quarta-feira, 12 de julho de 2017

DIA DE VERÃO

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DIA DE VERÃO  

O sol queima, lambe os braços,
a cara, o nariz, um chapéu largo
afugenta o calor dos raios, debaixo
das árvores espera-se a merenda
que tarda.
Do armário da cozinha a avó retira
os cestos de palha, embrulha o pão
de mistura, a compota de laranja,
o mel de urze, o queijo fresco,
os figos pingo de mel, a limonada fresca,
sacia  a fome, a sede dos seus meninos
dependendo dela.
Faz o que fizeram as mulheres desde sempre,
dá o pão, o apoio, as mãos.
Os deuses estão por ali invejando a avó,
espreitando a medo a vida a espalhar-se
na mesa,
o equinócio quente, a ternura que derreta,

o porto a que chegámos, a falta de vontade de partir.

TRANSFORMAÇÃO

Capela
TRANSFORMAÇÃO  

O Porto tirou o chinelo,
o carrapito da cabeça,
o avental, a algibeira.
Ergueu-se frente ao espelho,
viu uma cara desmaiada,
a sua pele branquela,
pensou: não sou eu.
Tanta gente nas ruas,
os chefes colocando
no meio dos pratos
uma amostra gourmet,
e preciso provar
para adivinhar
o que ali foi posto.
A cidade é um sonho
crido pela economia,
um monstro de mil garras
nascidas do nada
põem em pantanas
a essência das gentes.
Não se fala de varanda a varanda
com a vizinha do lado.
Os hostéis e botecos
expulsam os moradores do bairro.
Ai terra velha alimentando sem seios
quem lhes chega de repelão

ao aconchego do seu colo.

MUDANÇAS ESTRANHAS


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MUDANÇAS ESTRANHAS  

O Verão incendeia
como se fosse lua cheia,
logo de manhã queima
reflectindo  nas ruas
miríades de luz.
As pálpebras fecham-se,
clemência, não é preciso mais.
De um ano para o outro
que mudança climática,
de golpe em golpe
avança a secura, o deserto.
Olha, os ramos mortos,
as flores que secam
sem brotarem,
os animais bebendo gotas
parando para se aguentarem.
Um calafrio pensando no futuro
a verdura uma recordação?
A trepadeira ressequida,

as ruínas da nossa incoerência.

FIM DE ESTAÇÃO

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FIM DE ESTAÇÃO  

De manhã bebido o café,
o que resta da estação
na tábua apinhada
de fatias de pão,
o mel caindo em fio
soltando a saliva na boca.
No cais os barcos atracados,
amarrados, balouçando
antes que os ventos os levem
em direcção ao  mar.
As mantas estão à mão,
o frio aperreia
os últimos dias de Verão.
Um ar com qualquer coisa
de sagrado, antigo,
um verso arranhando o violão,
histórias contadas ao entardecer,

louvando a vida ou o nada.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

PORTO AINDA



Carmen Santaya
PORTO AINDA  

A cidade pousada
nas gaivotas do Douro
revolteando ao redor
dos artefactos da ponte velha.
Os sentidos, literalmente
escorrendo com o gin tónico,
estando nós
sentados à mesa.
Dir-te-ão os turistas:
barulho,
achando piada a tudo,
fotografando na Sé
a velha Joaquina
a dobrar as cuecas
retiradas do estendal.
Tu no silêncio,
no teu tempo,
livrando-te
de maus pensamentos,
fazes um retrato a pastel
do gato vadio que passa.

SAÍDA EM CONJUNTO



 Carmen Santaya
SAÍDA EM CONJUNTO  

Numa saída à noite,
improvável,
pousaram umas mãos
nos teus ombros,
não era de prever
afectos por anunciar.
A bolha acomodou,
o coração bateu  com força,
o terreiro da festa
ficou mais iluminado.
Questionado o facto
não inventariado
difícil foi voltar a casa,
lutar para sobreviver,
sem lugares de abraços,
sem degustação de gin
com sumo de laranja
e ovos estrelados.

TALVEZ

Carmen Santaya
TALVEZ  

Um sinal encriptado
desenhado na parede,
uma rosa abotoada
no casaco de fazenda,
um provável beijo
enamorado
guardado na gaveta.
Uma porta de ferro
na entrada da casa,
a argila riscada
protegida nos muros
velhos, musguentos,
a madeira aberta
sem cheiro, nem idade.
O betume
no vidro partido,
o verbo
o príncipio de tudo.
As sílabas dos versos
escorrendo do papel,
o fim do dia
a tornar-se triste.

PORTUGUESES



 Carmen Santaya
PORTUGUESES  

Somos nós,
poucos,
neste país pequeno,
lutadores, tristes,
dados ao desânimo,
mas insistindo sempre.
com bravura
chegando à margem
depois de muito nadar.
Heróis não somos,
foi-se a reconquista,
foi-se a aventura no mar.
Somos o que somos
deixamos a certeza
pela incerteza noutros países,
de pé, firmes
enquanto varremos
as ruas de Paris.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

FALATÓRIO



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FALATÓRIO

Todos falam de tudo
comentam até
a pedra

que lhes caiu na cabeça.

SONS



 Carmen Santaya
SONS

Sentado no alpendre
ouço,
como ouvi ontem,
anteontem,
há muitos anos atrás,
o apito do comboio,
o marulhar do mar.
O silêncio é branco
procura sem sucesso
o relicário
guardando as lembranças
do passado,
os sons as visões,

os sonhos não realizados.

UMA VIZINHA CANTORA



 Carmen Santaya
UMA VIZINHA CANTORA

No prédio onde vivo
há uma vizinha cantora,
a sua voz ecoa
penetra portas, janelas,
senta-se à nossa mesa,
toma o café da manhã,
diz bom dia
e vai-se embora.
Ter assim uma voz
é quase indecoroso,
brincar com notas de música,
enviá-las em correio azul

tornar o dia aberto.

FOGO



 Neves e Sousa
FOGO

Quem  me empresta uma garganta
que grite perto do fogo
o incompreensível que é
enredar-se o Estado em relatórios
para guardar na gaveta.
Que aprendemos no ano transacto
e no outro e ainda no anterior ao outro.
Tiram conclusões
não concluindo nada,
o nada de não pretender
fazer coisa nenhuma.
Ainda há quem acredite,
angarie fundos
escorrendo em mãos
sedentas,
o povo que sofra.
Alguma vez
senhores governantes
se sentam com a consciência
tendo um clarão, uma visão,

o país não é Lisboa.

UM SEGUNDO ANTES DO FIM



 Neves e Sousa
UM SEGUNDO ANTES DO FIM

O que é estar assim
tão perto do fogo,
ver a existência do Inferno,
dar as mãos para morrer.
Não há tempo
quando a salvação não ouve
os nossos olhos a explodir.
Passa num ápice a vida,
as árvores, os animais,
a cão de guarda
que deixou de ladrar.
A labuta, a freima,
o administrar a difícil
pequena firma,
no interior do país,
tudo fica para trás.
Acabou-se, adeus,
os deuses há muito partiram,
sós, desanimados,

teimando ainda amar este país.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O AVÔ ANTÓNIO

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O AVÔ ANTÓNIO

O retrato do meu avô António,
numa moldura de madeira
feita pelo marceneiro do lugar,
foi amarelecendo.
Um dia,
sem que nada o fizesse prever
estalou o vidro
protector da fotografia.
Desfez-se o conjunto
em bocados no chão.
Acabou-se a sua presença
em cima da mesinha
da sala de estar.
Hoje é uma lembrança,
de pequena estatura,
pouco falador.
A cor dos olhos,
o rasgo dos lábios,
foi a sua herança,
os genes que  carregamos
até que a vida nos permita.
O som da sua viola,
as cantigas ao desafio
foram o rosário que desfiou,

nos embalou enquanto meninos.

O CÉU DEVE SER ASSIM



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O CÉU DEVE SER ASSIM

Da estrada atravessava-se,
a porta era larga aferrolhada,
entrava-se, a  eira espaçosa.
Numa mesa de pinho esbetonada
cortava, pesava e vendia
a broa de milho cozida pela manhã,
a avó Maria.
Ao fundo uma balança decimal,
um conjunto de pesos,
era preciso confirmar
os quilos de farinha
deixados pelo moleiro.
No canto esquerdo
as pipas de vinho americano,
fortalecido com ovos e toucinho.
Passado o salão
a cozinha à lavrador,
imponente, robusta,
perfilhava-se a masseira,
o forno, a lareira, o peal
Era eu uma menina assustadiça
de cinco anos apenas.
Ao fim do dia,
nesta casa fria,
acendia-se a lareira,
A avó numa panela de ferro
aquecia a água do banho
Metia-me numa bacia,
esfregava-me com um pequenino
odoroso, sabonete Patti.
Secava-me com um lençol de linho
passado na clareira do brasido.
O céu deve ser assim
uma avó dando banho à sua neta,
em água tépida,
aconchegando-a um lençol quente,

embalando-a até  que adormeça.