quarta-feira, 4 de março de 2020


JOGAR COM AS PALAVRAS 7

Como se chama
a quem cegou o meu coração
e lhe deixou
uns óculos escuros dependurados?



DIA 3 DE MARÇO

Ulmeiros
vergastados pela chuva,
o dia de granito.
O tempo agastado,
escondido no escuro
das coberturas das entradas.
Os sinos da igreja
rompendo a aurora,
triste mês de Março
de pessoas fugidas
da peste e da vida.
Os músicos meio perdidos
dedilham a viola na esquina,
o moço loiro
dá o olhar azul
à moça do seu lado.
Juntam-se as mãos
para sorver o café negro, doce,
o nevoeiro é cerrado.
Uma gaivota pousa
na ponta da mesa,
dá uma bicada
no croissant dourado.
Ah, boca de espanto
querendo pérolas rebolando,
quando vem a Primavera,
eu estou esperando.


DOURO

De repente,
a correnteza do rio parou,
o olhar sôfrego
sorveu a paisagem mágica,
a máquina fotográfica
captou o momento ,
todos estávamos felizes .
Na subida lenta
a caminho da Régua,
busca-se a leveza,
o esquecimento das mágoas.
A surpresa,
é oferecido um cálice de uvas,
apanhadas no Outono,
pisadas por pés bravos,
escorregando quentes,
fazendo o dia acontecer.
Demorámos a empacotar
a viagem,
a catalogá-la,
bom, bom, foi fazê-la.
Um flash, um arrepio,
o odor do rio,
que galgando as margens
cai no meu regaço flanqueado.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

ROMÃ

Helena Canotilho
ROMÃ
O menino abriu a romã
batendo-lhe com
uma colher de pau.
Não lhe queria
comer os bagos,
queria só e apenas contá-los,
fazer deles um colar
oferenda à sua mãe
que fazia anos.

COISAS DO TEMPO

Tomas Santis

COISAS DO TEMPO  

A fogueira crepita
nesta longa noite de Inverno.
A chuva cai violenta
no tejadilho dos carros
na rua alinhados.
A criança pergunta
porque chove tanto?
Para que serve tanta água?
Os homens pouco sabem,
de sábios nada têm
deixam a água escorrer para o mar
e depois queixam-se da seca.

BOM DIA

Carlos Dugos
BOM DIA

Ao acordar
belas são as pombas
pousadas nos ulmeiros,
as gatas da vizinha
dormindo no alpendre,
o Sr. Zé carteiro 
tomando o pequeno almoço
no café da esquina.
Eu penteando-me
frente ao velho espelho
a claridade de sol
tornando luminoso o dia.
O caderno passado
na mesa da sala,
o poema que pede para nascer.
Linda manhã
atapetando a rua
de mil bugambilias,
bom dia senhor jardineiro
cortando a relva da casa ao lado.
Lindos os homens e mulheres
correndo em direcção ao trabalho,
o azul dos liretes
dançando ao sabor do vento .
A gente da casa tomando
a chuveirada apressada,
a janela fosca
de pó e nevoeiro
rasgando-se para o sol entrar.
Lindo o café que cai
ruidosamente na chávena,
as migalhas sacudidas
da varanda da mansarda.
Hoje acordei assim,

bom dia .

INFÂNCIA


Anabela Mendes da Silva
INFÂNCIA  

Na árvore do quintal
os pêssegos dependurados,
dourados e perfeitos
na proporção exacta
das nossas bocas esfomeadas .
O pardal esvoaçou
e baloiçou noutro ramo,
doutra árvore do quintal,
uma macieira.
Nem sei que sentimentos
eram aqueles,
naquela infância despreocupada,
a imensidão dos quintais,
a liberdade total,
o tempo ilimitado.
tanto ruído: dos bichos,
do cantarolar das lavradeiras,
do chiar dos carros de bois,
tanto silêncio
para extravasar o pensamento
para lá dos pinheiros altos
dos montes circundantes.
O sol a pino,
o suor que escorria,
a leve beleza
do dia simplesmente a acontecer.

A MINHA COMUNHÃO SOLENE

Orlando Falcão

A MINHA COMUNHÃO SOLENE  

Afirmo com todas as letras
que o meu avó chorou
quando eu de bordado inglês
vestida, pequena, inocente,
participei na procissão 
da Festa do Corpo de Deus,
que agregava a nossa Comunhão
Solene.
Abriu-me a mão
em gesto desajeitado
e meteu-me na palma aberta
uma nota de vinte escudos,
vinte vezes dobrada:
não gastes mal gasto,
disse-o numa voz tremida
pela comoção do momento.
Eu chorei depois
nunca havia recebido
tão generosa oferta.
A festança o normal:
a canja fumegante,
o galarote assado,
o pudim francês
feito a preceito pela minha avó
É possível descrever com exactidão
cada segundo, cada minuto
do meu contentamento interior .
Os sentimentos guardo-os no coração
embrulhados na nota
que me deu o meu avó.
Por fim, o retrato,
entre o meu pai e a minha mãe,
em pose convencional
para pendurar na sala
como recordação

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

VIDA 3

Carlos Almeida

VIDA 3

O sol declina no mar
hoje agitado e rude
apontando um horizonte
sem fim nem princípio.
Os barcos vão nas ondas
sem norte e sem regresso.
Um casalinho agastado
apenas com o vento
agarra-se ao murete
beija-se apaixonadamente.
A areia bate forte
nas pernas musculadas
de um pescador furtivo.
O laranja do sol
é mais brilho
nos olhos da pequenada
regressando do infantário.
Ai momentos vividos
na praia da minha infância:
Espinho.
Os picolés de baunilha
escorrendo nas caras
de espanto esbugalhadas.
Os pregões das varinas
vendendo camarão da costa
em canastrinhas encantadas.
O coração batendo apressado
soltando os sonhos
de um amanhã demorado.

VIDA 2

Mary Carmen Calviño

VIDA 2

Enquanto alguém
destila ódio
porque é ódio,
eu olho a natureza
e digo: é belo o que vejo.

VIDA 1

Carlos Dugos
VIDA 1

Ergo-me
é o que me assiste
enquanto me restar o fôlego.
O espaço que separa
a cozinha da cama é pequeno.
É preciso o café
de subtil aroma
e as torradas
de azeite do Doiro.
A noite foi calma
sem pesadelos,
sossega o corpo
para o novo dia
que se avizinhava.
Escolho palavra a palavra
para o poema a fazer,
o poema com que
me levanto.
Bom dia vida,
bom dia a mim
que respiro
apesar das notícias
dos jornais.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

DESPERTAR


Gilberto Lopes
DESPERTAR   

O desenho da luz
do nascer do dia
marcou as janelas
da sala de jantar.
Iluminou-se toda
como se estivessemos
numa cidade sem noite:
Paris .
O sol marcava
o romper da aurora,
a jornada que começava.
Cada um escapuliu-se
para o trabalho
que lhe era destinado:
estudar ou labutar,
a mãe dizia: é preciso trabalhar.
De repente o céu
Pintou-se de nuvens,
borrasca anunciada ?
o vento frio incomodava,
procuram-se agasalhos.
Cuidado com as correntes de ar,
pedia a minha avó velhinha.
Depois voltava o silêncio
àquela casa,
cortado pelo cantar do galo
e pelo gato que miava.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020







INVERNO 

No Inverno
o nevoeiro tapa os olhos,
o vento desmancha os cabelos,
deixando-nos agastados .
As árvores despidas, sem folhas,
apodrecidas em cima dos lajedos.
Os guarda-chuvas atrapalham
a chuva miudinha e certa
penetrando até à medula
nas ruas meio desertas.
Os meninos da escola
passam agitados
para ver uma peça infantil
no teatro Rivoli
A natureza atira-nos
os elementos funestos
vá lá aguentá-los
são da época .


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020


POEMA

Quem sabe se
esse teu rosto rosado,
os dedos magros e compridos
serão maçãs descascando-se
para a tarte do lanche ao fim da tarde.
A ânsia de ir é enorme
para um lugar qualquer
longe daqui e de todos
os anisados, nem carne , nem peixe,
um atraso.
Os dentes mastigam devagar
a fatia de tarte perfeita,
nós rimo-nos
como consequência natural
do contentamento por algo doce .
Bebamos o chá amornado,
crianças nos tornámos
enrolando-nos num colo
de mãe presente .
Fugidio o momento,
nós limpos de sarnas
não somos uns quaisquer
sentados numa sala imensa,
somos o ultimo raio de sol
aquecendo os corpos frios.

DEUS

Deus  é o capital seguro
quando não temos mais nada,
 recorremos a ele na esperança
que apareça e nos dê um abraço.
Somos seus companheiros
desabindos,
bocadinhos de átomos
girando à volta do Sol maior,
ouve-nos quase sempre
sem nunca apontar o dedo.

POESIA

Pela poesia
é que vamos
deixando nos poema
as nossas mágoas.

MENINICE

Já tive oito anos,
andava aí pela terceira classe
com a D. Alice à perna,
aguentando as reguadas.
Gorduchinha com ondulado
de permanente ,a quente,
não sei como aguentava
a miséria escrita nos corpos
e no olhar dos seus alunos .
Pegava-se a falta de tudo
à sala fria e triste,
sem recursos, sem flores.
Pequenos éramos e tão maduros
dividindo pelos outros
a pouco merenda que levávamos.
No recreio infantis e crus
empurrando os demais
em lutas desastradas.
A diferença entre nós é que
uns tinham sapatos,
a maioria socos, alguns
os pés descalços e frieiras
sobre o lajedo frio
da velha e cinza escola.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020


SENHORES DO MUNDO

Eles teimam
em fazer a guerra,
sempre a mesma
mudadas as circunstâncias
geo-estratégicas
e ou economicistas.
Jogam as vidas
em tabuleiros de xadrez
de madre-pérola sangrenta,
guardados em gabinetes
sombrios e dourados.
Quem morre               
são sempre os soldados
levados pela mão
de uma grei desnorteada
até ao sacrifício
em altar humilhante.
E os civis apanhados
num espanto desesperado,
pássaros feridos
em lume de fogos cruzados.

DIZER

Digo Domingo
que é a seguir ao sábado.
Digo mil-folhas,
fofo de claras
desfazendo-se na boca.
Digo cidade renovando-se
estrafalhando os velhos
moradores
expulsos de suas casas.
Digo ruas da baixa
desalinhadas, sujas,
postos no prego os pregões,
as canastras das varinas
sem voz e desempregadas .
Digo senis os Edis
virando caras aos seus
a troco de alguns Euros.
Digo cidade minha
tão próxima e tão vazia.

PENSAR

Os pensamentos são cerejas
quanto mais pensámos
mais o pote herdado
da sabedoria da minha avó,
enche.
Questiono-os,
levo à boca
um cálice de um Porto velho,
o que combina melhor
com cerejas e pensamentos?
Pensar é fazer sair sentimentos,
desejos, abstrações,
não sendo necessário catalogá-los,
ordená-los, colocá-los em papel .
Pensa-se e pronto.
Jogo de palavras e alma
satisfazem per si.
Olho o dia longo, chuvoso,
cinza e um pouco triste.
Não vislumbro a anunciada Glória
com ventos a arrastar tudo
contra todas as vontades.
O que provoca esta depressão
e a humana?
Outros pensarão por nós
e encontrarão a solução.
Pensar faz avançar.