendo o ovo frito
que sobrou.
A sabor da compota de alperce
acre e brilhante,
a marmelada espessa
em tigelas verde alface
compradas no fim da feira.
Às taliscas de presunto
cortadas à pressa
não vá a mãe dar por ela.
O cheiro a Primavera
os sentidos libertando-se
nos ciclos anuais da natureza.
O Inverno rigoroso
atravessado as janelas,
o nariz colado ao vidro
querendo parar o frio.
A paz que fazia
naquela calmaria
enquanto se comia
o assado de domingo
debaixo das videiras.

UM LIVRO


José Gonzaléz Collado

UM LIVRO

Amontoado de páginas
lavradas em silêncio,
antes de o abrirmos
é o escritor e a gráfica.
Cheira a tinta,
a ideias trabalhadas
ao que existe
ao que foi inventado.
Tem voz, sentimentos,
leva-nos pela mão
a limpar a caverna
dos medos, do escuro.
Explode em enredos
encrespados,
em corpos suados,
em tardes de estio roxas
esperando a merenda.
Amigo de horas vazias
ouvindo em conjunto
o bater do relógio,
o afugentar das mágoas,
a toma do café
salpicando as bolachas
 crocantes
de gengibre e manga.
Braço dado na, madrugada
ensonados, esfregando os olhos
lendo ainda mais um capítulo.

QUERER MAIS



José Gonzaléz Collado
QUERER MAIS 

Deixo seguir os olhos espantados
até à foz onde acaba tudo,
onde os barcos partem
encaixotados que estão os sonhos.
Onde por cima das ondas
o restolho da espuma forma ondas,
o marulhas das águas
preenche os sentidos.
Onde no passeio marginal
os namorados se lambuzam
em beijos atrevidos,
as crianças rolam
em volta dos volumosos vestidos
das derretidas mães.
Onde para lá do mar somos nós
deixando a inquietude para trás.
Acalmada a comoção
eis à  nossa frente frutos tropicais
numa travessa de juncos servida.

terça-feira, 3 de abril de 2018

UM RETRATO

José Gonzaléz Collado
UM RETRATO

Francisca da Conceição
de bibe aos quadradinhos
e laçarotes coloridos
saltitando a caminho da escola
com saco a tiracolo.
A primeira a chegar
ocupando o seu lugar
no pátio das brincadeiras
por entre corpos deslizantes.
Real e tão etérea
tranças doiradas
de conto de fadas
baloiçando entre as searas,
um sorriso
extravasando o seu mundo.
Onde está esse brilho?
alquebrada, enrugada,
perdida nas recordações,
quem te cortou as asas?
quem te impediu de voar?