terça-feira, 17 de julho de 2018

SÁBADO



SÁBADO

Sozinha,
tomando o café
pós almoço
na esplanada
de sempre.
As conversas
das mesas vizinhas
entrecruzam-se,
um ruído característico
de gente que fala alto
cola-se aos ouvidos.
Difícil ler o jornal,
as notícias destacadas,
folheio o Expresso,
meia alheia, meia longe.
A tarde está farrusca,
não tenho mensagem
no telemóvel,
as gaivotas encostam-se
no portal.
Há menos turistas,
ainda sobrará cidade
para as gentes do Porto
habitarem.

ROTINAS

ROTINAS 

Às onze da noite
calam-se os vizinhos,
deixa de se ouvir
o arrastar de cadeiras,
as discussões sem sentido,
as horas a bater
num relógio antigo.
Aqueço café com leite,
como todos os dias
passo de canal para canal
à espera de alguma coisa
descolando as pestanas,
abrindo de espanto o olhar.
O aparador de castanho novo,
assiste imóvel,
ao frenesim da procura.
Não encontro o pijama,
a beberagem está fria,
o carro do lixo
começa a apitar.
Fala-se de futebol
em todas as estações
televisivas,
é sempre tempo de tudo desafinar.

DIA DE TEMPESTADE

DIA DE TEMPESTADE 

O mar em fúria
explodindo em sal e bruma,
eleva-se do leito
e cresce, cresce,
submergindo o grande areal.
Ao longe encolhem-se os navios,
no ronco da tempestade,
a quilha descreve meias luas,
o negro do céu
anuncia mais vento, mais chuva,
empurrando os barcos
sabe-se lá para onde.
Sem solução à vista
concertam-se as comunicações,
Santa Bárbara nos acuda,
não há engenho que resista
quando a Terra se agiganta
semeando desespero.

terça-feira, 10 de julho de 2018

PAISAGEM MATINAL


Ana Cristina Dias
PAISAGEM MATINAL 

Acordar com a brisa da manhã,
abancar na mesa de pinho velho,
comer a fatia de tarte de maçã,
beber devagar
o chá de Lúcia-lima
traçado com leite magro.
Olhar pela janela baça
debruçada sobre uma tília majestosa,
vislumbrar os pássaros a planar,
sem pressas, sem contas a pagar.
Esfregar os olhos,
que preguiça santo deus.
E o trabalho? Que lembrança!
Pegar o autocarro da carris,
ir como sardinha em lata,
cumprir o horário,
as ordens do chefe,
sem direito a reclamar.

IDEIAS AMONTOADAS


Ana Cristina Dias
IDEIAS AMONTOADAS 

Palavras, sinais de pontuação,
figuras de estilo, inversões,
o navio a flutuar
no olhar da coisa amada,
mensagens trazidas por Mercúrio
nas suas asas de renda.
Pontios no céu por decifrar,
o verbo que não acompanha
o sujeito,
terça feira diluviana,
o ferro que não desfaz
as pregas do pescoço.
Textos em Inglês
indecifráveis e frios,
a humildade fugida
por imposição da vida.

UMA SALA


J. Valcárcel
UMA SALA  

No fundo da caixa negra
sob a janela
da pequena sala,
havia um mundo de fantasia,
e, por magia ou imaginação
de lá nasciam
todos os sonhos do mundo.
Nas longas tardes de estio
de sol abrasador,
servia aquela sala de refúgio
de caça ao tesouro escondido.
Eram moedas
do tempo dos reis,
socas de tacão
enfeitadas de flores e corações,
saias bordadas a vidrilhos,
corpetes apertados
com fios a ilhós.
Garrafas de vinho do Porto
perdidas em tempos idos
e um monte de cartas de amor
embrulhadas em papel pardo.
Nunca percebi a qual das tias-bisavós
pertenciam: se à Rosa se à Ludobina.
Aquelas senhoras de rugas vincadas,
sorriso baço,
solteironas sem escolha,
também amaram,
também sofreram de amor.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

VIVA PORTUGAL


Collado
VIVA PORTUGAL

A menina
do quinto esquerdo
à janela,
linda, de pele macia,
vestida a rigor
de vermelho e verde,
agita a bandeira pátria.
A televisão em alto som
transmite os resultados
do jogo decisivo
Portugal - Irão.
O seu corpo moço
estremece,
solta-se jorrando emoção,
golo, golo, golo,
do Quaresma
e desta pequena nação. 

O MEU POMAR

Collado

O MEU POMAR 

O meu pomar
não tem damascos,
preguiçosas as árvores
dão ano sim, ano não,
deixando-me
neste desconsolo,
só aliviado
para o ano que vem.
Tem ameixas, pêssegos,
cerejas, maçãs e peras
amaciando a canícula
do Verão.
O fogo do calor
varre tudo,
amadurecem os frutos
de uma assentada.
Ponho a chaleira ao lume,
um chá de lúcia lima
refresca mais
que uma golada
de água gelada.
As palavras brotam
amontoadas,
como as framboeasa
sobrepostas
num prato raso,
vai nascer mais um poema.

DESCRIÇÃO


Collado
DESCRIÇÃO  

A lua esgueira-se
por detrás do telhado cinza,
inclinado.
O anoitecer
está tão calmo,
pode-se contar as luzes
na ponte de D. Luís.
O dia desaparece,
o rio cantareja
sobre as rochas esverdeadas
e lá vai, lá vai
contente a caminho da foz.

PRESSÁGIO


Collado
PRESSÁGIO  

Um barco apinhado,
a sede transpira
nos rostos suados,
onde ides ó fugitivos?
a Europa não vos quer.
Olha apenas
a sua barriga farta,
o medo fica estático
detrás de muros medonhos
de indiferença recalcada.
A fome é maior que tudo,
um dia os muros cairão
à força dos desiquilibrios.
A Itália chorará, Chipre,
Grécia, Turquia, Áustria,
Polónia, República Checa,
vandalizados por vilipandiados
a quem retiraram tudo,
até a esperança.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

NO MEIO

Esther Molinero

NO MEIO 

Estar-se vivo
ouvindo o respirar
na sala excêntrica,
datada,
maples de napa
coberturas de crochet.
Lá fora alguém grita,
faça-se qualquer coisa.
Chove, não chove,
o calor aperta, sufoca,
é penoso arrastar os pés na rua.
A esplanada aguarda,
sombra, uma sangria,
a água a jorrar na fonte.
Uma ninfa solta-se
do meio das demais,
espreguiça-se na cadeira
do meu lado,
bora lá, vamos fabricar um poema?

PAISAGEM MATINAL

Collado

PAISAGEM MATINAL 

Cada manhã,
debaixo da janela aberta
do quarto a nascente,
o riacho Oana
marulha sem cessar.
Os limos verdes
pendem sobre as margens.
os peixes dourados
esgueiram-se aos anzóis
aproveitando
a boleia da corrente.
O céu plúmbeo
anuncia chuva,
lava o rio, leva as mágoas.
O moínho velho
pouco labuta,
de longe a longe
moí um saco de milho.
Neste bucólico lugar
escrevo à tardinha
no meu caderno de linhas
mais uns poemas.

FIM

Collado
FIM 

Acabou.
Findou.
Não há mais poemas
com luas dentro,
sóis incendários
iluminando o escuro,
ópera escutada  a dois,
sentados em cadeirões
de um teatro antigo.
As lembranças diluem-se
deixam lentamente
a alma.
Desapareceu
o que nos ligava, adeus!

MEMÓRIAS

Isolino Vaz

MEMÓRIAS 

Tão distante
o meu avô paterno
anafado, grande,
no leito deitado
As velhas da família
chegando-se,
pratos de aletria,
leite creme,
pousados na mesa
de cabeceira.
Para meu espanto
o dedo do meu avô
indicava
que eu sua neta
comesse as iguarias.
É a minha lembrança
dele,
depois desapareceu.
A família agastada
de luto vestida,
lágrimas, flores,
um retrato na parede
tocando violão,
ficou-me  dele
o seu fim,
para toda a vida.

POBRES TEMPOS


Ana Cristina Dias
POBRES TEMPOS

Um risco vermelho
mancha a brancura da parede,
a alma sangra
em ferida exposta,
as gaivotas nervosas
atacam alvos ao acaso,
crianças são engaioladas
enquanto os pais são interrogados,
em Itália querem-se os ciganos
em listas fixados,
e pode-se exterminá-los?
A fome passeia na tórrida África,
onde  cristãos são chacinados,
na América Latina mata-se,
mata-se, mata-se,
no Médio Oriente enlata-se
a liberdade.
Os credos servem o poder,
sem permissão traçam em dor
a todos um sombrio destino.

terça-feira, 12 de junho de 2018

JORNAIS



J. Valcárcel
JORNAIS 

Entre cada virar de página
de um jornal diário
e um golo de café quente
naquele boteco familiar,
tudo é um ritual.
O que me seduz
são as  notícias
comezinhas, de pé de página,
as não editadas, com verdade,
as infames sem rede,
as azedas sem arandos ou chocolate.
De resto, que dizer da violência
gratuita, suja,
repetida com insistência doentia,
as notícias tontas  de um jet sete
inexistente,
as ondas de corrupção
envolvendo tantos
que de tantos é difícil processá-los.
Teias que me escapam
entre os vapores do café
e a doçura da nata.
Já não há linhas editoriais,
manda o dinheiro, reina o capital.

ENIGMA DESVENDADO


Victor Silva Barros
ENIGMA DESVENDADO 

Levantou o sobrolho o vigário
quando a criança ajoelhada
no degrau do confessionário
à pergunta de quem és filha
obteve de resposta
é o senhor vigário.
Só sossegou o septuagenário
deslindado o enigma,
a família da rapariga
tinha como alcunha
o título eclisiástico
do padre da freguesia.
Que alívio...

VERÕES

Collado

VERÕES 

Quando as pêras se mostram
pendidas, pesadas,
nos ramos fragilizados,
estendo as mãos e colho-as.
Levo-as até à cozinha,
corto em tirinhas a polpa doce e macia
e faço doce temperado com canela.
Duram meses envolvidas
no ponto pérola de açúcar amarelo,
fechadas em potes redondos
com fitinhas coloridas.
São o desejo de mais verões
onde o olhar pousava nos pássaros
voando com eles para outras galáxias.

RESTOS


Collado
RESTOS

Tiveram sempre um disponível colo
pronto, macio, acolhedor,
abraços de dia e de noite
sem regatear,
uma mesa farta a preceito,
grandes frascos de compota,
queijo fresco,
café acabado de fazer.
Lágrimas sentidas
por cada partida programada,
sorrisos largos às chegadas.
Desses tempos nada resta
até o toldo branco
abrigando as festarolas
esgueirou-se no vento.
Cada um para seu lado
esquecido o passado
nenhum retorno é possível.

terça-feira, 5 de junho de 2018

À ESPERA DA CONFISSÃO



À ESPERA DA CONFISSÃO 

Páscoa 1965,
umas senhoras, muito senhoras
falando baixo,
usando um véu pardo
cobrindo o cabelo,
dois cavalheiros sisudos
mostrando-se agastados
pelo tempo de espera,
umas criancinhas malcriadas
correndo à volta do confessionário,
Um casal de namorados
vai até ao adro pôr a conversa em dia,
uma jovem delambida,
espera sem stress o padre coadjutor,
a minha mãe enervada
espera os bifes
que me mandou comprar
para o jantar.
Eu sem pingo de sangue
na fila interminável
da desobriga.

DESEJO

Luís Morgadinho

DESEJO 

Na cama do hospital
com dores pós-operatório
na garganta,
pedia um comprimido só
para aliviar as picadelas
e um ramo de rosas,
grande, grande,
como vira um dia
num filme de Hollywood.

PERGUNTA


Alberto Ulloa
PERGUNTA 

Mãe
quando chegará o momento
de ser eu completamente,
esquecer o pedir licença
para tudo,
viver, não imaginar,
escrever a própria história
nem que seja ela trivial
como o pardal
procurando a migalha no regaço
da padeira mais velha do Bolhão.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

BAILE DA PARÓQUIA


Giga Coelho
BAILE DA PARÓQUIA

As raparigas
de vestidinhos frescos,
coloridos,
sapatos de biqueira fina,
levantados em tacões agulha.
Enlaçam-se emotivas
a mocetões desconhecidos.
Os olhos das mães rolavam
sem ver
os corpos tocando-se,
as emoções ao rubro,
os beijos de raspão,
as juras de encontros
a posteriori.
Os intervalos impostos,
a água gelada no bar
refrescando do calor
e dos ímpetos.
Volta a tocar a música,
há que rolar,
nos braços do primeiro par.
Galopa a cabeça
na vontade de um novo baile,
apenas ali era permitido
voar em braços alheios.

O MEU TRISAVÔ FERREIRO

Molina
O MEU TRISAVÔ FERREIRO

Na cave um alambique,
o fedor a aguardente
espremida e embalada.
Os dedos arqueados
do trisavô António,
vergado pelo poder
do martelo e da bigorna.
O mata bicho
era ali à bica,
subindo à oficina
já não sentia
o calor da fornalha.
Alinhava enxadas,
foucinhas, gadanhos,
arados e grelhas.
E assim levava a vida
e sustentava tanta filharada.
Ao domingo fazia a barba,
penteava e encerava o bigode,
vestia o fato preto
e pedia a deus perdão dos pecados.

PRETENSÕES



RAFAEL DIÉGUEZ FERRER
PRETENSÕES

Um dia ainda hei-de
partir o cimento da entrada
cobri-lo com granito
debruado a jasmim.
Com tábuas recicladas
farei um baloiço grande
onde caibam dois
tentando ser pássaros.
Contarei anedotas tolas,
sem sentido,
  para que se riam
esquecendo a distância
entre os outros e nós.

ESCOLHAS



ESCOLHAS

No tempo da minha
cristã educação,
embora pequena,
olhando para os anjinhos
gorduchos e sorridentes
da capela do Calvário,
preferia estes
a Cristo pregado na cruz.
Festa e redenção,
sacrificio e dor,
prefiro a festa
sem joelhos esfolados
sem remorsos de pecados
feitos e por fazer.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

A TIA MARIAZINHA


Fernanda das Neves
A TIA MARIAZINHA

A minha tia Mariazinha
noite e serão
de agulhas e lãs
na mão
fazia um tapete colorido
para me ofertar.
Passados anos
o tapete não se concluia.
Tal como Penélope
que fazia e desfazia
o que a tia queria
era a ideia de presentear.

NOITE


Orlando Falcão
NOITE

No silêncio frio da noite
há momentos de serenidade,
o último passarito apaziguado
solta o derradeiro trinado
recolhendo-se no ramo
da árvore mais alta.
Vestido de nevoeiro e segredos
o escuro poisa em tudo,
entra pelos trincos da porta
inspirando alguns poetas.
As palpebras sobem e descem,
o sono não chega,
maldita insónia
engolida num copo de água fria.
Com algum custo
espremem-se as palavras
nasce de repelão
mais este poema.

DESPERTAR

Collado

DESPERTAR

Ao amanhecer, tudo muda,
a luz rasante invade os cómodos,
as cores neutras tornam o dia
mais doce, mais autêntico.
Alegra o despertar na bálburdia
do pequeno almoço.
Brilham taças de fruta fresca,
o espumoso leite quente,
o de negro centeio
estalando na derretida manteiga.
Ah a verdade de ter que levantar,
correr para a rua estreita,
apanhar o autocarro lotado,
ganhar o pão com custos exagerados.

TEMPOS IDOS


Collado
TEMPOS IDOS

1969,
entrada triunfal na Universidade,
o edificio vetusto
entre o velho hospital
e as cavalariças da guarda a cavalo.
O pé alto do edifício
mais alto que todos os sonhos.
Um medo esquisito
percorria a galope o meio da espinha.
As madeiras gastas,
os bancos infindos do anfiteatro,
a voz imposta
dos professores catedráticos.
A biblioteca pejada de livros,
os alunos transportando nas mãos
as vitórias futuras a ganhar.
Tomava-se uma bica no café Piolho,
estudava-se no café Estrela
em troca de um iogurte azedo
e o olhar cúmplice dos garçons
que por tão pouco
nos permitiam uma tarde de trabalho.
Contado tostão por tostão
de vez em quando uma sessão de cinema
no teatro S. João.
A vida fruia em gargalhadas sonoras
éramos jovens e felizes.

terça-feira, 8 de maio de 2018

UM AVÔ PESCADOR


Collado
UM AVÔ PESCADOR 

Um avó pescador
não estava no ADN da família,
carnes duras,
marcas fundas 
desenhadas pela maresia,
olhos cor das redes
lançadas na escuridão.
Preferia a família para a filha
a rudeza da terra fértil,
o sabor a milho e a girassol,
poucas horas dormidas
pelas regas do cortinhal.
A rapariga lutava
entre a liberdade do horizonte
e a certeza de pão à mesa.
Plantou-se no seu peito
as histórias de neblina, gaivotas,
sereias, monstros agarrados
aos barcos.
Num silêncio salgado
deixou o pai magoado
e escolheu o mar.

FINAL


ADIASMACHADO
FINAL 

Na família
há o chamado funeral
onde se enterram os despojos
e se esquece a vida.
Na cabeça os cifrões
cabendo no canto esquerdo
de uma folha A4,
o resto um lamaçal vazio.
Medrosos, mesquinhos,
são todos,
uns agigantam-se na crueldade,
outros encolhem-se na cobardia.

OS PRIMEIROS TACÕES

Victor Silva Barros

OS PRIMEIROS TACÕES 

Os primeiros sapatos de tacão,
ver as coisas um pouco de cima,
o mundo era mesmo meu.
A distância entre eu
e os adultos, encurtou-se.
Usava-os com meias de seda,
ao domingo,
celebrando o dia do Senhor.
Mais um adorno
como a bandelete no cabelo,
a bolsinha com vidrilhos
a tiracolo.
Garbosos os passos
tão segura a caminho do futuro,
ainda não sabia
dos percalços da calçada
ao dobrar da esquina.

CISMANDO O RIO


Collado
CISMANDO O RIO

O rio corre espumoso
com pressa
de se lançar ao mar.
Teus olhos turvos
da cor da água
de tanto o ver
já não o vêem.
No enleio das memórias
alcançaremos ainda
um barco tosco
levando-nos
pela noite dentro
até ao nascer das águas
até ao princípio do mar.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A AVÓ OLINDA


José Gonzaléz Collado
A AVÓ OLINDA 

A avó Olinda
mãe do meu pai,
era tão beata, tão beata,
daquelas de terço contado,
diariamente, pós jantar,
preces ao deitar,
missa ao domingo,
em dias santos
e santificados,
e confessos semanais.
O oratório da sala
com Cristo martirizado
ao colo de sua mãe
dolorosa,
assustava-me,
à noite tinha medo
de o olhar.
Assistiu ao baptizado
de todos os netos e bisnetos,
conforme a prática cristã.
Total o seu amor
ao Catolicismo,
sofrida ajoelhava
esquecendo as dores da vida.
Os dedos angulosos
Esticavam-se
tirando do fundo do medo
os deuses por si criados.
Vergada ao peso da alma
só se levantava
confessados todos os pecados,
perdoadas todas as leviandades.
Se fosse viva gelaria
ao ver os poucos frutos
da sua educação cristã.

GLICÍNIAS


José Gonzaléz Collado
GLICÍNIAS

As glicínias
em cacho, pintadas de lilás,
espreitam todos os muros
do país,
os limpos e caiados,
os abandonados
de pedras negras amontoadas.
Espalham em seu redor
um cheiro forte e doce
transportando Primavera
às ruas de todos os lugares.
São brincos dependurados,
enfeitando as cores,
do arco-íris na cal.

PROCISSÃO DA QUARESMA


José Gonzaléz Collado
PROCISSÃO DA QUARESMA 

Estarrecida
vendo o Senhor dos Passos
com toda a dor nos ombros
e ninguém, ninguém
para o ajudar.
O tempo esconso,
as beatas contritas,
porque não pegar
nele ao colo
e curar-lhe as feridas?
Bate o meu coração inquieto
querendo muito
que fosse só uma estampa
e não um episódio
de uma vida matada,
por prometer mudanças.

ESCOLA PRIMÁRIA

José Gonzaléz Collado

ESCOLA PRIMÁRIA 

Aquela escola primária
sem o ser,
casa alugada
com quartos, sala,
cozinha e privado.
O quadro negro de lousa
ocupava a parede
 mais larga.
À quarta feira
pendurava-se o mapa
de Portugal,
e viajava-se.
Cantavam-se as linhas
férreas,
batendo cadentemente
palmas.
Com pioneses coloridos
assinalavam-se os rios,
afluentes e subafluentes.
À sexta contava-se
o hino nacional
e beijava-se a bandeira.
As contas faziam-se
usando os dedos.
Venerava-se todos os dias
a professora esguia
como se fosse a nossa mãe
ou uma estrela guia.

terça-feira, 24 de abril de 2018

DO NADA SE FEZ LUZ


José Gonzaléz Collado
DO NADA SE FEZ LUZ

No príncipio era o nada,
o escuro, o silêncio.
Depois uma explosão,
um vulcão rompendo
nas entranhas da terra.
A lava pousada,
a terra arável,
as plantas crescendo
bafejadas pelo sol.
Deus decidiu
fez-se luz,
os animais
multiplicaram-se,
ocuparam espaços.
Tornaram-se o princípio
e o fim,
a resposta extasiada,
a essência, a crença,
a vida acontecendo
Tremeluzente
nas mãos do homem
um sopro diferente
para o último ser da criação.

ANIVERSÁRIO

José Gonzaléz Collado

ANIVERSÁRIO 

Comprou-lhe uma pulseira
de pérolas
sonhada desde o Natal passado.
Revirados os bolsos vários,
contou todos os tostões,
pediu uns trocos à mãe,
mas a prenda não faltou
festejando o aniversário.
Vinte anos, Teresa,
só se fazem uma vez.
Vestiu o fato escuro,
o que tinha guardado
no armário
para tais ocasiões.
Arrumou o cabelo revolto,
forrifou o lenço branco
com aroma de pinhal.
Ela apareceu,
a boca cor de carmim,
o sorriso de lua.
Ele acenava-lhe
do outro lado da rua.
Na mão o presente,
no olhar um ramo de girassóis,
na mesa reservada
ostras  e uma taça de champanhe.

NESTA PRIMAVERA

José Gonzaléz Collado

NESTA PRIMAVERA 

Manhã jovial
com cantos de pássaro
nos ramos das macieiras.
Poderosa terra
alfobre de raízes,
a luz rasa
entrando pela fresta
da janela.
A casa antiga
herança dos avós
embalando o marulhar
das águas do ribeiro.
O azul do céu
salpicado de gaivotas,
a gente imperfeita,
o corpo inseguro
amparando-se ao restolho
do aparar dos arbustos.

SALA


José Gonzaléz Collado
SALA 

O sol
não entra à tarde
na sala.
Uma lanterna acesa
silencia os contornos,
 o medo,
os movimentos rápidos.
Na parede os quadros,
paisagens reféns
de terras nunca visitadas,
A sala, muro
entre mim e lá fora.
Aconchego
no sítio exacto
onde quero estar.

terça-feira, 17 de abril de 2018

NARRATIVA



António Bártolo
NARRATIVA

A rua inclinada de Santo António,
o eléctico amarelo
subindo.
Nas costas  S. Bento
o comboio que chega,
a azáfama.
Muita música
na rua das flores,
todos querem ganhar
com os turistas.
A chuva continua,
fria, miudinha,
chuva há mais tempo
que a paciência.
Os braços enferrujados,
as mãos querendo
tocas rosas.
O café quente na Império,
os jornais voando,
fila para o Majestic,
o Porto planando.