terça-feira, 28 de novembro de 2017

PAUSA


José Gonzalez Collado
PAUSA     

Pausa em tarde seca.
Os olhos fecham-se,
esticam-se as pernas ao sol,
esquisitice deste Outono.
Presente um burburinho
continuo, irritante.
Os sem abrigo negros
estabeleceram-se
nos Poveiros,
bebem de pacote
uma zurrapa tinta
ouvindo em altos gritos
as últimas músicas
do top angolano
em rádio gigante.
E falam, falam
ao telemóvel
num linguajar
de sotaque balançado.
Eu, no meu íntimo silêncio,
penso, quero,
o barulho dissipado,
à margem de tudo
que nasça mais um poema.
Com café dentro,
 páginas de jornal lido,
a disfunção entre dois mundos:
os que têm cama quente

e os que dormem ao relento.

ÚLTIMA BEBIDA



COLLADO
ÚLTIMA BEBIDA  

Cinco da manhã,
pouco se circula
na cidade adormecida.
Num bar esquecido
ao fundo da rua
tremelica uma luz
azul, intensa.
Entrar, não entrar,
vou, sento-me.
O último gin tónico
é sorvido
enquanto o pensamento
grita
em volta  do que quero

para mim.

PENSAMENTO

Victor da Silva Barros

PENSAMENTO  

Agora tem tempo
no tempo que é curto

para sonhar.

INACREDITÁVEL


Victor Silva Barros

Incredulamente tu,
fechando o coração,
ansiosa, medrosa,
temendo o golpe
que o abriria.
A chuva finalmente
escorre pela janela,
branca, fria,
líquida persistente,
quisera eu
conhecer-te assim.
Deixa-me levar-te
em direcção à luz da cidade
onde se distribui
essências na rua,
copos de vinho do Porto
em bares aconchegados.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ARTE


Collado
ARTE  

Ao artista compensa?
dentro da tela fica alma,
o suor, as esperanças.
Os críticos ferozes
espiolham a técnica,
a paleta de cores, a novidade.
A leitura é rápida,
pouco se contempla a obra
registada num rectângulo
ou num quadrado.
No  príncipio é a brancura
do linho,
as paletas tingidas
de tubos alinhados
com as cores do arco-íris.
O pincel torna-se vivo,
entranha-se na luta
entre a mente e o objecto,
a grandeza da criação
e encher a tela com harmonia.
Parado pela força do cansaço
mesmo assim
o fazedor de sonhos
pega em pedrinhas de quartzo
e enfeita as tranças
da ceifadora de trigo
na imensidão da herdade

por si plantada no quadro.

UMA HISTÓRIA REAL


Victor Silva Barros
UMA HISTÓRIA REAL 

Os anjos
com falta de sono
descansam, por momentos,
nos beirais das casas
onde habitam crianças.
Foram tantos os pecados
dos humanos,
as omissões, os esquecimentos,
afastando os anjos
que por ora só ligam aos pequenos.
Preocupados,
entram pelas frestas das janelas,
embalam com ternura
dois irmãos gémeos,
chorosos, medrosos.
Aquecem no microondas o leite
da Matilde esfomeada.
Acendem a luz de presença
ao João assustado.
São uma réstea de luz
difusa,
desprovidos de tempo,

ficam até serem necessários.

JESUS


Victor Silva Barros
JESUS  

Jesus era o seu nome
sacramentado em baptismo
quiseram no rapaz perpetuar
a tradição de família.
Toda a vida foi Ju
confundido com Jerónimo,
João e até Joaquim.
Terra a terra, comum,
vulgar, sem marca de água.
Negrito, pequenote,
de frágil compleição.
Gostava de comesainas,
de beber mais,
sem jeito, sem sedução.
Envelheceu, morreu,
não deixou pegadas,
lápide, livros de memórias.
Foi mais um
no rol dos esquecidos
apesar do invulgar nome,

foi igual à maioria de nós.

FRONTEIRAS

Victor Silva Barros

FRONTEIRAS  

É como eu digo
o crime
nem sempre traz castigo.
Sentemo-nos
esquecidos os ódios de estimação.
Rodemos o cesto do pão,
as azeitonas pretas,
o queijo curado de ovelha beirã.
Brindemos com tinto do Douro
à vida, ao sol quente
abrindo a janela de manhã.
Falemos devagar,
dando voz a todos
a razão de estarmos aqui
é não aceitarmos fronteiras,
limites ao pensamento.
Vê-se o mar do pátio,
fazemos perguntas
questionamos respostas.
Os mapas existem
traçando rumos,
nós desejamos liberdade,
a agressão da inquietude,
a beleza depois da beleza
o paraíso perdido,

a vida conduzida por nós.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

ASCENDÊNCIA


Collado
ASCENDÊNCIA

O pai, um Manuel alfaiate,
o avô ferreiro,
o bisavó lavrador,
Primo de muitos emigrantes
que no início do século XX
rumaram ao Brasil
o el dourado distante.
Filhos de uma geraçâo
pós guerra,
de poucos teres e haveres,
muito trabalho, pouco comer..
apesar de tudo sonhavam
sonhos comezinhosa
ter família,
ver os filhos crescerem,
multiplicarem-se,
ao fim do dia mesa farta
a acalmar as crianças

esfomeadas.

MADE IN CHINA

Collado

MADE IN CHINA

Made in China
diz a etiqueta da saia
que se esqueceu de cortar.
À primeira vista
segue a tendência da moda
curta, brilhos misturados.
Desalfandegada legalmente,
Seguiu os trâmites comerciais.
Comprime, porém
o emprego ocidental,
quem liga a tal?
alguém enche os bolsos

na cúpula empresarial.

PROPOSTA


Collado
PROPOSTA

Fracturante
ser político imbecil,
recicle-se os políticos.
É um cansaço ouvi-los
com opiniões contraditórias
caso sejam poder
ou oposição.
Neste enredo de politiquices
nada mudou
após 40 anos de revolução.
Dão a mão a quem
reparte dividendos chorudos
de negócios escuros.
A aparência de mudança
é capa
escondendo o velho, decrépito.
Cheira a putrefacção, a passado.
Obrigue-se a escreverem
em cadernos de duas linhas,
mil vezes,
antes de cada um

estamos todos.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

URGÊNCIA

Collado

URGÊNCIA

Sê hoje o meu lume,
a minha lenha,
a lareira, o aconchego
nesta noite de tempestade.
Sê a luz a entrar
na cama meia desfeita,
o cobertor quente
cobrindo frestas da alma.
As orquidias raras
no solitário vermelho,
antigo, com memórias.
Sê os meus olhos
vendo além,
torna as horas comuns
em raios de eternidade.

ARCO-ÍRIS

Collado

TAF
Agostinho

ARCO-ÍRIS  

Esplendoroso o arco-íris
surgindo sob o céu cinza,
capricho de cores, brilhos,
aliado de seres míticos.
Marcador de horas,
portador de chuva,
estabelecendo o equilíbrio
entre a natureza e o céu.
Depois, depois,
torna tudo mais claro,
trazendo à tona formas, cores,
sabores, perfumes.
Toda a obra da criação
é uma explosão incontida,
centelha de paioxão
vivida por homens,
bichos e terra
em religioso silêncio.

HÁ DIAS ASSIM

Collado

HÁ DIAS ASSIM

Quebrar,
não conseguir segurar
os pedaços.
Não adiantar soluções,
esperar
as voltas que a vida dará.
Quedar-se no vazio,
não subir à tona,
Admitir amos no mundo,
senhores de nós.
Não gritar
adormecer no caos nascente,
Ser definitivamente
ausente,
aceitar as mentiras,
falsos caminhos,
malévolos destinos.

RECORDAÇÕES


José Gonzalez Collado
RECORDAÇÕES 

Antes era assim
a alegria persistia
cada dia.
As penúrias rompiam
todas as Primaveras.
Os namorados juravam
repetidamente
amor eterno
até que a carne se rasgasse.
Planeava-se
viagens ao Árctico,
não se mediam emoções,
falava-se alto.
As amoras negras
colhiam-se ao fim da tarde,
tingiam a boca
enquanto o sumo escorria
entre a boca e as mãos.
Silenciados os medos
éramos o mundo inteiro

e sorríamos.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

REFLEXÃO SOBRE A EUROPA


José Gonzalez Collado
REFLEXÃO SOBRE A EUROPA  

A luz exilou-se de vez
é a sombra que guia
esta Europa velha.
Inaudíveis são as vozes
dos países pobres do sul
não chegam à lonjura
da fria Bruxelas.
Destino comum?
Não parece,
no arrefecimento agreste
dos sonhos perdidos.
Falta-nos instrução, pensar,
falta reflexão,
a eles o nosso brilho,
o sol quente, ardente

na mesa cinzenta da distribuição.

PEDIDO


José Gonzalez Collado
PEDIDO  

Depois de te conhecer
não sou o mesmo.
Tonto de todo
esperando-te diariamente
à saída do emprego.
Dar-te boleia é um ritual
embora cada dia seja diferente
dependendo da cor do batom
ou do tamanho do tacão
do sapato.
Vou agindo de acordo
com o teu sorriso
pedindo à S. Rita

que não saias do meu caminho.