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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

ROMÃ

Helena Canotilho
ROMÃ
O menino abriu a romã
batendo-lhe com
uma colher de pau.
Não lhe queria
comer os bagos,
queria só e apenas contá-los,
fazer deles um colar
oferenda à sua mãe
que fazia anos.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

IMAGENS

Helena Canotilho

IMAGENS

Adolescente, eu,
estudando para ser alguém,
defronte do apartamento
onde morava
havia uma casa rara,
palacete de família.
As criadas eram várias,
de avental branco
debruado a rendas,
era um vai e vem
entre elas.
Uma gorducha, vermelhusca,
da arrecadação levava o pão,
as verduras, as frutas.
A outra numa cesta gasta
transportava lenha até ao fogão.
À sexta feira, de Grijó,
chegava a lavadeira
levando o rol
de roupa branca e de cor.
As meninas da casa,
virgens imaculadas,
tocavam piano ao pôr do sol.
Havia ali uma grande unidade
de disciplina e produção.
Eu, com razão pensava
ter entrado num livro de ficção
centrado numa família aristocrata

do século que acabou.