terça-feira, 3 de dezembro de 2019

ESTADO DE ALMA

Dunieski Garcia

ESTADO DE ALMA

O cão sarnento
late à porta,
a menina de chapéu vermelho
deita-lhe a língua de fora,
um casal de canários
chilreia baixinho
na gaiola azul encriptada,
olhando a tempestade
no fundo do horizonte
encardido.
Os corpos dos transeuntes
escurecem a calçada,
presos à alma
são uma ventania
soprando nas brasas mortiças
do carvão assando castanhas.
O café quente queima as chávenas
e limpa todas os restos
de soluços presos na laringe,
içam-se as bandeiras nos mastros
abandonados,
das ruas que são as mesmas
pejadas de estranhas léguas.

Falando

Victor Silva Barros

Falando 1

Um trovão estridente
encheu a casa de sonoridade,
veio de noite
fez-me companhia
até à hora de ir para a cama


Falando 2

A casa é o centro
do que sou,
é a antepara
do calor emanando o príncipio,
o vulcão explodindo
afastando a multidão.


Falando 3

A poesia é a eternidade
descendo com a alma,
é como plantar uma árvore,
fazer um filho,
escrever a cinzel
o nosso nome
na transumância
de cada cordeiro pascal.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

CARTAS


Marco Santos
CARTAS 

Guardadas numa arca,
pirosas, coloridas,
laços, corações,
sol, mar e lua.
Muitas juras de amor,
tanto bem-querer,
com dias mágicos
em que chegávamos nós
e as ondas a bater na areia.
Celebravam datas,
dias de semana especiais,
eram repositório de desejos
e terminavam com beijos.
Transformaram-se
em memórias,
embrulhadas em pó,
com cruzamentos
e rectas fechadas,
com gente que já partiu
e outra que ainda resiste.
Letras desbotadas
de leitura difícil,
mesmo assim
não as quis partilhar.
Fiz  obras em casa, queimei-as.

AU REVOIR

Mary Carmen Calviño
AU REVOIR 

Admiro a tua calma gélida,
a tua maquilhagem marcada,
o rastreio que fazes das emoções,
o navio que deixas partir,
levando-me a mim que te amo.
Não tens coração,
nuvens de rugas sulcam-te o rosto,
a rotina suga-te a vida que é tua.
Juntos planeámos sonhos,
sair para um país que nos valorizasse.
Tantos anos de estudo,
tanta luta para vencer obstáculos
e só barreiras  é o que nos dão.
Nunca fizémos as malas,
de mim ficou uma fotografia,
no teu quarto, um adeus,
quem sabe uma lágrima.

IN MEMORIA


IN MEMORIA
de FIRMINO MOREIRA

Biologicamente alto,
aprumado,
acordado para o mundo
cofiando o vaidoso bigode,
sem medo da exposição
aventurou-se nos mistérios
da pintura, da poesia.
Pertencia onde estava gente,
de lenço colorido ao pescoço
bajulando as damas à antiga
com vénias e ósculos
nas bochechas.
Não iremos mais pelo Norte fora
perdidos nos matagais e
estradas florestais
para comer cabrito à montanhesa,
beber um copo de tinto caseiro,
saborear pudim escorrendo caramelo.
Neste poema de saudade, lembranças,
de pessoas boas e doces que nos
atravessaram,
do que se viveu,
das intenções para depois,
 das certezas, das hesitações,
da leveza que queríamos o ar
respirado pelas manhãs
tendo um livro na mão.
Da música ouvida e tocada
num piano cheio de histórias
e dores.
Partiu neste Outono triste
como um meteorito
galgando terra e céu
sem nos dizer Adeus.

Maria Olinda Sol

terça-feira, 19 de novembro de 2019

METRO

Dina de Souza
METRO

Hoje o metro não atravessou
a ponte de D. Luís.
Acidente, alguém se atirou ao rio?
Vá lá saber-se
o que passa na cabeça
das gentes desiludidas.
Os habituais passageiros
perdem a compostura,
barafustam pelo atraso.
Não há o frenesim
entra e sai,
a bisbilhotice matinal
do mulherio conhecido.
Abriram-se as portas,
descem os clientes
atravessando apressados
a ponte a pé.
Senhores passageiros
na próxima viagem
o tráfego estará normalizado.
Quero lá saber,
por hora pretendo sentar-me,
tomar meia de leite,
uma torrada barrada
com muita manteiga.

A LEMBRAR

Estrela Rua
A LEMBRAR

O Verão terminou há pouco
quente e seco
eis-nos no Outono
chuvoso e frio.
As tardes de Verão de outrora
eram longas e ensonadas,
as férias grandes, ensolaradas,
iguais a muitas outras
no doce remanso das raízes.
Íamos em magotes
à fruta da avó,
subíamos as árvores como esquilos
e comíamos com sofreguidão
sentados nos ramos.
O relógio da Igreja marcava
as horas atempadamente,
a mãe Ana preparava o repasto,
o pai Joaquim cofiava o bigode
para que a sopa quente
não o maculasse.
Uma paz caseira
cortada pela vozearia,
era quem mais se chegava
às iscas de fígado.
O futuro estava
ao virar da freguesia,
o Porto era perto
assim esperávamos.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

DIA DE OUTONO

Nunes Amaral
DIA DE OUTONO

Um ventinho frio
varre o tampo da mesa,
 as mãos geladas,
o livro que leio
esfolheia sozinho,
onde estás sol
enquanto as janelas
e as portadas
permanecem fechadas
neste dia escuro,
molhado.
Portas com história,
aldravas e batentes
abrem e fecham
só para dar guarida
aos moradores tiritando.
Nas varandas de ferro forjado
ninguém rega os vasos.
Eu procuro verbos
para conjugar
um Outono triste.

SEMANA DE CHUVA

Irene Gomes
SEMANA DE CHUVA

Era o vento agreste
soprando na tarde sentada.
O mundo deserto
espreitando de soslaio
as ruas molhadas.
As gaivotas fora de si
voando baixo
em redor das mesas
sem migalhas.
Era a tranquilidade
de um dia de chuva
com muitos apara águas
descendo as calçadas.
A viúva Zézinha
vestida a capa
há muito guardada
saía à rua,
faltava-lhe o leite
e a carcaça tostada.
Um pequeno almoço trivial
e o gato esperavam-na.
Era a casa gritada
com fantasmas pendurados,
o medo da noite,
o soalho gastado.
O coração ansioso,
o cavaleiro inventado
tardando a chegada.
A sombra do Outono
em sobretudo enrolada
trazendo as castanhas,
a água pé aguardadas.

CENA OUTONAL

José Luis Busto
CENA OUTONAL

Um: velhos sentados no jardim
jogando cartas afincadamente.
Dois: um homem e uma mulher
mais ausentes
num banco distanciado,
de mãos dadas
contando as gaivotas  quietas
que ali pousaram.
Três: as árvores largando a folhagem
preguiçosamente,
em dança acrobática,
enquanto os passantes
vivem este Outono
compassadamente
com berlindes coloridos nos olhos.
Quatro: despeço-me da tarde,
o dia foi triste,
com chuva miudinha,
o nevoeiro agreste.
Ausente dos afazeres,
por segundos indiferente,
foco-me na chama
do aquecedor do restaurante.
Cinco: a cidade velha vai desaparecendo,
é assustador tanto novo
no meu Porto centenário.
O café está quente,
a nata estaladiça,
por breves momentos
nada mais me assiste
senão a alquimia
da degustação perfeita.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

DIA DE FINADOS

Fernando Veloso
DIA DE FINADOS  

Hoje estou a pensar
numa fila de gente
que me ofereceu amêndoas,
fatias de pão-de-ló,
me pegou na mão
levando-me para a escola,
me penteou o cabelo,
embalou no colo.
Já sonhavam comigo
antes mesmo de eu nascer:
os meus avós, tios,
todos, quase todos
partiram.
Na casa de família
que ainda existe,
mora um primo meu,
deita-se no quarto
onde nasci eu
num parto longo e de dor.
O jardim lateral
em que a minha avó
cuidava dos jarros
esmagados
que saravam as queimaduras.
Tanta festa, ajuntamentos,
baptizados, casamentos,
ralhos, faltas de dinheiro,
mentiras, verdades cruzadas,
o padre Vigário abençoando
até a algazarra da criançada.
Tudo pertence ao passado,
restou para mim a saudade,
e, uma garrafa de cristal
onde a minha avó Olinda
guardava o vinho do Porto.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

TU

Victor Silva Barros

TU  

Hoje não vou falar de ti
não precisas de estar aqui
para eu te lembrar.
Hoje não quero abraços,
dançar a compasso
uma valsa sem fim.
Hoje não quero beber martinis
com duas azeitonas,
comer tostas de centeio
barradas a queijo da Serra.
Não vou fazer mais um poema
com cotovias dentro
cantando uma área de Verdi.
Não vou descodificar
o teu sentir codificado,
fechado num cofre de cobre.
Vou soltar um balão
de ais sentidos
que caia numa vinha madura
com muitos copos à mistura.

FOTÓGRAFO


Porfírio Alves Pires
FOTÓGRAFO  

Virou o meu pai um fotógrafo
no dia em que chegou a casa
com máquina e uns rolos na mão.
Procurava a melhor luz,
um golpe de visão
e fotografava a família
nas lembradas ocasiões.
Em dias de Comunhão,
ajuntamentos de irmãos,
festividades da freguesia,
Páscoa e Natal.
Que grande consumição
os rolos e a sua revelação,
só no Porto é que o faziam
para nossa aflição
Sentado no murete da entrada
assobiava, a catraiada corria
e em transe revia a vida
naquele papel.
Um luxo na altura
guardado até novas ordens
na gaveta do guarda fatos
do quarto da minha mãe.
Hoje são recordações,
olha a roupa dos anos setenta,
os cabelos compridos,
os óculos de tartaruga,
as calças à boca de sino
e muita, muita emoção.
A mãe de permanente fechada,
o pai de bigodaça farta
e chapéu cobrindo a careca.
O pombal no alto do jardim
repleto de pombas,
a bugambilia florida.
A avó Olinda rezando com devoção,
aceitando todos os castigos
da sua Católica Religião.
Hoje a casa está vazia
não restando sequer os retratos
ali tirados,
só um silêncio, frio e pesado.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

FOLHA A4

Filomena Fonseca
FOLHA A4  

A mão desliza
pela folha A4.
Acomodam-se os dedos
à caneta,
a linguagem à escrita.
Fervilha a cabeça
na ânsia do encontro,
marcarei no poema,
um fim de tarde seco,
uma sangria,
uma tarte de gengibre,
e, presunto de Parma.
O bar é discreto
sobre a praia.
Depois, logo se verá,
se o dia se torna claro
ou igual a todos os outros
de porta aberta
a uma agitada semana.

INDO AO PASSADO


Alberto d' Assumpção
INDO AO PASSADO  

Aberta uma brecha nas memórias
a alma cobre-se com uma manta
de mar calmo.
Ah a preparação para a primeira
comunhão, em casa de Mestra
escolhida pelo vigário da freguesia,
a hóstia que não podia ser mastigada,
a vela branca na mão.
A procissão do Corpo de Deus
com o pálio a cobrir o  Senhor Exposto,
as beatas atrás, de véu na cabeça
rezando o terço por mor dos seus
pecados, actuais e vindouros
A velha escola primária
na casa da D. Virgínia,
onde a professora primária
nova e deslocada, ensinava
os rios e caminhos de ferro
à chapada.
Que cruel era a matança do porco,
os grunhidos do pobre animal
toda a santa semana
castigavam as cabeças da criançada.
As primeiras saias mini
nos corpos roliços das moçoilas,
credo em cruz, a escandaleira.
Meninas de famílias consideradas
querem agora ser rameiras.
As mulheres acomodadas
à vida de servidão,
limpam o ranho do nariz ao pimpolho,
descansam as pernas fatigadas.
À noite pela janela aberta
entram os odores das flores do jardim,
sentada na cama entre almofadas
abro o caderno de linhas
e registo as memórias num poema.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

OUTONO

Mário Couto
OUTONO

Outono, no Porto granítico,
o céu enevoado e cinza,
dia sim, dia não.
Os turistas aos magotes
em grupos enfileirados
guiados por rapazes e raparigas
alguns até cantam o fado.
As mulheres entram apressadas
em ourivesarias antigas
e compram jóias em filigrana.
Uns param nas calçadas
e tentam interpretar
os desenhos calcetados.
À tarde quentura,
à noite sopra um vento do rio,
põem as damas uma echarpe
antes do jantar na esplanada.
O Porto empurrado
por estes pilares inesperados
fica lavado graças a eles.

A SALA DA AVÓ OLINDA

Nunes Amaral
A SALA DA AVÓ OLINDA

A sala de jantar
era cheia de gavetas:
a mesa gigante,
(a família era enorme)
tinha 4 gavetas
nas laterais,
encontravam-se sempre
algumas fotografias
de três gerações,
em poses estudadas,
os cabelos delambidos,
os sapatos lustrosos.
A cómoda de castanho,
repleta de gavetas
onde se guardavam as roupas,
as gravatas, as meias
de seda das tias,
os xailes de merino,
os lenços bordados a ponto cheio.
Por cima o oratório
com o medonho senhor dos Passos
de roxo e rosto sofrido.
Nas paredes pequenas prateleiras
com pequenas gavetas,
onde se colocavam as medalhas
ganhas em competições da Tuna.
A arca de Noé, cheia como um ovo,
era um repositório
de roupas de cama,
vinho do Porto ofertado
e guardado a sete chaves,
documentos, facturas
cartas e muitos postais.
Nós, os da nova geração,
perspicazes e à frente
deste pensamento corriqueiro
e provinciano,
saído da Morgadinha dos Canaviais,
porém gostávamos
da mesa cheia de gente,
das travessas cheias de comida,
das palavras gritadas,
das gargalhadas, do calor.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

POEMA

Victor Silva Barros

POEMA 1

Cada casa suas histórias
penduradas nas memórias.
Fechadas com a morte
continuam vivas
enquanto duram os que
a habitaram.
Depois ficam os fantasmas
a espreitar as novas vidas
e felizes se forem
melhores que as suas.

POEMA 2

Subo a escadaria,
cansada,
antes de entrar em casa.
Até quando?
Nada me impede,
nem gente, nem bicho.
Construída num alto
permite um melhor respirar.
Apenas isso,
pois o resto é solidão.

POEMA 3

Queria a Lua
e não  gente a caminhar
em vez de pensar,
um poema contigo dentro
e uma cadeira para descansar.

POEMA 4

Uma constatação:
apesar de tudo
a vida é bela,
vale muito a pena,
alguém precisa de mim.

POEMA 5

Inédito:
um triste americano,
alto e robusto como
um carvalho do Norte,
sentado a uma mesa,
come uma francesinha
bebendo leite.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

PENSANDO


Maria Xésus Diaz
PENSANDO  

Paremos entre o muro a viela
stop
que o som da rádio
é maior que o do cantor de rua.
Meçamos até onde vai
o nosso querer
de água gaseificada de Marte,
fresca, com rodela de maçã.
Pensámos alcançar a lua,
bastou-nos o luar brilhante
a entrar pela janela
da mansarda opaca.
Sem contar, hoje,
a floreira da esquina
acordou com dúzias de tulipas
de todas as cores do arco-íris.
Ai amor vertiginoso
que suga até o olhar
e cai sem pensar
no boeiro da rua.
Dormes e eu sustenho a respiração
não quero acordar-te os sonhos,
nem que tenhas pesadelos.
Ah mar no horizonte do olhar,
liquido e majestoso,
enchendo de bruma, a praia,
embalando os fins de tarde
enquanto se toma um café
na esplanada de sempre.