terça-feira, 16 de janeiro de 2018

CONFISSÃO

CONFISSÃO

Marca-se um encontro
no coração da cidade,
a discussão é sobre nós.
Roda a moeda
quem paga o café,
cai não cai
o pingo escura da chávena
na seda da camisa branca.
Notei que me olhaste
tu que nem me vês,
torna-se sério o encontro.
Descalço as luvas de lã,
coisa de conforto,
para ouvir de verdade
o que cada um tem a dizer.

NOITE INVERNOSA

NOITE INVERNOSA  

Uma lata vazia
rola na rua húmida,
fria, encharcada
de poças de água.
Os pés escorregam
na viscosidade
lamacenta das ruas
conspurcadas…
A gabardine pinga,
dobra o guarda-chuva
a pressa é toda
para entrar na Império,
um galão a ferver
uma Glória crocante.
As pegadas  molhadas
ficam no hall,
o vento lá fora,
a sala é luminosa,
na mesa há papel,
caneta, inspiração,
tudo a postoa
nasça o poema.

INFÂNCIA

INFÂNCIA  

Lembro-me
como um flash,
a criança loura,
de olho azul
sentada
no meio da escadaria
com saudades
da mãe que tardava.
A boca abre-se
de espanto,
solta-se o berro
logo que viu
quem a mãe trazia pela mão.
A irmã Luísa
de laçarotes brancos
enfeitando as tranças,
vestido curto e tufado,
sapato de verniz
de presilha ao lado.
Como ficou sentida
por ter sido preterida
de menina das alianças
no casameno
o da prima Dolores
só porque lhe caiu
ao mesmo tempo

os dois dentes da frente.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

PEDROGÃO 2017


Albano Neves e Sousa
PEDROGÃO  2017

Ardeu tudo,
o fogão,
o cadeirão herdado,
o gato Pitusca
de pelo emaranhado,
o cobertor pardo
comprado na feira da vila,
As roupas, os sapatos,
as fotografias ilustrativas
das festas, das viagena,
das etapas mais significativas
das suas vidas.
As compotas,
o leite das cabras
ordenhado de manhãzinha,
os livros da primária
guardados como troféu.
O terço, o relicário
ofertado pela avó.
As galinhas, os ovos frescos,
o pão cheirando a forno centenário.
Os bombeiros não chegaram,
o INEM não apareceu,
a GNR passou ao lado,
neste abandono conjugado
a alma morreu também.
O corpo ficou,
o vazio em cada mão,
rodando o saco negro
oferecido pela caridade
queimando mais uma vez
ao limpar sem pejo
as grandes falhas do Estado.

TEMPO



José González Collado
TEMPO

Penso o meu poema
no tempo
que não sinto meu.
Cada verso é um impulso
neste meu defeito confesso
de querer salvar o mundo.
Nem hipóteses me dão
de começar a tarefa,
quem te manda ati meter-te
em seara e foice alheia ,
fala antes por falar
de flores, de frutos, de vendavais.
Tranca as estrofes,
guarda-as a sete chaves
na mesa de cabeceira,
esperando que um dia
alguém lhes preste atenção,

alguém os leia.

CASA NATAL


José González Collado

CASA NATAL

Queria rer uma casa natal,
sorrisos permanentes,
muitas rabanadas quentes,
de leite e mel,
aletria dourada,
creme rescendendo a caramelo,
bolinhos de jerimu, vinho quente,
café, um cálice de aguardente.
Queria conversas serenas,
sentir que gostam de nós.
Deixar a lenha
queimando na lareira
a noite inteira
aquecer tudo até à alma.
Pela meia noite
procurar luvas e gorros,
sobretudos felpudos
ir à Missa do Galo,
beijar o pé pequenino
e cheiroso
do Deus Menino.
Ser uma peça mais
nesta engrenagem
não sei se enganosa
se providencial
criando dias felizes
no mês de Dezembro,
no calendário de cada ano.

MAR


José González Collado
MAR

O mar continua longe
hoje sereno com pequenas ondas.
É visceral,
metê-lo dentro de frascos,
bebê-lo nas noites mais prementes.
Uma linha de barcos no horizonte,
minimal,
a tela do pintor de rua
enche-se de traços
e eterniza o balanço da água.
As dunas desgastam-se
forçadas pelo vento,
os chorões abraçam-nas
fixando a muralha protectora
ao avanço das águas.
Um casal destemido
toma banho nu
no Novembro frio.
A chuva sem se anunciar
cai de supetão
molha ainda mais
corpos  humedecidos.
O fim do dia trouxe um arco-íris,
as nuvens negras
cobrem as pessoas,
o mar,
a vontade de integrar
os mistérios milenares
do oceano eterno.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

PAUSA


José Gonzalez Collado
PAUSA     

Pausa em tarde seca.
Os olhos fecham-se,
esticam-se as pernas ao sol,
esquisitice deste Outono.
Presente um burburinho
continuo, irritante.
Os sem abrigo negros
estabeleceram-se
nos Poveiros,
bebem de pacote
uma zurrapa tinta
ouvindo em altos gritos
as últimas músicas
do top angolano
em rádio gigante.
E falam, falam
ao telemóvel
num linguajar
de sotaque balançado.
Eu, no meu íntimo silêncio,
penso, quero,
o barulho dissipado,
à margem de tudo
que nasça mais um poema.
Com café dentro,
 páginas de jornal lido,
a disfunção entre dois mundos:
os que têm cama quente

e os que dormem ao relento.

ÚLTIMA BEBIDA



COLLADO
ÚLTIMA BEBIDA  

Cinco da manhã,
pouco se circula
na cidade adormecida.
Num bar esquecido
ao fundo da rua
tremelica uma luz
azul, intensa.
Entrar, não entrar,
vou, sento-me.
O último gin tónico
é sorvido
enquanto o pensamento
grita
em volta  do que quero

para mim.

PENSAMENTO

Victor da Silva Barros

PENSAMENTO  

Agora tem tempo
no tempo que é curto

para sonhar.

INACREDITÁVEL


Victor Silva Barros

Incredulamente tu,
fechando o coração,
ansiosa, medrosa,
temendo o golpe
que o abriria.
A chuva finalmente
escorre pela janela,
branca, fria,
líquida persistente,
quisera eu
conhecer-te assim.
Deixa-me levar-te
em direcção à luz da cidade
onde se distribui
essências na rua,
copos de vinho do Porto
em bares aconchegados.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ARTE


Collado
ARTE  

Ao artista compensa?
dentro da tela fica alma,
o suor, as esperanças.
Os críticos ferozes
espiolham a técnica,
a paleta de cores, a novidade.
A leitura é rápida,
pouco se contempla a obra
registada num rectângulo
ou num quadrado.
No  príncipio é a brancura
do linho,
as paletas tingidas
de tubos alinhados
com as cores do arco-íris.
O pincel torna-se vivo,
entranha-se na luta
entre a mente e o objecto,
a grandeza da criação
e encher a tela com harmonia.
Parado pela força do cansaço
mesmo assim
o fazedor de sonhos
pega em pedrinhas de quartzo
e enfeita as tranças
da ceifadora de trigo
na imensidão da herdade

por si plantada no quadro.

UMA HISTÓRIA REAL


Victor Silva Barros
UMA HISTÓRIA REAL 

Os anjos
com falta de sono
descansam, por momentos,
nos beirais das casas
onde habitam crianças.
Foram tantos os pecados
dos humanos,
as omissões, os esquecimentos,
afastando os anjos
que por ora só ligam aos pequenos.
Preocupados,
entram pelas frestas das janelas,
embalam com ternura
dois irmãos gémeos,
chorosos, medrosos.
Aquecem no microondas o leite
da Matilde esfomeada.
Acendem a luz de presença
ao João assustado.
São uma réstea de luz
difusa,
desprovidos de tempo,

ficam até serem necessários.

JESUS


Victor Silva Barros
JESUS  

Jesus era o seu nome
sacramentado em baptismo
quiseram no rapaz perpetuar
a tradição de família.
Toda a vida foi Ju
confundido com Jerónimo,
João e até Joaquim.
Terra a terra, comum,
vulgar, sem marca de água.
Negrito, pequenote,
de frágil compleição.
Gostava de comesainas,
de beber mais,
sem jeito, sem sedução.
Envelheceu, morreu,
não deixou pegadas,
lápide, livros de memórias.
Foi mais um
no rol dos esquecidos
apesar do invulgar nome,

foi igual à maioria de nós.

FRONTEIRAS

Victor Silva Barros

FRONTEIRAS  

É como eu digo
o crime
nem sempre traz castigo.
Sentemo-nos
esquecidos os ódios de estimação.
Rodemos o cesto do pão,
as azeitonas pretas,
o queijo curado de ovelha beirã.
Brindemos com tinto do Douro
à vida, ao sol quente
abrindo a janela de manhã.
Falemos devagar,
dando voz a todos
a razão de estarmos aqui
é não aceitarmos fronteiras,
limites ao pensamento.
Vê-se o mar do pátio,
fazemos perguntas
questionamos respostas.
Os mapas existem
traçando rumos,
nós desejamos liberdade,
a agressão da inquietude,
a beleza depois da beleza
o paraíso perdido,

a vida conduzida por nós.