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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

ZARPAR

J. Valcarcel

ZARPAR  

Quero a mala pequena
apenas uns trapos
protegendo do frio
resguardando do sol.
As memórias
as que couberem
Tem que acomodar
os meus cadernos
de poemas.
O resto, rostos esfumados
forrados a conveniência
ficam nas formas rectangulares

das portas que deixarei.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

LENGA LENGA

J. Valcarcel

LENGA LENGA  

A riqueza de uns
a pobreza de muitos,
a fartura de uns,
a  fome de outros,
a liberdade de alguns
o jugo de tantos
Puchar os cordelinhos
dos escaninhos da História,
tornar o mundo

um lugar para todos.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

PASSOS NO DIA

J. Valcarcel

PASSOS NO DIA     

À noite, devagar, com tempo,
recolhidos os passos árduos
de um dia desgastante,
o vento sabe a mar,
os pinheiros oferecem frutos.
Os bichos gemem adormecendo,
recolhem-se os últimos cestos
de neblina,
fecham-se as portadas da alma,
come-se percebes frescos
apanhados nas pedras do molhe da praia.
Cada sílaba proferida
é assente no livro do dia
sem stress, sem amargor.
Fervilham no cérebro memórias,
Apaga-se a luz rasante,
a pele arrepia-se,
aos olhos resta esperar a maré cheia
frapeando a porta da entrada

na madrugada ainda por acontecer.

PARTILHA

Collado

PARTILHA 

Partilham-se os poemas
como na igreja se partilha o pão
na hora da comunhão.
Deixa-se o azedume vir à tona,
o vinho jorrar  nos copos,
o amor explodir no olhar,
planar  perante o prazer
de dar, de comungar.
Ouçamos os outros
não queiramos o troféu do verbo
só para nós.
Deixe-se o caminho
tomar todas as direcções.
Fechados outros sentidos,
cegos, mudos, sem cheiros
ou sabores
que a palavra seja o divino,
o sagrado, o barco pronto a navegar.
O banquete prometido,
o livro riscado,
resposta a dilemas antigos,
o verde do mar límpido,

após uma tempestade de lírios.