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terça-feira, 5 de junho de 2018

DESEJO

Luís Morgadinho

DESEJO 

Na cama do hospital
com dores pós-operatório
na garganta,
pedia um comprimido só
para aliviar as picadelas
e um ramo de rosas,
grande, grande,
como vira um dia
num filme de Hollywood.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

REFLECTINDO

Luís Morgadinho

REFLECTINDO

Pela televisão
recebemos os recados:
não cumpriram o défice
são sancionados.
Comem com o inimigo à mesa
e beijam-no
como cúmplices ou comprometidos.
Fecham as cortinas
de brocado cinza,
ordenam-nos o fim da fila
numa Europa encruzilhada.
Chamam-nos preguiçosos,
dados à boa vida
da Europa evoluída.
A cólera cresce
em caldeirões ferventes,
serve-se em taças largas,
desproporcionadas, épicas.
Os dentes aguçam-se
a fome é só um muro
até à Europa rica.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

ESCOLHA DIFÍCIL

Luís Morgadinho
ESCOLHA DIFÍCIL

O  momento é ambíguo,
partir ou ficar,
sombra-luz,
desistir ou lutar!
O compasso
leva sempre
para o mesmo lado,
obedecer,
é impossível escolher
de olhos cerrados!
Longa é a história do mundo,
grande a nossa memória
com barcos rasgando
mares desconhecidos!
Perante o perigo iminente
de esmagamento,
ainda estamos vivos,
somos mais, melhores
que o círculo do poder,
vamos mordendo-lhes os pés,

ainda atingiremos o topo!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

GRITOS

Luís Morgadinho
GRITOS

Ladram os cães
agarrando o osso,
com um ferro em brasa
deixam o ferrete
nas vítimas que estorvam
o percurso
na senda galopante do poder!
Espalham os restos
e riem-se
da esfrega animalesca
ditada pela fome!
Corneando afastam
os sarnentos,
apontando a sua inutilidade,
espremidos antes
hoje não servem para nada!
Só nos cresce o pranto,
a indiferença,
merecemos
o que nos acontece,
sem reacções, gememos,
enquanto botas ruidosas
passam por cima
dos nossos cadáveres!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

MARX

Luís Morgadinho
MARX

Toda a sua filosofia económica
nasceu da violência
da relação
entre o trabalho e o capital!
Nasce outra vez Marx
é urgente salvar o Mundo!
Levam-nos o dinheiro para fundos
escudados por nomes sonantes
da nossa plataforma financeira,
e nós estúpidos confiámos!
O dinheiro, de repente,
em papel, multiplica-se
e a bolha cresce, cresce, cresce
rebenta e desvanece!
Os grandes senhores
de porte fidalgo,
sobretudo os italianos,
safam-se sempre,
é escandaloso o casamento
entre o poder e a banca!
O povão paga:
paga as mordomias,
os negócios ruinosos,
a falência da banca!
Humildemente pedimos:
- Senhor, dai-nos o pão nosso
de cada dia –
E por aqui ficámos!

quinta-feira, 3 de julho de 2014

CONEXÃO

Luís Morgadinho
CONEXÃO

Não vou por aí
pelas ruas,
como os cegos
contra os obstáculos,
meio bailarino,
meio adormecido,
permitindo que se riam
de mim
e dos meus passos!
Estou convicta
que a rede dos caminhos
a percorrer,
é traçada aqui
na sala pequena
e mal iluminada
do apartamento
que possuo!
Evocarei outros
que me sigam,
não podemos
estar acomodados
à tecnologia,
devorando-nos,
obtendo proveito
alguém desconhecido,
sempre obscuro!
O freio da besta é nosso,
saibamos apreciar
a alegria única
de sermos livres,
donos do nosso destino!

PORTUGAL

Luís Morgadinho
PORTUGAL

Fechada neste país
assombrado,
com os meus companheiros
de luta,
cansados,
não vejo nada,
senão escombros!
Não quero, por ora,
pensar que foi engano
a revolução dos cravos,
deixamo-los lá,
agora pagámos as favas!
Os ganhos que tivemos
não os entendem os novos,
cheiram já
velhos enganos,
embandeirados
por filosofias sinistras
que se for preciso,
matam!
Só com a partilha
nos ergueremos,
distribuindo a refeição
por todos! 

MATAM O INTERIOR

Luís Morgadinho
MATAM O INTERIOR

Em nome da poupança
e da direcção certa
que levará ao equilíbrio,
fecham escolas,
postos de saúde,
valências  em  hospitais,
tribunais ,
as finanças podem fechar
à vontade,
só nos levam a massa!
A larguesa dessa gente
é curta,
com as casas desabitadas
encerram História,
riqueza,
distribuição da população
e tudo fica desolado,
triste!
Apinaremos um dia
em direcção ao mar
quando o povo do litoral
alcançar a rotura!
Lutaremos por cada parcela
de terra,
destruiremos palácios antigos
para lá morarmos,
mandaremos
para de trás dos montes,
os políticos que estão a mais
na distribuição equitativa
dos portugueses estupefactos!

quinta-feira, 13 de março de 2014

TECNOLOGIA

Luís Morgadinho



TECNOLOGIA

Do país longínquo,
em que interesses,
mais ou menos ocultos
fomentam a guerra civil,
chega-nos,
à hora da refeição,
via satélite
o extermínio,
em pratos rasos!
Corpos enrolados
em trajos claros,
imaculados,
choros animalescos,
dor ilimitada,
bombas,
estrondos,
ao longe rajadas,
alguém que festeja
o início da caçada!
As redes sociais
postam imagens tristes
de maldade anunciada,
perante a impotência
das gentes acossadas!
Tanta tecnologia,
tanta ineficácia,
sentados nos sofás
agimos com likes,
sinceramente,
não chega!

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

INVENTAR


INVENTAR

É hora de inventar,
Inovar,
fazer milagres,
trazer o dinheiro escondido
que nos foi roubado,
investir!
É hora de ser nosso
o que produzimos
para distribui-lo
em forma de pão!
É tempo de coragem
de enfrentar o medo,
de trazer mirtilos
dos nossos bosques,
colocar guardas nas matas
que afugentem incendiários!
É tempo de semearmos
searas de centeio,
campos de milho
e pomares prenhes de frutos
evitando da fome
a humilhação!
É hora de falarmos,
de participarmos
nas decisões
que nos vão afectar,
despertar,
fazer cumprir os contra
tos
selados pela Constituição!
Não queremos
bilhetes pré-comprados
para um oásis qualquer,
queremos o país de volta,
um barco alado,
um roteiro  de novo traçado
que nos faça acreditar!

terça-feira, 16 de julho de 2013

CRISTO É SÓ O QUE EU DIGO

Luís Morgadinho

CRISTO É SÓ O QUE EU DIGO

Cristo é só o que eu digo
quando falha tudo
quando se instala a recessão
quando as palavras gastas
dos políticos
não são mais nada
não têm mais nada
por detrás das palavras!
Mudam Ministros,
o discurso,
para amansar os eleitores,
e tudo fica igual
à espera que tenhamos coragem
de nos libertar!
Cristo é o que digo
neste tempo irreal
em que o medo
e os sacrifícios
não resultam em melhorias
nas nossas vidas!
Cristo é o que digo
quando somos governados
por estrangeirados
e outros que nunca trabalharam
desconhecendo o povo
a nação!
Cristo é o que eu digo
quando nos atrofiam
nos espoliam
neste tempo parado,
sem esperança,
num país em desconstrução!
Cristo é o que digo
este país tão pequeno,
ameno,
manso,
está em risco de perder-se!
Cristo é o que digo
porque a vida continua
nesta estrutura a desfazer-se
nesta derrocada permanente
nesta angústia latente
de não termos horizonte,
quem nos oriente o futuro!