quarta-feira, 20 de setembro de 2017

ZARPAR

ZARPAR  

Quero a mala pequena
apenas uns trapos
protegendo do frio
resguardando do sol.
As memórias
as que couberem
Tem que acomodar
os meus cadernos
de poemas.
O resto, rostos esfumados
forrados a conveniência
ficam nas formas rectangulares

das portas que deixarei.

UM DIA DE OUTONO

UM DIA DE OUTONO  

Vai devagar pelo carril
lembrando como era diferente
antigamente
o cheiro a maresia
naquela praia de Espinho.
Um vento leve abanava
as plantas marinhas,
a gravilha deslizava
a cada passada
cortando os dedos dos pés.
Na cabeça há pouco vazia
vão caindo como gotas
palavras, mais palavras
da cor de cerejas esmagados.
Apetece, de repente
um chá quente,
uma bolacha de manteiga,
estaladiça.
O olhar fica mais vivo
desenhando o trilho
do carril até à praia.
Sorri não sabe para quem,
para todos e ninguém
passantes no caminho.
Incendeie-se o ar
laranja sanguínio
num por do sol irreal,
solta-se o desejo selvagem
de ir na onda
até outras paragens,

procurar novo destino.

PINTOR

PINTOR  

Voltarei a pintar a Ribeira
o formigueiro humano que a fotografa,
o rio sereno que não dá por nada,
o barco rabelo apinhado de povo
descobrindo encantado a cidade,
Abrirei as cores,
não gosto da negrura nas casas,
nem no vestir das tripeiras.
Haverá um porto seco
numa mesa de ferro forjado,
uma barman escorreita
enchendo o copo selecionado.
Os pincéis bordarão as margens
de gaivotas esfomeadas,
as migalhas caindo livremeste
saciando a fome da aves.
Não há lugar a voltar atrás
darei o meu nome
a uma pintura palpável
a serenidade do pôr do sol na Foz,
a crianças comendo devagar
o gelado de morango,
a rapariga gira esquecida de tudo

enquanto olha o namorado.

A EUROPA NA ENCRUZILHADA

A EUROPA NA ENCRUZILHADA  

Nada disto faz sentido
a Europa criada unida
desfazendo-se
 em banho-maria.
Os europeístas desassossegados
visionam tempos difíceis
por não cumprirem o ajustado.
Os partidos socialistas
governam à direita,
perderam a identidade
pagam nas urnas
o cheiro a extinção.
O povo cansado, pensa
algo diferente fará a diferença,
corre em direcção contrária
quer novidade, sinceridade.
Os políticos e as politiquices
ensaiam encenações
para os manter no poder,
querem-nos cegos, ensonados
continuando a caminhada
no caminho por si traçado.
Um dia, um dia certamente
seremos nós a traçar o camilho

querido por nós para trilhar.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O FIM

O FIM  

No fim pouco resta.
Estamos, mortos antes de o sermos.
Não somos nós,
somos o que terceiros
querem que sejamos.
Até Deus se ausenta:
aguenta até ao sinal da partida…
Entretanto, arredamos a morte
da cabeça,
vamos tocando a terra com os pés,
a humidade entranha-se na pele,
renascemos.
Quão generosa é esta essência,
os ossos enrijecem,
sabe melhor a marmelada,
os sucos de cereja
escorregam entre os dedos
como sangue caindo no deserto.
Os bichos devoram os restos,
nada se perde,
o céu confunde-se com a terra,
refrescam-se as memórias,
os trovões provocam as nuvens,
há ameça de chuva  

tudo reverdece.

ANUNCIANDO O OUTONO

ANUNCIANDO O OUTONO  

Tocam-se os lábios
ao de leve,
as árvores  baixam a sombra,
protegem e envolvem.
Rodopiam as folhas dos plátanos,
Acende-se a fogueira.
Um pincho de verdelho sobre a mesa.
Tomates esmagados
em pão negro de centeio.
Tocam os adufes,
velhas memórias enrolam-se
na neblina cerrada.
Um friozinho perpassa a espinha,
em breve as leiras são restolho,
a Teresinha frente ao espelho

conta a vigésima terceira ruga.

LENGA LENGA

LENGA LENGA  

A riqueza de uns
a pobreza de muitos,
a fartura de uns,
a  fome de outros,
a liberdade de alguns
o jugo de tantos
Puchar os cordelinhos
dos escaninhos da História,
tornar o mundo

um lugar para todos.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

INSÓNIA

INSÓNIA  

Caídas as portadas
das janelas da noite,
sossegados os ventos do leste,
assanhados,
nascem as insónias,
o sono é uma falácia.
Sonhos acordados
ajudam o tempo a passar.
Nada-se em mares
encapelados,
os lábios roxos
vão de encontro a peixes desnorteados,
percursos sombrios
ajustam-se à realidade.
Agarrada à ré do barco
inicio a viagem,
as mãos feridas largam-se,
a neblina cega,
o sal enrola-se na língua.
Fico no molhe
sem louvar a partida,
Ah mente fugidia,
arranhando o corpo,

olhando o horizonte distante.

SAUDADES

SAUDADES  

Não te vejo
sentada nessa cadeira
esquecida no jardim.
Tenho saudades
das sestas dormidas
no decadente cadeirão,
lado a lado.
esquecendo tudo,
o que estava fora do muro.
Era bom o equilíbrio,
a natureza esplendorosa
rompendo a terra
escura, húmida.
Estranho, não te ver,
ainda ontem, juro,
estavas lá,
esperando o chá
com rodelas de limão.
Vida multiplicação de factos,
sendo nós adultos,
sofremos as consequências.
O resto particularidades,
o soa aquecendo pouco,
a dureza da existência,
a caminhada tidos os dias

no passadiço cercando o Douro.

PASSOS NO DIA

PASSOS NO DIA     

À noite, devagar, com tempo,
recolhidos os passos árduos
de um dia desgastante,
o vento sabe a mar,
os pinheiros oferecem frutos.
Os bichos gemem adormecendo,
recolhem-se os últimos cestos
de neblina,
fecham-se as portadas da alma,
come-se percebes frescos
apanhados nas pedras do molhe da praia.
Cada sílaba proferida
é assente no livro do dia
sem stress, sem amargor.
Fervilham no cérebro memórias,
Apaga-se a luz rasante,
a pele arrepia-se,
aos olhos resta esperar a maré cheia
frapeando a porta da entrada

na madrugada ainda por acontecer.

PARTILHA

PARTILHA 

Partilham-se os poemas
como na igreja se partilha o pão
na hora da comunhão.
Deixa-se o azedume vir à tona,
o vinho jorrar  nos copos,
o amor explodir no olhar,
planar  perante o prazer
de dar, de comungar.
Ouçamos os outros
não queiramos o troféu do verbo
só para nós.
Deixe-se o caminho
tomar todas as direcções.
Fechados outros sentidos,
cegos, mudos, sem cheiros
ou sabores
que a palavra seja o divino,
o sagrado, o barco pronto a navegar.
O banquete prometido,
o livro riscado,
resposta a dilemas antigos,
o verde do mar límpido,

após uma tempestade de lírios.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

DIA DE VERÃO

Collado

DIA DE VERÃO  

O sol queima, lambe os braços,
a cara, o nariz, um chapéu largo
afugenta o calor dos raios, debaixo
das árvores espera-se a merenda
que tarda.
Do armário da cozinha a avó retira
os cestos de palha, embrulha o pão
de mistura, a compota de laranja,
o mel de urze, o queijo fresco,
os figos pingo de mel, a limonada fresca,
sacia  a fome, a sede dos seus meninos
dependendo dela.
Faz o que fizeram as mulheres desde sempre,
dá o pão, o apoio, as mãos.
Os deuses estão por ali invejando a avó,
espreitando a medo a vida a espalhar-se
na mesa,
o equinócio quente, a ternura que derreta,

o porto a que chegámos, a falta de vontade de partir.

TRANSFORMAÇÃO

Capela
TRANSFORMAÇÃO  

O Porto tirou o chinelo,
o carrapito da cabeça,
o avental, a algibeira.
Ergueu-se frente ao espelho,
viu uma cara desmaiada,
a sua pele branquela,
pensou: não sou eu.
Tanta gente nas ruas,
os chefes colocando
no meio dos pratos
uma amostra gourmet,
e preciso provar
para adivinhar
o que ali foi posto.
A cidade é um sonho
crido pela economia,
um monstro de mil garras
nascidas do nada
põem em pantanas
a essência das gentes.
Não se fala de varanda a varanda
com a vizinha do lado.
Os hostéis e botecos
expulsam os moradores do bairro.
Ai terra velha alimentando sem seios
quem lhes chega de repelão

ao aconchego do seu colo.

MUDANÇAS ESTRANHAS


Collado
MUDANÇAS ESTRANHAS  

O Verão incendeia
como se fosse lua cheia,
logo de manhã queima
reflectindo  nas ruas
miríades de luz.
As pálpebras fecham-se,
clemência, não é preciso mais.
De um ano para o outro
que mudança climática,
de golpe em golpe
avança a secura, o deserto.
Olha, os ramos mortos,
as flores que secam
sem brotarem,
os animais bebendo gotas
parando para se aguentarem.
Um calafrio pensando no futuro
a verdura uma recordação?
A trepadeira ressequida,

as ruínas da nossa incoerência.

FIM DE ESTAÇÃO

Collado
FIM DE ESTAÇÃO  

De manhã bebido o café,
o que resta da estação
na tábua apinhada
de fatias de pão,
o mel caindo em fio
soltando a saliva na boca.
No cais os barcos atracados,
amarrados, balouçando
antes que os ventos os levem
em direcção ao  mar.
As mantas estão à mão,
o frio aperreia
os últimos dias de Verão.
Um ar com qualquer coisa
de sagrado, antigo,
um verso arranhando o violão,
histórias contadas ao entardecer,

louvando a vida ou o nada.