quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A PEREIRA

Collado

A PEREIRA  

Aquela pereira imponente
no canto esquerdo
do campo de cima,
tem frutos maduros,
prontos a cair
se não forem colhidos.
Somos como aquela árvore
plantada pela minha avó
Maria
que a cuidou
com a mesma destreza
com que nos limpava
o ranho do nariz
nas noites longas,
frias, de Inverno.
O que se acrescentou hoje,
é que alguém a cortou,
sem dó, nem piedade ,
ensombrava a cozinha
remodelada.
Em todos os pomares
da minha cabeça
haverá sempre
uma pereira úbere
com frutos doces e dourados

para se comer à merenda.

DECLARAÇÃO

Collado

DECLARAÇÃO  

Junto à praia de mãos dadas
nada existe para além de nós,
o sorriso atrevido da tua boca
não sei de onde vem,
nem porquê,
a sensação é boa, estar sós,
rodeados de tanta gente.
Sentados no paredão
que mal sustem as águas,
de repente, dizes-me;
o meu amor é tanto que dói.
Fiquei sem fala,
mais pequena, mais encolhida,
balbuciei;
o meu é ainda maior

dói tanto que fiquei sem voz.

POESIA SEMPRE

Collado

POESIA SEMPRE

A poesia para nada serve,
não é objecto de troca,
não se vende, não se compra,
nisso está o seu fascínio.
É como uma prenda
que se guarda
nas memórias do futuro.
Espreita todas as coisas,
as vidas de todos nós,
esmiúça, fere,
agradece, festeja,
é obscena, etérea,
promiscua, divina.
Segue o seu caminho
de olhos abertos,
formosa, vaidosa,
pedinte, andrajosa
até que as tertúlias
dos poetas

a eternizem.

PÁGINA DE UM DIÁRIO

Collado

PÁGINA DE UM DIÁRIO  

Que estranha forma de olhar,
olhar sem ver
o que está à tua volta.
Passas impune,
alheia, vazia,
não me conheces
ou não me queres conhecer.
Quantas mensagens
te enviei,
querendo estar contigo,
negaste-me
o supremo desígnio
de dizer que te amava.
Quase não me lembro, de ti,
da tua frieza cinza,
recordo apenas o concerto
estrondoso
dos Dama,
no dia

em que esbarrei em ti.

ESCREVER

Collado

ESCREVER  

Escrever
não é assim uma coisa
que aconteça
só porque eu quero,
A cabeça vai-se enchendo
de histórias, de palavras,
de repente, a caneta
está nas minhas mãos
e escreve o que a cabeça pede.
Brilham os sons da cidade,
as personagens reais e irreais,
as suspeitas, os ais,
os medos, os sustos,
as gargalhadas baralhadas,
os gestos estranhos,
a dor das grades,
o sentimento e o vazio,
o rio Douro e a sua Foz,
a nudez e a passarela.
Os poemas
raspam onde não deve raspar,
levantam a saturação,
o pus sai,

alivia mas não sara.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

APONTAMENTO

Collado

APONTAMENTO

Nasceram narcisos
num campo de futebol,
surreal foi os jogadores
não querem jogar
num campo

que era agora das flores.

SENTIR A CIDADE

António Bártolo

SENTIR A CIDADE

A praça da Liberdade
não deixou de ser praça
apesar de perder a graça
de uma praça de província,
com árvores, bancos,
sombras e velhos.
Sem velhos não há praças
que mereçam o nome.
Quiseram-na modernaça
ao estilo da Europa Central,
figurando grandes espaços,
quando nos caracteriza
a pequenez.
Hoje tem poucas árvores,
poucas sombras,
poucos bancos,
poucos velhos,

poucas memórias.

SENTIDA CONFISSÃO

Collado

SENTIDA CONFISSÃO

Bebíamos
um cálice de Porto Rubi,
meio cheio,
o vinho é tão doce,
subtil, etéreo,
é preciso sorvê-lo devagar,
pouco a pouco,
o sabor intenso
prolonga-se na boca.
Quem se lembraria
de festejar neste dia
um ano de namoro,
tudo é tão fugaz,
não têm alvará as paixões,
são devolvidas
ao fim de poucos dias.
Fomos mais recolhidos
que os demais,
pusemos alma em nós,
de mortais
passámos à fase seguinte.
O frágil tornou-se forte.
Elevemos à boca o festejo,
o vinho desce, quente,
como um beijo.
Continuo a querer-te

todos os dias.

UM ANO PASSADO

Collado

UM ANO PASSADO

Sabes mãe, morreste,
não sei se te deste conta
que a vida por um fio
na urgência do hospital,
acabou-se.
Ficámos órfãos,
entradotes e órfãos,
o que é uma coisa esquisita.
Sem ser perfeita,
deixando-te levar
no diz que se diz,
eras o único elo de ligação,
quem verdadeiramente
se importava com nós.
Agora sós
é tudo mais frio,
ajustámos os trancos da vida
sem muros a segurá-los.
Iremos, porém, arrastados
pelas veredas da vida,
viver o que nos falta percorrer.
Sem palavras de alento,
sem um bom assado
de Domingo,
frutas escolhidas do pomar,

um chá quente de lúcia-lima.

É A DEMOCRACIA QUE TEMOS

Collado

É A DEMOCRACIA QUE TEMOS

Como eles pleiteiam
no écran da televisão
em programas comentados,
bem pagos,
onde não são eles,
mas os patrões, a facção, o bolso
fornecendo os argumentos,
para continuarem nos poucos
lugares vagos,
arranjados para os eleitos.
Que pobreza de discurso,
vozearia alterada,
não se percebe nada
do que almejam alcançar.
Pensar no povão é que não.
Ele é a democracia, a república,
os compromissos internacionais,
a Nato, o défice, a dívida,
os juros da dívida,
E nós?
Estamos primeiro que a Europa,
que a chanceler,
que Bruxelas,
continue-se a vida,
namore-se,
brinquem as crianças,
cismem os velhos.
A música ouve-se,
o homem estátua actua.
Tudo isto há-de passar,
nós também,

a Pátria, não.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

IMAGENS

Helena Canotilho

IMAGENS

Adolescente, eu,
estudando para ser alguém,
defronte do apartamento
onde morava
havia uma casa rara,
palacete de família.
As criadas eram várias,
de avental branco
debruado a rendas,
era um vai e vem
entre elas.
Uma gorducha, vermelhusca,
da arrecadação levava o pão,
as verduras, as frutas.
A outra numa cesta gasta
transportava lenha até ao fogão.
À sexta feira, de Grijó,
chegava a lavadeira
levando o rol
de roupa branca e de cor.
As meninas da casa,
virgens imaculadas,
tocavam piano ao pôr do sol.
Havia ali uma grande unidade
de disciplina e produção.
Eu, com razão pensava
ter entrado num livro de ficção
centrado numa família aristocrata

do século que acabou.

PARTIR

Armanda Passos

PARTIR

Partir, partir somente,
sem bagagens, sem mochila,
nascer diariamente
noutras terras, com outras gentes.
Ser livre tal como os pássaros,
pousar nas árvores que quero,
não pertencer aqui, ali
nem a ninguém.
Seguir cada dia em novas direcções,
não ter princípio nem fim,
não ter patrões, não ter mestres,
ser o meu próprio guia,

viver assim, só, entre mar e céu.

AZUL

Collado

AZUL

O azul,
não sei se do céu
numa tarde de Verão,
se do mar sereno
numa noite de Maio,
é a cor que me vem à mente
sempre que estás presente.
Não me questiones
porque é a minha cor,
é esta que permanece

sempre que a vida sorri.

UM COMPLEXO JOGO DE FUTEBOL

Collado

UM COMPLEXO JOGO DE FUTEBOL

O rapazinho
de calção curto, preto,
tshirt esverdeada
joga à bola, no quintal.
A bola redonda
saltou o muro,
girando, rebolando
contra as pernas
da garota de rabo de cavalo
passando na rua
àquela hora.
A bola ficou vermelha,
o rapaz azul,
o embaraço instalou-se.
Brincar com bolas redondas
traz percalços,
o inesperado beijo
rolando sem ligação
fez cair lírios amarelos,
ao mesmo tempo

de todas as janelas do bairro.