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quarta-feira, 23 de maio de 2018

O MEU TRISAVÔ FERREIRO

Molina
O MEU TRISAVÔ FERREIRO

Na cave um alambique,
o fedor a aguardente
espremida e embalada.
Os dedos arqueados
do trisavô António,
vergado pelo poder
do martelo e da bigorna.
O mata bicho
era ali à bica,
subindo à oficina
já não sentia
o calor da fornalha.
Alinhava enxadas,
foucinhas, gadanhos,
arados e grelhas.
E assim levava a vida
e sustentava tanta filharada.
Ao domingo fazia a barba,
penteava e encerava o bigode,
vestia o fato preto
e pedia a deus perdão dos pecados.

terça-feira, 9 de abril de 2013

PORTO




PORTO

A cidade nasceu,
granítica,
e, depois acordou
com vasos de sardinheiras,
inventadas,
colocadas, sabe-se lá,
por quem,
nas sacadas
de ferro forjado!
Os passantes misteriosos
segredavam-lhe ao ouvido:
como és bela
sobressaindo do nevoeiro
que se vai soltando do rio!
À cidade agradava-lhe,
a leitura de um livro,
de Camilo,
estar numa sala de cinema,
animada,
e, ter casais de namorados,
em janelas enfeitadas,
abraçados pela ténue madrugada!
O cais embalado,
pela agitação da água,
os rabelos coloridos,
e os copos de vinho do Porto
vazios,
depois de saciadas as bocas!