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terça-feira, 10 de julho de 2018

UMA SALA


J. Valcárcel
UMA SALA  

No fundo da caixa negra
sob a janela
da pequena sala,
havia um mundo de fantasia,
e, por magia ou imaginação
de lá nasciam
todos os sonhos do mundo.
Nas longas tardes de estio
de sol abrasador,
servia aquela sala de refúgio
de caça ao tesouro escondido.
Eram moedas
do tempo dos reis,
socas de tacão
enfeitadas de flores e corações,
saias bordadas a vidrilhos,
corpetes apertados
com fios a ilhós.
Garrafas de vinho do Porto
perdidas em tempos idos
e um monte de cartas de amor
embrulhadas em papel pardo.
Nunca percebi a qual das tias-bisavós
pertenciam: se à Rosa se à Ludobina.
Aquelas senhoras de rugas vincadas,
sorriso baço,
solteironas sem escolha,
também amaram,
também sofreram de amor.

terça-feira, 12 de junho de 2018

JORNAIS



J. Valcárcel
JORNAIS 

Entre cada virar de página
de um jornal diário
e um golo de café quente
naquele boteco familiar,
tudo é um ritual.
O que me seduz
são as  notícias
comezinhas, de pé de página,
as não editadas, com verdade,
as infames sem rede,
as azedas sem arandos ou chocolate.
De resto, que dizer da violência
gratuita, suja,
repetida com insistência doentia,
as notícias tontas  de um jet sete
inexistente,
as ondas de corrupção
envolvendo tantos
que de tantos é difícil processá-los.
Teias que me escapam
entre os vapores do café
e a doçura da nata.
Já não há linhas editoriais,
manda o dinheiro, reina o capital.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

SAUDADES


J. Valcárcel
SAUDADES  

Não te vejo
sentada nessa cadeira
esquecida no jardim.
Tenho saudades
das sestas dormidas
no decadente cadeirão,
lado a lado.
esquecendo tudo,
o que estava fora do muro.
Era bom o equilíbrio,
a natureza esplendorosa
rompendo a terra
escura, húmida.
Estranho, não te ver,
ainda ontem, juro,
estavas lá,
esperando o chá
com rodelas de limão.
Vida multiplicação de factos,
sendo nós adultos,
sofremos as consequências.
O resto particularidades,
o soa aquecendo pouco,
a dureza da existência,
a caminhada tidos os dias

no passadiço cercando o Douro.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

NÓS

J. Valcárcel
NÓS  

Conhecemo-nos
numa festa de amigos comuns,
primeiro olhámo-nos
de relance,
depois atámos as mãos
deslizando na sala
ao som novo dos Beatles,
o olhar inquieto
quis ali o mundo inteiro!
Depois os lábios
eram dois bagos
de uva moscatel,
ah um súbito desejo de beijar!
Ao fim de um ano
conhecíamos todas as manhas,
todas as marcas,
todos os gostos
e desgostos
de cada um!
Desfazíamos o nevoeiro
do cais do Porto Velho
com a imensa vontade
que fosse para sempre
a chispa que nos aproximou!

MARGENS DO SENA

VIFER
MARGENS DO SENA

Sentado num banco de madeira,
fotografava os Bateax Mouche
transportando
turistas do mundo inteiro!
Lia um livro,
comprado
num alfarrabista barbudo!
Tomava uma taça de champanhe
rindo para a vida,
de bem com tudo e com nada!
É Paris!
O Louvre,
a Torre Eiffel,
o Bairro Latino,
os quiosques,
as pontes do Sena,
as ostras com limão,
o vinho branco gelado,
a baguete crocante,
a salada de chicória!
O Centro Pompidou,
os artitas de rua
pintando no Sacré Coeur!
A multidão correndo,
as lojas caras
Louis Vuitton,
Versace,
Christian Dior,
o túnel da Alma,
a exposição de Picasso,
os Marroquinos,
os jardins,
a luz,
as tábuas repletas de queijos,
o croissant amanteigado,
os velhos sonhos
maquiando a alma,
a corista reformada
do Moulin Rouge,
a Catedral de Notre Dame!
A liberdade,
a Marseillesa,
as hordes de povo
derrubando prisões!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A MALA MEL


J. Valcárcel


As palavras estão gastas
num mundo sem partilha,
cavalos desenfreados
passam por cima dos sonhos
e deles fazem fardos de palha!
Eu que podia pedir pouco
achava que tinha direito
a uma mala cor de mel!
Num Domingo de poetas,
pé ante pé
e sem grande treta
fiz solenemente o pedido.
Pus toda a gente em sentido,
juntei cravos e rosas
no mesmo canteiro
e o acto foi certeiro
concederam a esta poeta
uma mala mel!
Num mágico segundo
coube ali o mundo!