terça-feira, 23 de maio de 2017

SONHOS

SONHOS

Sonhos, jogos
a esconder-nos
a realidade.
Perdidos, achados,
tecidos, adiados,
enquanto houver vontade
nada se perde
tudo se alcança.
Sonhos,
casa de bonecas,
luz coada, o odor
a rosas machucadas.
Sonhos,
sono a hora errada,
a cabeça rodando,
a luz a nascer
por entre a liberdade.
Sonhos
a vida mostrando-se
sob a verdade.
Mais dia menos dia,
juro,
dar-te-ei à sobremesa

um sonho com açúcar e canela.

ESQUECER

ESQUECER

Esquece o tempo,
esquece as lembranças,
esquece o lamento,
esquece o ferrete
enterrado na alma.
Esquece a ausência,
esquece o medo,
esquece o degredo
a que te votaram.
Esquece a sala,
o espelho grande
que te ajudava
a embonecar-te.
Esquece a partida,
o fim da linha,
vai noutra direcção,
faz acontecer de novo.
Desdobra os braços,
volta a lutar,
sai da encruzilhada,

não é o teu lugar.

REBOBINAR

REBOBINAR

Tudo volta ao princípio
tu e eu,
dentro de nós, o quê?
Que fizemos
amodaçados, atados?
Regressam as dúvidas,
a vida não dá descanso.
O coração vibrando
ainda bate
procurando em cada caco

o sentido de tudo.

ESTAÇÃO DE S. BENTO

ESTAÇÃO DE S. BENTO

A estrela cadente
deslizante, fremente,
quase, quase acosta
no meu colo.
Brilha na noite
a noite mais noite
à noite
no vazio do cais de embarque
depois da última partida.
O cenário é o costumeiro
um comboio que chega,
outro que parte,
o jornal esquecido
no banco da frente.
Alguém de olhar perdido,
encontros e desencontros
não ficando para a história,
Uma lágrima deslizante
num rosto sem brilho,
um beijo sentido,
a vida tomando o seu rumo.

terça-feira, 16 de maio de 2017

CHEGAR

 Collado
CHEGAR

A noite é o chegar
a qualquer coisa
a que se chama lar.
Um lugar sem trovoadas,
os relâmpagos riscam
para lá da janela larga
da sala de jantar.
Presente sempre
a música clássica
transportando a alma
a outros patamares.
Recomeça-se o jantar:
uma mera brochetta
de rúcula e presunto de Parma,
salpicada de azeite
e flor de sal.
Não me lembro de nada
mais reconfortante
a não ser um copo

de vinho branco gelado.

FOTÓGRAFO DE GUERRA



  Collado
FOTÓGRAFO DE GUERRA

Tu que no escaldante
rebentar de bombas
fotografaste os olhos
da morte,
o trio da destruição
metralhadora, mísseis,
snipers,
o catraio a deambular
só com um sapato,
ao encontro
do que já não existe,
o silêncio da dor restante
depois de todos os sonhos
se escaparem,
o vazio parido
nos escombros
dos prédios caídos.
No fim do dia,
no momento exacto
em que o sol cai no horizonte,
és capaz ainda
de tirar do teu velho violão
enlacrimado
uma canção ou fado
lembrando

que amanhã é um novo dia.

PRIMAVERA



  Collado
PRIMAVERA

Primavera
quem me dera,
lágrimas grossas
de chuva intensa
escorrem na janela
contraída pelo frio.
Um cinzento metálico
instala-se no céu,
voraz o vento
empurrando as nuvens
desabando em água.
Nem sinal de sol,
de pátios plenos de vozearia

à volta de tábuas de queijo e mel.

DOURO



 foto AC
DOURO

O rio correndo
sempre no mesmo leito,
águas revoltas sem parar,
a caminho da foz,
entrando no mar.
As margens comprimem-no
até ao Inverno
que o faz galgar muros e pontões
Invade a velhinha Miragaia
antigo poiso
de bêbados e pescadores.
Na infinitude da água
perco-me no meu finito,
quero chegar a qualquer lugar,
o tempo é pouco,
é preciso fazer a coisa certa.
Cismando,
agarrada às margens,
à cidade telúrica
de burgueses e poetas.
antes de partir num navio
em redor do mundo

para me conquistar de novo.

PENSAMENTO



 Collado
PENSAMENTO

Ausente de mim
que importa a tua sombra

na soleira da porta dos outros. 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

TUDO COMEÇOU ASSIM



 Carlos Antunes
TUDO COMEÇOU ASSIM

Exíguo era o assento
no parque central da cidade,
não cabiam dois
ou caberiam,
com algum encolhimento.
Sentamo-nos,
um pouco apertados,
arreda para lá,
chega para aqui,
o desconforto criou conversa.
Passou a hora, passou a pressa,
passou o incómodo,
passou o comboio
que nos levava até casa.
Nasceu empatia,
nasceu magia,
nasceu outra coisa
mais enevoada
dissipando-se à medida
que a manhã nascia.
Trocaram-se os números
dos telemóveis,
prometeram-se
novos encontros
em lugares maiores,
com mais amplitude
para novos sentimentos

que de intensos não caberiam

1 º DE MAIO - PANFLETO



 Octavi Intente

1 º DE MAIO - PANFLETO

Mais um dia comemorado
no poder já morno das palavras,
que significa dia do trabalhador
sem trabalho, que significa trabalhar
em economias neo-liberais
cuja meta é ter cada vez mais
na mão de uma minoria possidente.
Ah europeus molengos
passeando as armas e os cantis
nos abandonados jardins
de cada cidade adormecida.
Temam os novos guardiões
mandando cães arreganhados
morder a liberdade.
Afinal o que queremos
migalhas de sobrevivência
ou ter de novo lugar
na mesa da distribuição

da riqueza crida por todos nós?

PRIMEIRO CAFÉ



 Dunieski Garcia
PRIMEIRO CAFÉ

O aroma do café
de manhã cedo,
ascende ao olfato.
Apercebo-me
 automaticamente
do acto de sentar,
ler o jornal,
pegar na chávena
do lado contrário
à asa,
saborear o líquido
quente,
forte, negro,
capaz de preparar
o começo

de um novo dia.

O VOO DAS AVES



 José Projecto
O VOO DAS AVES

As aves que soltam as asas no céu
não obedecem a G.P.S.
Desconhece as rotas traçadas,
chips identificativos.
Em bando
cada uma cumpre um papel,
voam,
não de qualquer maneira,
em sintonia 
Cumprem-se as leis da vida

não manipuladas.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

NÓS



 Alberto Ulloa
NÓS

Um passado houve
que de tão cúmplices
ouvíamos um só coração
batendo compassadamente.
Éramos um com o outro,
o mundo nosso aliado
fazendo e desfazendo os caminhos
a nosso jeito.
O tempo
torna tudo mais confuso,
mais pesado,
os sonhos ficam diferentes,
o pulsar mais desfasado.
Vão-se embora as convergências
cada um para seu lado.
Por ora, nem mensagens são trocadas,
é o ferrete da mágoa,

os dias que nos foram roubados.

GASTO



 Adi Steurbaut
GASTO

O couro do sofá azul
foi-se gastando,
o branco das cortinas
amarelecendo.
Empoeirou-se a louça
nos armários,
esbetonaram-se as sancas,
tudo vai envelhecendo.
O corpo é menos ágil,
as rugas acentuadas,
o cabelo mais grisalho.
Gastámos os dias,
o amanhã tem que ser hoje,
o  futuro um sonho.
Tenho saudades dos que foram,
fazem falta,
antes estorvavam.
Ai vida, contradições,

agora quero, logo não.

PALAVRAS



 Artur Bual
PALAVRAS

Há dias assim:
a cabeça pesada,
o verbo não flui.
Congeladas as palavras,
envoltas em sombra,
dormindo sobre almofadas.
Acordo,
as pereiras frente ao quarto,
floridas em branco,
anunciam Primavera.
Dentro do quatto pequeno
soa uma música dolente,
nordestina, brasileira.
É a última cisma,
ouvir canções estrangeiras.
O vento forte
arrasta a portada da janela,
que bate, bate.
qual relógio antigo
contando as horas do dia.
O galo pedrês
dá ordens no galinheiro
às galinhas poedeiras.
As minhas mãos suadas
  sustentam a casa,
os sentimentos, pensamentos,
a vida.
Sem culpa pelas imperfeições
A custo, custando,
lá saem  as palavras,

engendra-se o poema.