quinta-feira, 20 de abril de 2017

INTROSPECÇÃO

INTROSPECÇÃO   

Diante da estupidez
nada nos salva,
sentados na margem da vida
a ver fluir o que devia
estar fechado,
torna-se ríspido o semblante,
covardemente queremos,
sem esforço
que algo divino
derrube a asa negra
pairando sobre a Europa,

velha senhora estagnada.

UM DIA DA PRIMAVERA MOLHADA

UM DIA DA PRIMAVERA MOLHADA 

O céu repleto
de nuvens baixas,
o vento sopra frio
por cima das orelhas
desprotegidas,
a cidade fecha-se
nos cafés e bares.
O cheiro a inverno
invade a primavera,
as janelas cerram-se,
acendem-se as lareiras.
Este tempo alheio
fruto de ingerências
humanas
irritando a natureza,
é já um anjo castigador

a destruir-nos.

DESCOBERTA

DESCOBERTA 

Acreditando para lá de nós
tudo é explicável,
o sol, a lua, as árvores, as flores,
os pássaros, o mar, o pôr-do-sol.
A vida é um suspiro,
um ai, um esgar,
uma alegria, um prato de lentilhas,
um manjar, um começar,
um fim  de linha
numa estação desconhecida.
Soprando o vento Norte
lá se vão os planos
traçados a rigor.
Cumpre-se, falha-se,
sonha-se,
depois há o cansaço
por detrás de cada gesto
com frutos.
A eternidade não se gasta,
espera-nos
numa ânsia de partilha.
O tempo que nos é dado,
perecível, impaciente,
incerto, curto,
não acatando falhanços,
contra danças,
incumprimentos de prazos.
Para nosso descanso

temos o resto para lá da vida.

terça-feira, 11 de abril de 2017

DESCOBERTA

DESCOBERTA

Acreditando para lá de nós
tudo é explicável,
o sol, a lua, as árvores, as flores,
os pássaros, o mar, o pôr-do-sol.
A vida é um suspiro,
um ai, um esgar,
uma alegria, um prato de lentilhas,
um manjar, um começar,
um fim  de linha
numa estação desconhecida.
Soprando o vento Norte
lá se vão os planos
traçados a rigor.
Cumpre-se, falha-se,
sonha-se,
depois há o cansaço
por detrás de cada gesto
com frutos.
A eternidade não se gasta,
espera-nos
numa ânsia de partilha.
O tempo que nos é dado,
perecível, impaciente,
incerto, curto,
não acatando falhanços,
contra danças,
incumprimentos de prazos.
Para nosso descanso

temos o resto para lá da vida.

NÓS

NÓS

Um passado houve
que de tão cúmplices
ouvíamos um só coração
batendo compassadamente.
Éramos um com o outro,
o mundo nosso aliado
fazendo e desfazendo os caminhos
a nosso jeito.
O tempo
torna tudo mais confuso,
mais pesado,
os sonhos ficam diferentes,
o pulsar mais desfasado.
Vão-se embora as convergências
cada um para seu lado.
Por ora, nem mensagens são trocadas,
é o ferrete da mágoa,                  

os dias que nos foram roubados.

GASTO

GASTO

O  couro do sofá azul
foi-se gastando,
o branco das cortinas
amarelecendo.
Empoeirou-se a louça
nos armários,
esbetonaram-se as sancas,
tudo vai envelhecendo.
O corpo é menos ágil,
as rugas acentuadas,
o cabelo mais grisalho.
Gastamos os dias,
o amanhã tem que ser hoje,
o amanhã é um sonho.
Tenho saudades dos que foram,
fazem falta,
antes estorvavam.
Ai vida, contradições,

agora quero, logo não.

PALAVRAS

PALAVRAS

Há dias assim:
a cabeça pesada,
o verbo não flui.
Congeladas as palavras,
envoltas em sombra,
dormindo sobre almofadas.
Acordo,
as pereiras frente ao quarto,
floridas em branco,
anunciam Primavera.
Dentro do quarto pequeno
soa uma música dolente,
nordestina, brasileira.
É a última cisma,
ouvir canções estrangeiras.
O vento forte
arrasta a portada da janela,
que bate, bate.
qual relógio antigo
contando as horas do dia.
O galo pedrês
dá ordens no galinheiro
às galinhas poedeiras.
As minhas mãos suadas
sustentam a casa,
os sentimentos, pensamentos,
a vida.
Sem culpa pelas imperfeições
A custo, custando,
lá saem  as palavras,

engendra-se o poema.

terça-feira, 28 de março de 2017

DESEJO

DESEJO  

Talvez a vida,
não a morte,
talvez a sorte
de acordar num navio
rumando a um novo mar
desconhecido

onde possa de novo navegar.

RELEMBRANDO

RELEMBRANDO  

Passa a vida tão depressa
no ponteiro do relógio,
levanta, acorda,
lava a cara qual sonâmbulo,
apanha o metro,
toma café e um croissant
num boteco junto ao escritório,
pega pasta, arquiva pasta,
cataloga mil papéis,
a luz do dia esvai-se
por entre os estores entreabertos,
que vontade de voar
na asa branca da última gaivota,
poisar numa ilha deserta,
escrever poemas,
o dia escorrendo
entre os dedos e a caneta,
Que fazer, que dizer,
não há relógio de pulso,
sacode-se a areia,
é uma emoção o pôr do sol,
adormecer ao som doce
das ondas calmas

abraçando a praia.

Declaração

DECLARAÇÃO

Dizem-me importas,
passo a ser importante
tomo contigo o comboio
e vou sem saber para onde,
a viagem será prenhe
sem confusão instalada,
com tempo para abraçar-te .
É soltar a liberdade
usando palavras sentidas,
enfiar pérolas escolhidas
num colar para o teu pescoço.
Sendo tarde para sonhar
o melhor é acordar,
tomar um café quente

que me faça despertar.

Um Gato

UM GATO

Subo devagar a escada,
no escuro do meu quarto
está o gato à minha espera.
Pede-me contas,
corre sem parar em meu redor,
quer saber por onde andei,
porque o deixei sozinho.
Sentiu saudades,
quis a minha companhia,
faltou-lhe o prato de comida,
o calor da presença.
Desprovidos os dois
de outras gentes,
temo-nos os dois o gato e eu.
Foi longa a explicação,
ele entendeu
e enroscando- se no meu colo,

adormeceu.

quarta-feira, 22 de março de 2017

MELANCOLIA

MELANCOLIA

Amanheceu diferente
cheirando a lavanda
sabendo a maçã.
A luz colorida
risca no dia um roteiro aberto.
Sobe o rio turbo
empurrado pela brisa
o último rabelo
saído do Douro.
Uma rosa vermelha
cai pétala a pétala
numa taça de chá

tomada na Ribeira.

FOTOGRAFIA

FOTOGRAFIA

Olhos nos olhos
sorriso contra sorriso
como partir daqui
se ainda não se deu

a floração da Primavera.

CARNAVAL DE 2017

CARNAVAL DE 2017

Árvores cinza
despidas, frias,
floridas só as acácias
de amarelo vestidas.
Das folhas caem gotas,
molhadas, húmidas.
Silêncio,
 tudo de boca fechada,
o dia ficou parado.
A vida escondeu-se
debaixo de uma manta de lã.
Dizem que é Carnaval,
no pátio brincam crianças
feitos cowboys inventados.
Olho para trás,
contando pelos dedos
em que ano do senhor
há um Entrudo
para o poder recordar.

PROCISSÃO

PROCISSÃO

A Senhora da Anunciação
vai passando
poderosa no seu andor,
enfeitado a rosas,
Ouve em silêncio as preces:
morar num bairro ajardinado,
casa com três assoalhadas,
frente a um parque de tílias.
perto de escola bem equipada.
acesso a farmácia aberta,
transportes vários
a preços equilibrados.
Senhora da Anunciação
isto e divagação,
a saúde é o principal:
a hipoteca da casa
vai durar a vida inteira,
Depois vem o pão na mesa
que falta com certeza
não podendo faltar,
Ai dinheiro que não chega
água e luz a pagar,
a boca grande do estado
a sustentar.
Os crentes
num esforço sobre-humano
levam a virgem nos ombros,
pagando assim os milagres
do ano passado.
Senhora da Anunciação
padroeira desta aldeia esquecida
indica  o rumo aos vizinhos
pelo poder esquecidos.

quinta-feira, 9 de março de 2017

TEMPO



 Federico Eguia
TEMPO

O que se perdeu
o que ficou
no silêncio morno
dos dias a passar?
A casa ficou,
o jardim tornou-se selvagem,
não há agitação,
vozes, gritaria.
Há uma nuvem suspensa,
ameaçando chuva,
sombreando a claridade.
Continua-se o percurso,
num risco calculado,
caminha-se
há-se chegar a algum lado. 

UM JARDIM



 Maria da Conceição Pombo
UM JARDIM

Era uma vez um jardim
desenhado por mim,
eu que não sou designer.
Plantei as árvores que gostava,
arbustos odoríficos,
flores, montes de flores
de todas as cores.
explodindo na primavera e verão.
Os pássaros de manhã cedo
voando de galho em galho
eram o despertador da casa.
As abelhas zuniam
enquanto se serviam,
sem cerimónia, do pólen.
A verdura fresca
punha equilíbrio
no ar quente de Julho.
Mistura de céu e inferno,
enrola-se o fruto do labor,
o eterno esfrangalha-se,
os olhos parados no nada,

o meu jardim a desaparecer.