terça-feira, 22 de outubro de 2019

FOLHA A4


FOLHA A4  

A mão desliza
pela folha A4.
Acomodam-se os dedos
à caneta,
a linguagem à escrita.
Fervilha a cabeça
na ânsia do encontro,
marcarei no poema,
um fim de tarde seco,
uma sangria,
uma tarte de gengibre,
e, presunto de Parma.
O bar é discreto
sobre a praia.
Depois, logo se verá,
se o dia se torna claro
ou igual a todos os outros
de porta aberta
a uma agitada semana.

INDO AO PASSADO



INDO AO PASSADO  

Aberta uma brecha nas memórias
a alma cobre-se com uma manta
de mar calmo.
Ah a preparação para a primeira
comunhão, em casa de Mestra
escolhida pelo vigário da freguesia,
a hóstia que não podia ser mastigada,
a vela branca na mão.
A procissão do Corpo de Deus
com o pálio a cobrir o  Senhor Exposto,
as beatas atrás, de véu na cabeça
rezando o terço por mor dos seus
pecados, actuais e vindouros
A velha escola primária
na casa da D. Virgínia,
onde a professora primária
nova e deslocada, ensinava
os rios e caminhos de ferro
à chapada.
Que cruel era a matança do porco,
os grunhidos do pobre animal
toda a santa semana
castigavam as cabeças da criançada.
As primeiras saias mini
nos corpos roliços das moçoilas,
credo em cruz, a escandaleira.
Meninas de famílias consideradas
querem agora ser rameiras.
As mulheres acomodadas
à vida de servidão,
limpam o ranho do nariz ao pimpolho,
descansam as pernas fatigadas.
À noite pela janela aberta
entram os odores das flores do jardim,
sentada na cama entre almofadas
abro o caderno de linhas
e registo as memórias num poema.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

OUTONO


OUTONO

Outono, no Porto granítico,
o céu enevoado e cinza,
dia sim, dia não.
Os turistas aos magotes
em grupos enfileirados
guiados por rapazes e raparigas
alguns até cantam o fado.
As mulheres entram apressadas
em ourivesarias antigas
e compram jóias em filigrana.
Uns param nas calçadas
e tentam interpretar
os desenhos calcetados.
À tarde quentura,
à noite sopra um vento do rio,
põem as damas uma echarpe
antes do jantar na esplanada.
O Porto empurrado
por estes pilares inesperados
fica lavado graças a eles.

A SALA DA AVÓ OLINDA


A SALA DA AVÓ OLINDA

A sala de jantar
era cheia de gavetas:
a mesa gigante,
(a família era enorme)
tinha 4 gavetas
nas laterais,
encontravam-se sempre
algumas fotografias
de três gerações,
em poses estudadas,
os cabelos delambidos,
os sapatos lustrosos.
A cómoda de castanho,
repleta de gavetas
onde se guardavam as roupas,
as gravatas, as meias
de seda das tias,
os xailes de merino,
os lenços bordados a ponto cheio.
Por cima o oratório
com o medonho senhor dos Passos
de roxo e rosto sofrido.
Nas paredes pequenas prateleiras
com pequenas gavetas,
onde se colocavam as medalhas
ganhas em competições da Tuna.
A arca de Noé, cheia como um ovo,
era um repositório
de roupas de cama,
vinho do Porto ofertado
e guardado a sete chaves,
documentos, facturas
cartas e muitos postais.
Nós, os da nova geração,
perspicazes e à frente
deste pensamento corriqueiro
e provinciano,
saído da Morgadinha dos Canaviais,
porém gostávamos
da mesa cheia de gente,
das travessas cheias de comida,
das palavras gritadas,
das gargalhadas, do calor.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

POEMA



POEMA 1

Cada casa suas histórias
penduradas nas memórias.
Fechadas com a morte
continuam vivas
enquanto duram os que
a habitaram.
Depois ficam os fantasmas
a espreitar as novas vidas
e felizes se forem
melhores que as suas.

POEMA 2

Subo a escadaria,
cansada,
antes de entrar em casa.
Até quando?
Nada me impede,
nem gente, nem bicho.
Construída num alto
permite um melhor respirar.
Apenas isso,
pois o resto é solidão.

POEMA 3

Queria a Lua
e não  gente a caminhar
em vez de pensar,
um poema contigo dentro
e uma cadeira para descansar.

POEMA 4

Uma constatação:
apesar de tudo
a vida é bela,
vale muito a pena,
alguém precisa de mim.

POEMA 5

Inédito:
um triste americano,
alto e robusto como
um carvalho do Norte,
sentado a uma mesa,
come uma francesinha
bebendo leite.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

PENSANDO



PENSANDO  

Paremos entre o muro a viela
stop
que o som da rádio
é maior que o do cantor de rua.
Meçamos até onde vai
o nosso querer
de água gaseificada de Marte,
fresca, com rodela de maçã.
Pensámos alcançar a lua,
bastou-nos o luar brilhante
a entrar pela janela
da mansarda opaca.
Sem contar, hoje,
a floreira da esquina
acordou com dúzias de tulipas
de todas as cores do arco-íris.
Ai amor vertiginoso
que suga até o olhar
e cai sem pensar
no boeiro da rua.
Dormes e eu sustenho a respiração
não quero acordar-te os sonhos,
nem que tenhas pesadelos.
Ah mar no horizonte do olhar,
liquido e majestoso,
enchendo de bruma, a praia,
embalando os fins de tarde
enquanto se toma um café
na esplanada de sempre.

HUMANOS



HUMANOS  

Os que opinam e os silenciosos,
os que criticam e os de boca fechada,
os que se acham os melhores,
os que desprezam oportunidades,
os casados e os solteiros,
os que vivem a vida e os sentados,
os escorreitos e os aleijados,
os portugueses e os indianos,
todos querem colo e ser embalados.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

ADEUS VERÃO


ADEUS VERÃO

Dia de verão atípico,
a chuva cai de mansinho
levando à cidade
a antiga e habitual cor de fumo.
O vizinho põe-se à janela
passará hoje o carrinho
do assador de castanhas?
Nada de relevante acontece,
na cozinha mexe-se o leite creme,
os miúdos do 3º Esquerdo
apanham o dia com a bola
autografada por Ronaldo.
Está frio, fiz um café
que tomei sentada
enquanto via uma trapalhada
passando na aparvalhada televisão.

PORTO



PORTO

Palavras de granito rosa
ditas em tom berrado,
os carros em velocidade
percorrendo a cidade com gente,
os moços imberbes
lançando piropos às moças
tontas como eles, é da idade.
O calceteiro de cócoras
conserta uma rua principal,
é o Tino de Rãs
e ninguém dá por nada.
As casas de estrutura igual
com varandas de ferro forjado,
clarabóias coloridas,
jóias lindas no Porto
que eu amo.
Algumas solidões
encolhidas nas mesas
dos cafés históricos,
hoje só para turistas.
O livro escancarado,
penso porque leio,
sou  uma pensadora
sem salário.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

POESIA

Collado
POESIA   

Poesia é um rio
límpido ou opaco
programado na cabeça
e nascendo em folha
de qualquer textura.
Poesia uma saudade fria,
um dia sem brilho,
um raio de sol
brincando no ladrilho
na hora do café.
Um ramo de florista,
o namorado embebecido,
a mentira piedosa,
o rascunho perdido
em palavras banais.
A brancura da asa do cisne
desmaiando no lago mágico,
a lua caindo devagar
no telhado desbotado
num dia de Primavera.
O amor espalhando-se
em dedos de conversa  frouxa,
a vontade de viver agarrados
a um mundo assustador.

EXISTIR

Collado
EXISTIR 

Existimos
por sobre símbolos
inventados por outros.
Os olhos vazios
cravados na alma,
prestámos homenagens
a nadas.
As manhãs acordam-nos
no nevoeiro pintado
das janelas fechadas.
O lume desagua
na água fria,
extingue-se, as mãos ficam frias,
o caminho escurece,
é difícil o regresso a casa.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

RODANDO


Collado
RODANDO  

O passado lá atrás
pendurado no alpendre
em bengaleiro enferrujado.
Os passos perdem-se
a procurá-lo,
as lembranças entrelaçam-se
em fios embaraçados.
A teima de factos é só teima,
a colecção de espanta-espíritos
alinhados,
fazendo barulhos contra o vento.
Os dias capazes deslizaram
num caderno quadriculado
longe dos guardiões do templo
sem ser em ombros levados.
As profecias não se concretizaram,
os filmes do Chaplin passavam
no ecrã gasto
do salão paroquial.
Adultos e crianças riam-se,
os galãs, filhos da vizinha,
muito perfumados,
apressavam-se a caminho do ginásio.
A filosofia presente
penso logo existo.

VERÃO 2019


Collado
VERÃO 2019 

Os braços incompletos
faltam-lhes as asas,
erguem-se em prece
ou desespero,
mas não voam.
O céu plumbeo,
cinzas móveis,
incêndios pecaminosos,
falta de medidas atempadas,
palavras gastas,
onde estão as soluções?
Vivem felizes
comem, bebem, fazem amor,
não se redimem
não querem um mundo melhor.
Ai verde que te foste e não voltas não.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

FIM DE TARDE

Collado
FIM DE TARDE

Fim de tarde, pôr do sol,
sentados sob os ramos fortes
do castanheiro,
expomos palavras
e sentimos ser o lugar certo
para ouvir os pássaros.
O ventinho Norte sopra forte
acrescentámos à alma
o calor dos corpos.
Conjugámos o verbo ser
no explendor da natureza
e adormecemos cansados
com a lua a bater de frente.

CONSTRUTOR DE BARCOS

Collado
CONSTRUTOR DE BARCOS

Madeira aplainada,
movimentos medidos
e a tábua sai dobrada.
As mãos derrapam
sempre que aplica a tábua,
tanto que fazer,
ainda não se vê o barco,
as estrelas iluminando o céu
cansado.
Desce o mestre
ao porão da barcaça
e grava a canivete
o nome do barco.
Venham as ondas, as marés,
os relógios solares, as ampulhetas,
vive-se esta noite com as ninfas
em sonhos arrebatados.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

AMIGOS

José Gonzaléz Collado
AMIGOS

Algum dia fomos amigos,
conhecidos talvez
e de laços meios forçados?
Entretanto perdemos anos
a acompanhar o mesmo percurso,
que desperdício!
Pensando bem
em cada encontro
e tardes sentados
havia uma faca pendurada
pronta a cair nas nossas costas.

RETRATO

Domingos da Silva

RETRATO

Um cidadão comum,
fez a instrução primária,
o secundário,
por falta de dinheiro
abandonou os estudos
e tornou-se operário fabril.
Levantava-se às seis da manhã
impreterivelmente,
lancheira ao ombro,
caldo de feijão,
sande de mortadela,
bicicleta na mão,
Ás oito tmg
picava o ponto iniciando a função:
supervisionar uma fila de máquinas
de fiar.
Fazia muito, um trabalho repetitivo,
aborrecido,
ganhava tão pouco.
E assim se passaram os anos,
gastou-se a vida
na engrenagem brutal
do enrequicimento do capital.
Sentado no banco do quintal
às vezes questiona-se
porque não reagi
e tomei outro rumo de vida.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

BUGAMBILIA

António Sampaio

BUGAMBILIA  

O caminho pejado
de flores de bugambilia,
os pés esmagam-nas,
levanta-se um odor
a seiva libertada.
Cresceu, cresceu o arbusto,
tomou conta da parede
e plantou-se a seguir
nas nossas memórias.
Cravada a um canto do jardim
virado ao sol,
exige apenas água.
Quem o plantou foi-se,
talvez por falta de cuidados,
a bugambilia apagou-se,
a labareda vermelha
inundando a parede sul
da gasta casa
foi-se a seguir.
Já não há flores,
nem caminho atapetado
só a triste certeza
que tudo se acaba.