terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

UMA TARDE ENCANTADA


UMA TARDE ENCANTADA

Elisa
à porta do teatro de S. João
questiona
por onde começar.
Rodar em cima dos tacões
no átrio
observando os cartazes
anunciando novas fitas,
comer o chocolate de avelãs,
pavonear-se por entre os cinéfilos.
Até as luzes se apagaram
era gastar tempo.
Que chatice a publicidade
antes do ecrã se encher
com a vibrante história
de filme de sucesso.
Jovens amantes lindos,
tudo para serem felizes,
mas a vida, oh a vida
com golpes baixos
destrói as ilusões
e mata a mocinha.
Interrompida a sôfrega vida,
abre-se a carteira à socapa,
limpam-se as lágrimas,
soluça-se de boca serrada.
Foi curta a existência
para tão grande amor.
Lavou, a fita, porém, a alma,
a emoção ao rubro,
sentada no banco zonzo
do trólei,
a caminho de Gaia,
a Elisa trinca o último pedaço
do chocolate de avelãs,
confronta-se o corpo,
a noite está triste.

VOLÚPIA

VOLÚPIA

O momento é este
secreto,
uma sala vazia,
a dança dos corpos,
lentos a esticar as vértebras
escorrendo suor
húmido, pegajoso.
O ímpeto do toque
é um choque,
a coreografia de supetão,
passa à acção,
a madrugada tem história
no encontro
de cada fio de cabelo,
no colar das bocas.
Lá fora um vagabundo
de garrafa na mão
canta à lua
a Marselhesa perdida.
Os braços pendem salgados,
calam-se as palavras
não interessa o mundo.

DIA 13 de Janeiro de 1917

DIA 13 de Janeiro de 1917

O chão molhado escorre
por entre latas vazias
despejadas na rua
ao acaso.
Uma criança loira barafusta
ansiando em vão um chocolate
pendurada numa loja da esquina.
A estudante de capa e negro a rigor
espera o namorado que tarda.
Um soldado pendurado
na janela do autocarro
diz adeus à saudade.
Um aprendiz de poeta
 desconfiado,
ensaia numa ponta de jornal
o último poema.
Um homem e uma mulher
olham-se simplesmente.
Um sem abrigo enferrujado
destampa o contentor
querendo no meio do lixo
encontrar a  Sharon Stone.
A cidade quieta não vibra.
Os turistas desorientados
procuram na Net os restaurantes
de Estrela Michelin, recomendados. 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

UM DIA ESTRANHO DE INVERNO

Radio Zürich
UM DIA ESTRANHO DE INVERNO

O sol está a pique,
gelatinoso
sobre o guarda-sol
da esplanada.
Caras fechadas
embrenham-se nos menus,
os dedos trabalham
mensagens abreviadas.
Um sem abrigo
sentado no jardim do largo
levanta-se em desequilíbrio
contando as pedras da calçada.
Uma mulher de idade indefinida
faz-se muro
dividindo o café da realidade.
A cadeira de realizador vacila,
a câmara foca
a jovem modelo de beleza
exótica
apresentando a colecção da Primavera.
Um turista sardento,
tenta levar na mochila
raios de sol para a sua casa fria.

DIVAGAÇÃO


Victor Silva Barros
DIVAGAÇÃO

É uma desilusão
este deus a que me habituei,
recebe-me na sua casa do céu,
conversamos, trocamos ideias,
almoçamos juntos,
manifestamos as nossas aflições.
O ser autêntico ou não
depende da devoção.
É hirta esta divindade,
cobra a hospedagem
com taxa incluída
para visitantes da Terra.
Se o problema que pomos
se complica
dispõe de um anjo menor
que trata da burocracia.
A viagem foi longa
sem direito a visita guiada
pelos jardins do Éden.
O anjo de serviço
recomenda velas,
joelhos em sangue,
o credo sempre,
nunca porquês.

CRER


Victor Silva Barros
CRER

Antes do Verão
terei lido inteirinho
OS LOUCOS
DA RUA MEZER.
Creditarei 30 poemas
retratando o quotidiano.
Tentarei pela enésima vez
aprender Inglês.
Sairei da piscina municipal
a nadar o essencial.
Sonharei para o meu país
um crescimento de seis por cento
ao ano,
com políticos capazes,
impolutos, audazes,
com soluções capazes
de mudar o rumo.
O horizonte continua nebuloso
mas eu ainda creio.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

VIVER PARIS E MAIS


Fátima Ferreira
VIVER PARIS E MAIS  

Em Paris
almoço  apenas
no Quartier  Latin
num restaurante grego
qualquer.
Queijo feta,
salada de pinhões,
espetada de gambas,
Ali sinto-me em casa
verduras, peixe,
azeite, fruta.
Uma música de fundo
batida, sentida,
o mar à vista,
as gaivotas rodando
os navios que partem.
O mar chama-nos,
o princípio das coisas,
o nascimento da Europa.
Alheios à beleza da cidade luz
ali está um outro povo
acostada à Ágora
saudoso, melancólico

querendo hoje sobreviver.

UM DIA


Júlio Pomar
UM  DIA

Acordar
nesta manhã luminosa,
escolher o frango,
o tempero,
a cor do olhar.
Sacudir a toalha,
esticá-la na mesa,
colocar uma rosa vermelha
na jarra cobalto,
comprada na feira.
O coração a bater
assim que a chave
rode na porta,
sentir o gosto
de um beijo.
Esperar
que gostes do jantar
feito com muito carinho.
Ouvir-te, sempre,
com a cabeça pousada
no peito,
querendo que o cansaço
não me vergue,
comtar as estrelas

em cima do nosso lugar.

DANÇA DE SALÃO



Idalina Dionisio
DANÇA DE SALÃO  

Inscreve-se
na classe de danças de salão
três vezes por semana
com direito a um chá de limão
e duas bolachas de aveia.
Escolher o par ideal é difícil
se o objectivo é a dança
e não amizade colorida.
Da turma inicial de 20
na segunda semana eram 15.
no fim do mês
restavam dez.
O professor José
Desdobrava-se em requebros,
o tango na gala final
teria de ser perfeito.
Ela de negro vestido
sapato de tacão fino,
ele vestido à galifão,
calça preta, camisa aberta.
Os acordes de Garnel anunciam
vibrações extra-sensoriais
ganham a atenção
da pequena multidão
que aplaude de pé
a apaixonante dança.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

CONFISSÃO



Sara Pérez Bello
CONFISSÃO

Marca-se um encontro
no coração da cidade,
a discussão é sobre nós.
Roda a moeda
quem paga o café,
cai não cai
o pingo escura da chávena
na seda da camisa branca.
Notei que me olhaste
tu que nem me vês,
torna-se sério o encontro.
Descalço as luvas de lã,
coisa de conforto,
para ouvir de verdade
o que cada um tem a dizer.

NOITE INVERNOSA


José González Collado
NOITE INVERNOSA  

Uma lata vazia
rola na rua húmida,
fria, encharcada
de poças de água.
Os pés escorregam
na viscosidade
lamacenta das ruas
conspurcadas…
A gabardine pinga,
dobra o guarda-chuva
a pressa é toda
para entrar na Império,
um galão a ferver
uma Glória crocante.
As pegadas  molhadas
ficam no hall,
o vento lá fora,
a sala é luminosa,
na mesa há papel,
caneta, inspiração,
tudo a postoa
nasça o poema.

INFÂNCIA



Rafael Diéguez Ferrer
INFÂNCIA  


Lembro-me
como um flash,
a criança loura,
de olho azul
sentada
no meio da escadaria
com saudades
da mãe que tardava.
A boca abre-se
de espanto,
solta-se o berro
logo que viu
quem a mãe trazia pela mão.
A irmã Luísa
de laçarotes brancos
enfeitando as tranças,
vestido curto e tufado,
sapato de verniz
de presilha ao lado.
Como ficou sentida
por ter sido preterida
de menina das alianças
no casameno
o da prima Dolores
só porque lhe caiu
ao mesmo tempo

os dois dentes da frente.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

PEDROGÃO 2017


Albano Neves e Sousa
PEDROGÃO  2017

Ardeu tudo,
o fogão,
o cadeirão herdado,
o gato Pitusca
de pelo emaranhado,
o cobertor pardo
comprado na feira da vila,
As roupas, os sapatos,
as fotografias ilustrativas
das festas, das viagena,
das etapas mais significativas
das suas vidas.
As compotas,
o leite das cabras
ordenhado de manhãzinha,
os livros da primária
guardados como troféu.
O terço, o relicário
ofertado pela avó.
As galinhas, os ovos frescos,
o pão cheirando a forno centenário.
Os bombeiros não chegaram,
o INEM não apareceu,
a GNR passou ao lado,
neste abandono conjugado
a alma morreu também.
O corpo ficou,
o vazio em cada mão,
rodando o saco negro
oferecido pela caridade
queimando mais uma vez
ao limpar sem pejo
as grandes falhas do Estado.

TEMPO



José González Collado
TEMPO

Penso o meu poema
no tempo
que não sinto meu.
Cada verso é um impulso
neste meu defeito confesso
de querer salvar o mundo.
Nem hipóteses me dão
de começar a tarefa,
quem te manda ati meter-te
em seara e foice alheia ,
fala antes por falar
de flores, de frutos, de vendavais.
Tranca as estrofes,
guarda-as a sete chaves
na mesa de cabeceira,
esperando que um dia
alguém lhes preste atenção,

alguém os leia.

CASA NATAL


José González Collado

CASA NATAL

Queria rer uma casa natal,
sorrisos permanentes,
muitas rabanadas quentes,
de leite e mel,
aletria dourada,
creme rescendendo a caramelo,
bolinhos de jerimu, vinho quente,
café, um cálice de aguardente.
Queria conversas serenas,
sentir que gostam de nós.
Deixar a lenha
queimando na lareira
a noite inteira
aquecer tudo até à alma.
Pela meia noite
procurar luvas e gorros,
sobretudos felpudos
ir à Missa do Galo,
beijar o pé pequenino
e cheiroso
do Deus Menino.
Ser uma peça mais
nesta engrenagem
não sei se enganosa
se providencial
criando dias felizes
no mês de Dezembro,
no calendário de cada ano.

MAR


José González Collado
MAR

O mar continua longe
hoje sereno com pequenas ondas.
É visceral,
metê-lo dentro de frascos,
bebê-lo nas noites mais prementes.
Uma linha de barcos no horizonte,
minimal,
a tela do pintor de rua
enche-se de traços
e eterniza o balanço da água.
As dunas desgastam-se
forçadas pelo vento,
os chorões abraçam-nas
fixando a muralha protectora
ao avanço das águas.
Um casal destemido
toma banho nu
no Novembro frio.
A chuva sem se anunciar
cai de supetão
molha ainda mais
corpos  humedecidos.
O fim do dia trouxe um arco-íris,
as nuvens negras
cobrem as pessoas,
o mar,
a vontade de integrar
os mistérios milenares
do oceano eterno.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

PAUSA


José Gonzalez Collado
PAUSA     

Pausa em tarde seca.
Os olhos fecham-se,
esticam-se as pernas ao sol,
esquisitice deste Outono.
Presente um burburinho
continuo, irritante.
Os sem abrigo negros
estabeleceram-se
nos Poveiros,
bebem de pacote
uma zurrapa tinta
ouvindo em altos gritos
as últimas músicas
do top angolano
em rádio gigante.
E falam, falam
ao telemóvel
num linguajar
de sotaque balançado.
Eu, no meu íntimo silêncio,
penso, quero,
o barulho dissipado,
à margem de tudo
que nasça mais um poema.
Com café dentro,
 páginas de jornal lido,
a disfunção entre dois mundos:
os que têm cama quente

e os que dormem ao relento.