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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

NOITE INVERNOSA


José González Collado
NOITE INVERNOSA  

Uma lata vazia
rola na rua húmida,
fria, encharcada
de poças de água.
Os pés escorregam
na viscosidade
lamacenta das ruas
conspurcadas…
A gabardine pinga,
dobra o guarda-chuva
a pressa é toda
para entrar na Império,
um galão a ferver
uma Glória crocante.
As pegadas  molhadas
ficam no hall,
o vento lá fora,
a sala é luminosa,
na mesa há papel,
caneta, inspiração,
tudo a postoa
nasça o poema.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

TEMPO



José González Collado
TEMPO

Penso o meu poema
no tempo
que não sinto meu.
Cada verso é um impulso
neste meu defeito confesso
de querer salvar o mundo.
Nem hipóteses me dão
de começar a tarefa,
quem te manda ati meter-te
em seara e foice alheia ,
fala antes por falar
de flores, de frutos, de vendavais.
Tranca as estrofes,
guarda-as a sete chaves
na mesa de cabeceira,
esperando que um dia
alguém lhes preste atenção,

alguém os leia.

CASA NATAL


José González Collado

CASA NATAL

Queria rer uma casa natal,
sorrisos permanentes,
muitas rabanadas quentes,
de leite e mel,
aletria dourada,
creme rescendendo a caramelo,
bolinhos de jerimu, vinho quente,
café, um cálice de aguardente.
Queria conversas serenas,
sentir que gostam de nós.
Deixar a lenha
queimando na lareira
a noite inteira
aquecer tudo até à alma.
Pela meia noite
procurar luvas e gorros,
sobretudos felpudos
ir à Missa do Galo,
beijar o pé pequenino
e cheiroso
do Deus Menino.
Ser uma peça mais
nesta engrenagem
não sei se enganosa
se providencial
criando dias felizes
no mês de Dezembro,
no calendário de cada ano.

MAR


José González Collado
MAR

O mar continua longe
hoje sereno com pequenas ondas.
É visceral,
metê-lo dentro de frascos,
bebê-lo nas noites mais prementes.
Uma linha de barcos no horizonte,
minimal,
a tela do pintor de rua
enche-se de traços
e eterniza o balanço da água.
As dunas desgastam-se
forçadas pelo vento,
os chorões abraçam-nas
fixando a muralha protectora
ao avanço das águas.
Um casal destemido
toma banho nu
no Novembro frio.
A chuva sem se anunciar
cai de supetão
molha ainda mais
corpos  humedecidos.
O fim do dia trouxe um arco-íris,
as nuvens negras
cobrem as pessoas,
o mar,
a vontade de integrar
os mistérios milenares
do oceano eterno.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

AMIGOS PARA SEMPRE

José Gonzalez Collado

AMIGOS PARA SEMPRE  

Os cinco amigos,
na primeira quinta feira
de cada mês,
reúnem-se numa tasca
barulhenta, impessoal,
plantada na rua das Taipas.
A dona, a gorda Rosário
faz umas tripas de comer
e chorar por mais.
Sentam-se sempre
no mesmo canto,
insatisfeitos com a vida,
satisfeitos com as vitualhas.
Gabam-se a torto e a direito
das suas conquistas de machos
pecaminosos, ardilosos,
marcha tudo:
a sopeira, a florista,
a comissionista, a dentista.
É um poder carnal suado,
orgânico, obsceno,

mas no final, é tudo apenas virtual.

VALER A PENA

Collado

VALER A PENA  

Enquanto os dias nascerem
com brilho e reflexos no olhar.
Enquanto o penetrante luar
iluminar caminhos a andar.
Enquanto o pomar florir
e alguém colher os seus frutos
intensos e maduros.
Enquanto houver guardiões
das memórias do passado.
Enquanto as fogueiras aquecerem
os pés doridos
dos peregrinos de Santiago.
Enquanto alguém tremer
com a dor dos outros,
eu e tu acharemos

que vale a pena estar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

COMPORTAMENTOS

José Gonzalez Collado

COMPORTAMENTOS  

Os trabalhadores,
ao fim da tarde,
preparando-se
para regressar a casa,
são diferentes.
Pela manhã,
levam um sorriso enviesado
é difícil agradar ao patrão
sempre preocupado.
Mais descontraídos
contam tostões
para ofertar duas rosas
às namoradas.
O bom humor dura mais,
sabe melhor a cerveja
a viagem de metro não cansa,
voa  a imaginação

para lá da paisagem.

VERTICALIDADE DA ALZIRA

José Gonzalez Collado

VERTICALIDADE DA ALZIRA  

Não tem intolerância
a qualquer alimento
nem aos morangos
nem ao chocolate.
Só presta atenção à sua vida
a dos outros
não lhe faz monta. 
Não insinua nada
quando fala
é de certezas confirmadas.
É mais de silêncios
que de palavras vazias.
Oferece-se sempre
para  iniciar
justas reivindicações.
É linda de morrer
para lá de qualquer espelho
ou água parada.
Ajoelhada
frente a este mundo conturbado
tem dificuldades em viver

com o seu parco ordenado.

SALVAÇÃO

José Gonzalez Collado

SALVAÇÃO  

Salvem-se os milhões,
salvem-se os donos dos milhões,
salve-se a engenharia financeira,
salve-se a bandeira dos donos
disto tudo.
Salve-a Europa madrasta
agastada a contar tostões,
salve-se a política da escravatura,
a falta de decência
o trabalho não dá pão suficiente.
Salve-se a soberba do poder,
a dureza da humilhação
infligida aos fracos.
Salve-se a moeda única
a sua força
o desemprego que causa
a estagnação da Europa,
a falência dos bancos
a dívida pública.
Foi para tal cenário, Europa,

que nos coligámos?

CAMA DE HOTEL

José Gonzalez Collado

CAMA DE HOTEL  

Nenhuma cama
onde dormia
enquanto viajava
me ficou na memória.
Frias, impessoais
sem dobras nos lençóis
nem manta quente
preferida.
Não era minha por direito,
outros dormiram nela.
Maquilharam-se ao espelho,
tiraram o suor no chuveiro,
espantaram medos,
espantaram desejos.
Deitaram-se no travesseiro
de um jeito ausente
pousando um dia
para se afastar no outro

sem penas, sem perdas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

GRAFITTI

José Gonzalez Collado

GRAFITTI

Na porta de alumínio cinza
do meu prédio de trinta anos
alguém pintou
uma borboleta multicor.
Grande, brilhante,
podia ter saltado
de uma tela de Van Gogh
Pronta a bater as asas,
de tão real,
era soprar com força
começaria a voar.
O sindico
cuja arte não era o seu forte,
chamou um serralheiro
que de formão em riste
raspou a borboleta.
A porta e o prédio
são agora mais tristes.

MÚSICO DE RUA

José Gonzalez Collado

MÚSICO DE RUA

O músico de rua
toca sempre
passe ou não gente.
Dedilha a viola com afinco,
empurra o chapéu
para a frente,
não vá o turista distraído
não agradecer devidamente
com um ou mais euros.
De mais que um talento,
se alguém quer muito,
tira de um saco
papel e carvão
e faz um retrato encomendado.
Estiva os músculos do braço
e para espanto da mamã
nasce em poucos traços
o perfil do seu menino de ouro,
iluminando o sorriso da mãe
embevecida.

HISTÓRIA COM FREIRAS

José Gonzalez Collado

HISTÓRIA COM FREIRAS

Na estação de S. Bento
apeiam duas freiras Carmelitas
silenciosas e frias,
de hábito negro
rastejando no chão,
não caminhavam, levitavam.
Desfiavam o rosário,
meticulosamente,
do outro lado, tiro o porta-moedas
e conto o dinheiro
para ir ao cinema
ver o Renascido.
Uns compram a eternidade
eu compro a vida.

O PEDRO NUMA TARDE DE SEXTA

José Gonzalez Collado

O PEDRO NUMA TARDE DE SEXTA

Depois da  terceira cerveja
a rua é o rio Nilo
banhando os meus pés descalços,
os seios da Carolina
dióspiros maduros
empratados nos meus olhos,
a minha vizinha Teresa,
moçoila trigueira,
observando-me da janela
de sua casa,
uma rosa encarnada
para eu trazer na lapela.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

FIM

José Gonzalez Collado

FIM  

Os olhos percorrem a casa
agora vazia,
as passadeiras gastas
cobrem um chão velho,
os copos, os pratos esbetonados,
serviram de mão em mão
festas e comemorações.
Hoje são fósseis, não existem,
não têm serventia.
Foram belos os armários,
as secretárias, a credence.
O pó, como argila branca
cobre as memórias,
as ânsias, as lembranças.
Delírio é querer continuar
navegando em águas mortas.
Frágeis, agarramo-nos a tudo

esquecendo a brevidade das coisas.

DIVAGAÇÃO



José Gonzalez Collado
DIVAGAÇÃO  

No meu quarto
com janela virada a sul
o tempo corre devagar.
Olho os carros que passam,
nada é de graça
nem o riso da criança
levada pela mão da mãe,
ao virar da esquina
pede o rebuçado.
Entro no movimento
hora de ponta, corridas
a caminho de casa,
as buzinas ferem os ouvidos.
Voa do tejadilho
dum Ford antigo
um ramo de rosas encarnadas,
caem no meu pátio,
ganhei o dia.
Recolho-me com o ramo
e barro duas tostas com mel,
tiro um expresso,

sento-me e adormeço.

MONOTONIA


José Gonzalez Collado

MONOTONIA  

Esvaiam-se as horas
encaixotadas em contentores
nas infinitas tardes de domingo
onde nada há a fazer.
Por detrás das janelas
os dedos escorridos
desenham no embaciado
cinzento das gotículas:
só queria  partir,
viajar nas asas do tempo,
sentar-me numa mesa em Paris,
comer croissants amanteigados
e beber chá quente de lúcia lima.
O dia será abrigo
na quentura do chá,

na leveza do croissant.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

TEMPOS NOSSOS

José Gonzalez Collado

TEMPOS NOSSOS 

Nestes tempos conturbados
provocados
por interesses instalados,
respeitemo-nos,
festejemos a existência,
veneremos o Universo
com a mesma insistência
e pressa
com que nascemos.
Não deixemos nada
interrompido,
vivámos
construámos a nova História
com o mesmo gozo
com que partilhámos
as festas, as viagens,
os aniversários.