quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ABANDONO

ABANDONO  

Escapar
sem saber como
ao inferno de Dante,
sem GPS
sem qualquer ajuda
o corpo enfrentando
chamas que queimam,
primeiro a alma
depois o corpo.
Fugir, fugir,
fugir para a frente
com poças de lume
a travar o passo.
Não condiz esta  angústia
este abandono permanente
a que o interior resiliente
foi votado
por um país europeu
querendo continuar a sê-lo.
A negrura das cinzas
ensombra a vida,
os dentes rangem
com violência,
a boca não se abre

nem para o grito libertário…

FALAR SEM SER

FALAR SEM SER  

Só têm língua viperina
de aço,
quando oposição,
dentro, entram no sistema,
olham pela sua vida,
o alheio entrega-se à sorte.
Desancando
perante a televisão
é só um som a sair da boca.
Fonética, guião de palavras
que não calam
a dor no peito
de quem ficou sem nada.
Não têm que se levantar
de madrugada,
contar cada cêntimo
para o pão de cada dia,
não gritam, não fedem,
dormem de vendas nos olhos,
mandam mensagens rápidas
com instruções presas
a seus pares,
Riem sem mostrar os dentes,
elaboram discursos
sobre dicionários abertos,
vendem o país ao desbarato,
tornam-nos tristes,
estamos fartos.

ESCREVER UM POEMA

ESCREVER UM POEMA  

Escrever um poema
em Outubro quente,
um poema com ruas,
gente, ruído,
silêncios momentâneos,
noites dormidas,
outras em claro.
Contigo seguramente,
rigorosamente,
bebendo champanhe rosé
regando as ostras negras
da ria Formosa.
Acaba o poema,
a cabeça vazia
sem palavras de ponto final.

UM DIA DE OUTONO FRIO

UM DIA DE OUTONO FRIO  

Um nevoeiro fino
impregna a cidade
vestida de parkas
e casacões.
O capuz tapa os cabelos,
a humidade atravessa
o pescoço,
desce até ao umbigo.
Na rua ninguém vê ninguém,
os contornos
dos monumentos antigos,
são manchas.
A respiração é ofegante,
o bafo embacia os óculos.
A fila é imensa no metro,
por minutos o lar
onde se pretende algum calor.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

COMIGO

Collado

COMIGO  

No meu regaço
podes fugir de tudo,
tomar uma taça
de vinho tinto,
fumar um cigarro
dentro de casa,
sair da rotina,
rodopiar mesmo coxo,
espiar a vizinha,
ver um filme de Chaplin.
Esquecer a vida,
ensaiar com empenho
o dia novo
rompendo com paixão
a madrugada serena,

amanhã e depois de amanhã.

PEQUENO ALMOÇO

Collado

PEQUENO ALMOÇO  

O leite desnatado
cai quente e branco
na chávena grande
do almoço da manhã.
Corado com um pingo
 de café
mistura Guiné e Timor
envolve as torradas de pão
 de milho
molhadas em azeite novo.
As últimas uvas das videiras
espalhadas sobre a mesa
limpam o palato
para o café final.
Ai se me cai uma pinga
na blusa de seda fina
lá se vai o primeiro bom olhar
lado a lado com o sol radioso

do dia a despontar.

DOURO MAIS UMA VEZ



DOURO MAIS UMA VEZ  

No mês de Outubro
o rio é mais escuro,
traz aluviões das matas
arrastados  pelas águas
tornam a sua cor de oiro.
Espuma-se
contra as margens,
empurra os barcos rabelos,
desce em convulsão
e abraça em efusão

a sua amante foz.

DIA DE TRABALHO

Collado

DIA DE TRABALHO   

Pressa de chegar a tempo,
à hora exacta
apanhar o metro apinhado.
Basculhar a mala,
o telemóvel imprescindível,
o lenço dobrado,
a chave lisa do escritório.
Exercitar a voz,
atender centenas de chamadas,
esquecer o sistema.
Acelarar o fim do mês
a uma semana do fim,
o porta moedas vazio.
Quem se importa
quem desdiz
a indignidade de trabalhar

sem poder pagar as contas.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

SER

Victor Silva Barros

SER

Entre ser e não ser
há a sorte e o azar,
o jogo, a roleta,
a missa e o missal,
o saltinho de pardal
pronto a elevar a moral.
O ir e voltar,
o lago dos cisnes
na rua dos Clérigos,
o violoncelo e a espada,
o riso que se solta,
a alma que dói.
O mar, a largueza,
os dias que duram, duram.
Os deuses, as ilhas,
as promessas prometidas,
as falhadas, as perdidas,
o segundo que falta
o ânimo indo

no bico da águia velha.

DIZER POESIA

Collado

DIZER POESIA

Reunidos à volta da mesa
cada um com o seu poema,
esperam a vez com paciência
de falar de amores perdidos
ou achados,
da floresta rebentando abundância,
das árvores prenhes de fruta,
da sonolência que é ouvir políticos
repetindo até à exaustão
os mesmos clichés estafados,
das tardes quentes
em que só as cartas
desmanchavam a paisagem vazia.
Das brigas entre gente comum,
da vida que se perdeu
em excursões ao Bom Jesus de Braga.
De quartos de motéis sem cunho,
de papel de parede desbotado,
do pôr do sol
com um copo de vinho

esquecido tudo ao redor.

QUERMESSE


Collado
QUERMESSE

A quermesse anual
para a angariação pecuniária,
gasta em cestos de Natal,
postiços,
doados a pobrezinhos da paróquia,
nunca gostei da ideia.
Melhor seria aumentar-lhes
um pouco o salário,
sem os humilhar

com a hipócrita esmoída.

É


Jorge Bandeira
É

Como é enfadonho
ser culto,
burguês,
acomodado.
Pudim instantâneo,
formatado, roupa de grife
sapato assinado.
Sem cérebro,
carneiro amansado
em filas posto

repetindo o mesmo fado.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

ZARPAR

J. Valcarcel

ZARPAR  

Quero a mala pequena
apenas uns trapos
protegendo do frio
resguardando do sol.
As memórias
as que couberem
Tem que acomodar
os meus cadernos
de poemas.
O resto, rostos esfumados
forrados a conveniência
ficam nas formas rectangulares

das portas que deixarei.

UM DIA DE OUTONO


Nuno Duque
UM DIA DE OUTONO  

Vai devagar pelo carril
lembrando como era diferente
antigamente
o cheiro a maresia
naquela praia de Espinho.
Um vento leve abanava
as plantas marinhas,
a gravilha deslizava
a cada passada
cortando os dedos dos pés.
Na cabeça há pouco vazia
vão caindo como gotas
palavras, mais palavras
da cor de cerejas esmagados.
Apetece, de repente
um chá quente,
uma bolacha de manteiga,
estaladiça.
O olhar fica mais vivo
desenhando o trilho
do carril até à praia.
Sorri não sabe para quem,
para todos e ninguém
passantes no caminho.
Incendeie-se o ar
laranja sanguínio
num por do sol irreal,
solta-se o desejo selvagem
de ir na onda
até outras paragens,

procurar novo destino.

PINTOR

Collado

PINTOR  

Voltarei a pintar a Ribeira
o formigueiro humano que a fotografa,
o rio sereno que não dá por nada,
o barco rabelo apinhado de povo
descobrindo encantado a cidade,
Abrirei as cores,
não gosto da negrura nas casas,
nem no vestir das tripeiras.
Haverá um porto seco
numa mesa de ferro forjado,
uma barman escorreita
enchendo o copo seleccionado.
Os pincéis bordarão as margens
de gaivotas esfomeadas,
as migalhas caindo livremente
saciando a fome das aves.
Não há lugar a voltar atrás
darei o meu nome
a uma pintura palpável
a serenidade do pôr do sol na Foz,
a crianças comendo devagar
o gelado de morango,
a rapariga gira esquecida de tudo

enquanto olha o namorado.

A EUROPA NA ENCRUZILHADA

Collado

A EUROPA NA ENCRUZILHADA  

Nada disto faz sentido
a Europa criada unida
desfazendo-se
 em banho-maria.
Os europeístas desassossegados
visionam tempos difíceis
por não cumprirem o ajustado.
Os partidos socialistas
governam à direita,
perderam a identidade
pagam nas urnas
o cheiro a extinção.
O povo cansado, pensa
algo diferente fará a diferença,
corre em direcção contrária
quer novidade, sinceridade.
Os políticos e as politiquices
ensaiam encenações
para os manter no poder,
querem-nos cegos, ensonados
continuando a caminhada
no caminho por si traçado.
Um dia, um dia certamente
seremos nós a traçar o camilho

querido por nós para trilhar.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O FIM

Porfírio Alves Pires

O FIM  

No fim pouco resta.
Estamos, mortos antes de o sermos.
Não somos nós,
somos o que terceiros
querem que sejamos.
Até Deus se ausenta:
aguenta até ao sinal da partida…
Entretanto, arredamos a morte
da cabeça,
vamos tocando a terra com os pés,
a humidade entranha-se na pele,
renascemos.
Quão generosa é esta essência,
os ossos enrijecem,
sabe melhor a marmelada,
os sucos de cereja
escorregam entre os dedos
como sangue caindo no deserto.
Os bichos devoram os restos,
nada se perde,
o céu confunde-se com a terra,
refrescam-se as memórias,
os trovões provocam as nuvens,
há ameça de chuva  

tudo reverdece.