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quarta-feira, 5 de julho de 2017

PORTO AINDA



Carmen Santaya
PORTO AINDA  

A cidade pousada
nas gaivotas do Douro
revolteando ao redor
dos artefactos da ponte velha.
Os sentidos, literalmente
escorrendo com o gin tónico,
estando nós
sentados à mesa.
Dir-te-ão os turistas:
barulho,
achando piada a tudo,
fotografando na Sé
a velha Joaquina
a dobrar as cuecas
retiradas do estendal.
Tu no silêncio,
no teu tempo,
livrando-te
de maus pensamentos,
fazes um retrato a pastel
do gato vadio que passa.

SAÍDA EM CONJUNTO



 Carmen Santaya
SAÍDA EM CONJUNTO  

Numa saída à noite,
improvável,
pousaram umas mãos
nos teus ombros,
não era de prever
afectos por anunciar.
A bolha acomodou,
o coração bateu  com força,
o terreiro da festa
ficou mais iluminado.
Questionado o facto
não inventariado
difícil foi voltar a casa,
lutar para sobreviver,
sem lugares de abraços,
sem degustação de gin
com sumo de laranja
e ovos estrelados.

TALVEZ

Carmen Santaya
TALVEZ  

Um sinal encriptado
desenhado na parede,
uma rosa abotoada
no casaco de fazenda,
um provável beijo
enamorado
guardado na gaveta.
Uma porta de ferro
na entrada da casa,
a argila riscada
protegida nos muros
velhos, musguentos,
a madeira aberta
sem cheiro, nem idade.
O betume
no vidro partido,
o verbo
o príncipio de tudo.
As sílabas dos versos
escorrendo do papel,
o fim do dia
a tornar-se triste.

PORTUGUESES



 Carmen Santaya
PORTUGUESES  

Somos nós,
poucos,
neste país pequeno,
lutadores, tristes,
dados ao desânimo,
mas insistindo sempre.
com bravura
chegando à margem
depois de muito nadar.
Heróis não somos,
foi-se a reconquista,
foi-se a aventura no mar.
Somos o que somos
deixamos a certeza
pela incerteza noutros países,
de pé, firmes
enquanto varremos
as ruas de Paris.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

SONS



 Carmen Santaya
SONS

Sentado no alpendre
ouço,
como ouvi ontem,
anteontem,
há muitos anos atrás,
o apito do comboio,
o marulhar do mar.
O silêncio é branco
procura sem sucesso
o relicário
guardando as lembranças
do passado,
os sons as visões,

os sonhos não realizados.

UMA VIZINHA CANTORA



 Carmen Santaya
UMA VIZINHA CANTORA

No prédio onde vivo
há uma vizinha cantora,
a sua voz ecoa
penetra portas, janelas,
senta-se à nossa mesa,
toma o café da manhã,
diz bom dia
e vai-se embora.
Ter assim uma voz
é quase indecoroso,
brincar com notas de música,
enviá-las em correio azul

tornar o dia aberto.