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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Falando

Victor Silva Barros

Falando 1

Um trovão estridente
encheu a casa de sonoridade,
veio de noite
fez-me companhia
até à hora de ir para a cama


Falando 2

A casa é o centro
do que sou,
é a antepara
do calor emanando o príncipio,
o vulcão explodindo
afastando a multidão.


Falando 3

A poesia é a eternidade
descendo com a alma,
é como plantar uma árvore,
fazer um filho,
escrever a cinzel
o nosso nome
na transumância
de cada cordeiro pascal.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

TU

Victor Silva Barros

TU  

Hoje não vou falar de ti
não precisas de estar aqui
para eu te lembrar.
Hoje não quero abraços,
dançar a compasso
uma valsa sem fim.
Hoje não quero beber martinis
com duas azeitonas,
comer tostas de centeio
barradas a queijo da Serra.
Não vou fazer mais um poema
com cotovias dentro
cantando uma área de Verdi.
Não vou descodificar
o teu sentir codificado,
fechado num cofre de cobre.
Vou soltar um balão
de ais sentidos
que caia numa vinha madura
com muitos copos à mistura.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

POEMA

Victor Silva Barros

POEMA 1

Cada casa suas histórias
penduradas nas memórias.
Fechadas com a morte
continuam vivas
enquanto duram os que
a habitaram.
Depois ficam os fantasmas
a espreitar as novas vidas
e felizes se forem
melhores que as suas.

POEMA 2

Subo a escadaria,
cansada,
antes de entrar em casa.
Até quando?
Nada me impede,
nem gente, nem bicho.
Construída num alto
permite um melhor respirar.
Apenas isso,
pois o resto é solidão.

POEMA 3

Queria a Lua
e não  gente a caminhar
em vez de pensar,
um poema contigo dentro
e uma cadeira para descansar.

POEMA 4

Uma constatação:
apesar de tudo
a vida é bela,
vale muito a pena,
alguém precisa de mim.

POEMA 5

Inédito:
um triste americano,
alto e robusto como
um carvalho do Norte,
sentado a uma mesa,
come uma francesinha
bebendo leite.

terça-feira, 8 de maio de 2018

OS PRIMEIROS TACÕES

Victor Silva Barros

OS PRIMEIROS TACÕES 

Os primeiros sapatos de tacão,
ver as coisas um pouco de cima,
o mundo era mesmo meu.
A distância entre eu
e os adultos, encurtou-se.
Usava-os com meias de seda,
ao domingo,
celebrando o dia do Senhor.
Mais um adorno
como a bandelete no cabelo,
a bolsinha com vidrilhos
a tiracolo.
Garbosos os passos
tão segura a caminho do futuro,
ainda não sabia
dos percalços da calçada
ao dobrar da esquina.

terça-feira, 13 de março de 2018

2018

Victor Silva Barros

2018  

Mais um ano
festejado com foguetes
e champanhe,
mudanças? não dei por nada
Os dias movem-se iguais,
no horizonte desvaneceu-se
a vontade para encontrar a paz,
mata-se na Síria
como que, extermina
as ratazanas.
As espingardas, objectos banais,
Compra-se o pão raro
embrulhado nelas.
Nós, portugueses
aqui estámos no cu da Europa
literalmente
à mercê que os boss
gostem de nós,
nos sentem à mesa
para provar a doce sobremesa
sobrante.
Lá se foram os desejos
engolidos com as passas,
resta-nos o sol
numa jarra de limonada.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

DIVAGAÇÃO


Victor Silva Barros
DIVAGAÇÃO

É uma desilusão
este deus a que me habituei,
recebe-me na sua casa do céu,
conversamos, trocamos ideias,
almoçamos juntos,
manifestamos as nossas aflições.
O ser autêntico ou não
depende da devoção.
É hirta esta divindade,
cobra a hospedagem
com taxa incluída
para visitantes da Terra.
Se o problema que pomos
se complica
dispõe de um anjo menor
que trata da burocracia.
A viagem foi longa
sem direito a visita guiada
pelos jardins do Éden.
O anjo de serviço
recomenda velas,
joelhos em sangue,
o credo sempre,
nunca porquês.

CRER


Victor Silva Barros
CRER

Antes do Verão
terei lido inteirinho
OS LOUCOS
DA RUA MEZER.
Creditarei 30 poemas
retratando o quotidiano.
Tentarei pela enésima vez
aprender Inglês.
Sairei da piscina municipal
a nadar o essencial.
Sonharei para o meu país
um crescimento de seis por cento
ao ano,
com políticos capazes,
impolutos, audazes,
com soluções capazes
de mudar o rumo.
O horizonte continua nebuloso
mas eu ainda creio.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

INACREDITÁVEL


Victor Silva Barros

Incredulamente tu,
fechando o coração,
ansiosa, medrosa,
temendo o golpe
que o abriria.
A chuva finalmente
escorre pela janela,
branca, fria,
líquida persistente,
quisera eu
conhecer-te assim.
Deixa-me levar-te
em direcção à luz da cidade
onde se distribui
essências na rua,
copos de vinho do Porto
em bares aconchegados.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

UMA HISTÓRIA REAL


Victor Silva Barros
UMA HISTÓRIA REAL 

Os anjos
com falta de sono
descansam, por momentos,
nos beirais das casas
onde habitam crianças.
Foram tantos os pecados
dos humanos,
as omissões, os esquecimentos,
afastando os anjos
que por ora só ligam aos pequenos.
Preocupados,
entram pelas frestas das janelas,
embalam com ternura
dois irmãos gémeos,
chorosos, medrosos.
Aquecem no microondas o leite
da Matilde esfomeada.
Acendem a luz de presença
ao João assustado.
São uma réstea de luz
difusa,
desprovidos de tempo,

ficam até serem necessários.

JESUS


Victor Silva Barros
JESUS  

Jesus era o seu nome
sacramentado em baptismo
quiseram no rapaz perpetuar
a tradição de família.
Toda a vida foi Ju
confundido com Jerónimo,
João e até Joaquim.
Terra a terra, comum,
vulgar, sem marca de água.
Negrito, pequenote,
de frágil compleição.
Gostava de comesainas,
de beber mais,
sem jeito, sem sedução.
Envelheceu, morreu,
não deixou pegadas,
lápide, livros de memórias.
Foi mais um
no rol dos esquecidos
apesar do invulgar nome,

foi igual à maioria de nós.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

SER

Victor Silva Barros

SER

Entre ser e não ser
há a sorte e o azar,
o jogo, a roleta,
a missa e o missal,
o saltinho de pardal
pronto a elevar a moral.
O ir e voltar,
o lago dos cisnes
na rua dos Clérigos,
o violoncelo e a espada,
o riso que se solta,
a alma que dói.
O mar, a largueza,
os dias que duram, duram.
Os deuses, as ilhas,
as promessas prometidas,
as falhadas, as perdidas,
o segundo que falta
o ânimo indo

no bico da águia velha.

quarta-feira, 22 de março de 2017

FOTOGRAFIA



 Victor Silva Barros
FOTOGRAFIA

Olhos nos olhos
sorriso contra sorriso
como partir daqui
se ainda não se deu

a floração da Primavera.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

ACONTECIMENTO

Victor Silva Barros
ACONTECIMENTO  

Foi num dia cinzento
num jardim frondoso
dos arredores da cidade.
O corpo fervilhava,
o cérebro não pensava.
Que vestido te cobria,
que baton pintara
a tua boca ardente.
Que poção milagrosa
nos atingiria,
que tisana verde
alcançaria a nossa sede.
O céu, as árvores
cobriram nossos afagos,
o verbo era escasso
enrodilhava no abraço
ali nascido.
Giro em redor de ti
planeta fora do eixo
vivendo  a vida inteira

para ter-te.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

DOMINGO



Victor Silva Barros
DOMINGO

Domingo
olhei pela janela
do quarto,
espreitei a rua estreita,
o café da esquina,
não te vi!
Memórias
é o que te traz
com o cabelo
despenteado,
ar cansado,
mas sempre pronto a lutar!
Segurei-me na cadeira,
li-te,
um  percurso sinuoso,
caindo, levantando,
mal amado,
prosseguindo!
Exististes,
aprendemos contigo,
sonhámos a partir de ti!
Do lado de lá da morte
não há jardins,
árvores de fruto,
olhos azuis!
A memória traz-te,
a pele tem um cheiro
raro,
a maresia,
o olhar, o rir,
ficou em nós!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

NOVOS CONQUISTADORES

Victor Silva Barros
NOVOS CONQUISTADORES

Constroem tronos
de sândalo e pérolas,
palácios inexpugnáveis,
no deserto,
rodeiam-se de servos
sem cérebro
e partem à conquista
do mundo!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

ONTEM À NOITE

Victor da Silva Barros
ONTEM À NOITE  

Ontem à noite
na fronteira da Turquia
com a Síria Curda
o Estado  Islâmico
assassinou 100 homens,
72 mulheres,
100 crianças
entre rapazes, raparigas,
e bebés!
Deixou-os estatelados
no chão
de uma rua deserta,
pejada de escombros
de prédios bombardeados!
Fez-se silêncio,
silêncio duro,
cortados os pulsos,
as carótidas!
De súbito,
as imagens passam na Net,
bandeiras negras
deste negro movimento!
Ah Ernesto Guevara,
Passionara,
até Mao Tsé Tung,
bonecos dóceis
diante desta barbárie!
Divulgam-se mitos,
a juventude sem direcção,
segue-os e acredita!
São crimes,
sejam em nome de Deus
ou Alá,
sujam as amendoeiras em flor,
os corpos
dos que morreram em vão!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

RETRATO

Victor Silva Barros
RETRATO  

O tacão é alto,
fininho,
posso cair a qualquer instante!
Diante do meu nariz,
vejo através da vidraça
uma pequena rechonchuda
que ri da desgraça
das minhas pernas lascadas!
O meu comparsa
que me acompanha
tanto lhe faz
o meu estatelanço no chão!
Ignorante
de gramática e sentimentos,
teima em escrever sem H
o há muitas flores
em certos olhares!
Já é um fantasma para mim,
nem o sinto,
no céu há apenas as nuvens
ameaçando chuva!

TERRA MORTA

Victor da Silva Barros
TERRA MORTA

Tomaram-nos!
Queimaram-nos!
Somos cinza
e não brotámos!
Putrefactos,
desistimos!
Somos nós,
nós gente,
queremos mais uma vez
renascer!
Uma folha verde
e outra
vem lá do fundo
querendo viver!
Somos o que restou
de um país com sonhos,
desconfiados,
tremelicantes,
queremos voltar a ser humanos!