domingo, 14 de abril de 2013

DISCURSO



DISCURSO


Não estou vergada
mas perturbada,
com as palavras de alguém,
algures!
Enrolam-se,
ficam presas
em mentiras públicas
e vícios privados
sem exercerem a sua função!
Correm indiferentes,
ao mal que fazem,
narrativas fúteis!
Centenas de pessoas,
rua acima, rua abaixo,
nesta tristeza muda
de nem saberem
que perderam o futuro!
Beba-se o café quente,
trinque-se as torradas,
alinhem com a doçura do açúcar!
O bocejo é difuso
nem infiltra a inutilidade
da verborreia politiqueira!
Ridículos são os discursos,
com palavras que não se entendem,
ausência de ideias,
propostas nulas,
e nós?
Gastos, apáticos
sentados, adormecidos,
que pena!
Vagamente querendo,
com pouca força,
uma milagrosa mudança!

terça-feira, 9 de abril de 2013

NATUREZA MORTA



NATUREZA MORTA

O prato era branco,
quadrado,
grande,
debruado a azul cobalto!
Bem no centro,
brilhava a ostra,
rugosa,
cheirando a mar!
E perguntei-me:
que raio faz esta ostra,
no centro,
de um prato vazio
cheirando a mar?
Comi a ostra
e o mar
inundou a minha boca,
e eu fui marinheiro,
barco, tempestade,
cantador do futuro!
Procurei soluções,
escorracei ladrões,
planeei caminhos
para este país falido,
em redor de um prato branco
com uma ostra rugosa,
no centro,
cheirando a mar!

PORTO




PORTO

A cidade nasceu,
granítica,
e, depois acordou
com vasos de sardinheiras,
inventadas,
colocadas, sabe-se lá,
por quem,
nas sacadas
de ferro forjado!
Os passantes misteriosos
segredavam-lhe ao ouvido:
como és bela
sobressaindo do nevoeiro
que se vai soltando do rio!
À cidade agradava-lhe,
a leitura de um livro,
de Camilo,
estar numa sala de cinema,
animada,
e, ter casais de namorados,
em janelas enfeitadas,
abraçados pela ténue madrugada!
O cais embalado,
pela agitação da água,
os rabelos coloridos,
e os copos de vinho do Porto
vazios,
depois de saciadas as bocas!

MANHÃ NO RIO


MANHÃ NO RIO

As gaivotas bojudas
deixam as margens do rio,
agastadas,
vêm junto das tendas montadas
comer as migalhas
que vão caindo!
O sol depois da chuva
brilha,
dá cor aos balões festivos,
que as crianças levam
nas suas pequenas mãos!
A tua Kodak
ajusta com pormenor
um momento terno!
O teu sorriso, hoje,
é gratuito, dizendo esperança,
no colo dobrado do mundo!
Sentado no parapeito
da janela, Dona Elisa,
ajusta um bule
de chá de laranja e canela,
como gente,
acompanhado de fogaça
torrada com manteiga!
Dia azul, este,
sem sacrifícios,
morrendo, sem penas,
no poente do Atlântico!

RIMAS


RIMAS

Amor rima com dor,
mar com mergulhar,
a tua mão com luar,
um beijo com a minha boca!
Neste doce balançar,
nos dias de dizer sim,
ai amor não sei-te amar,
se o telefone não toca!
É inútil lamentar
as lágrimas que cada um chora,
se o tema é amar,
não é errado chorar!
Telúrico é o gostar
na noite de sufocar,
umas luzes a apagar,
o lobo a uivar,
na floresta inventada
em frente desta vidraça!

VESTIDO DE DOMINGO




VESTIDO DE DOMINGO

Que lindo é o meu vestido
de ir à Missa ao Domingo!
Tem pintinhas encarnadas,
gargalhadas espontâneas
e salpicos de primavera!
Faz balão,
mostra as pernas!
E os rapazes marotos
rodopiam,
à volta do vestido
que estremece
diante da perspectiva
de se rasgar!
Nunca é demais lembrar
que a mãe o fez com carinho
nos longos serões,
de inverno,
com linhas de amor-perfeito!
Entro na igreja,
ajoelho,
não há nada que eu veja,
só existe o rodopio do vestido,

na exaltação do domingo!

domingo, 10 de março de 2013

ADMITO!

Luís Morgadinho


ADMITO

Admito,
não estava na luta,
gritando na praça pública,
contra os cortes dos subsídios
de férias e de Natal!
Admito,
não me revoltei,
ouvindo o discurso
do nosso Primeiro Ministro,
achando que a dor de um povo,
era uma  triste pieguice!
Não disse basta
perante aumentos generalizados,
dos bens básicos!
Admito,
não fiz greve
quando baixaram os salários,
quando reduziram ajudas,
à miséria envergonhada!
Admito,
não acompanhei a marcha
dos indignados!
Estava já tão fraca,
desiludida, aturdida!
Admito,
estando eu esangue
quando nos chuparam
com colossais impostos,
não desci as escadas,
tão fracas estavam as pernas,
para lhes atirar pedras,
e morri,
fazendo um grande favor
a mim
e ao país,
que de cobardes está farto!

A NOSSA SALA

José Gonzalez Collado

 A NOSSA SALA

A nossa sala
tinha uma cadeira de baloiço,
no canto
junto à janela!
Tinha choro, gargalhada,
vozes, demoras,
amoras em tarte enfeitada!
Tinha amor, tinha paciência,
almofadas coloridas,
maças vermelhas, cestos de verga,
com nozes e amêndoas!
Tinha crianças a correr,
chutos na bola,
passarada a chilrear,
na gaiola da varanda!
Tinha emoções, inquietações
revelações, verões,
nos adultos
e paços de magia!
Tinha arrojos, suspiros,
agressividade,
destroços,
sonhos,
e, uma lareira quente
confortando o fim do dia!
Tinha balões, tinha festas,
desejos, diálogos,
beijos,
mais beijos,
e, um luar,
que de repente
enchia as paredes vazias!
A nossa sala tinha um gato
que avançava cada noite,
a cerca desbotada!
Era mais um, na hora do café quente,
negro, perfumado,
dormindo sobre o tapete azul,
compondo também a sala!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

ANJOS


Collado
ANJOS

Os que falam dos anjos
dizem-nos etéreos,
com longas asas brancas,
os que eu conheço
são alarves,
gostam de banquetear-se
nas tascas de Matosinhos,
mastigando bocas de sapateira
regadas a cerveja preta!
Vivem à maneira humana,
comem com as mãos
fatias de carne picante
molhadas em canela e mel!
Tocam guitarra acústica
frente a portas antigas
que dão para escadarias
onde se sentam raparigas
anafadas!
Amarram o cabelo
Com fitas coloridas,
e divertem-se de uma forma
comezinha,
atirando piropos brejeiros
às vizinhas!
Trabalham em oficinas escuras
e no fim do dia, cansados
não regressam logo
às suas casas
de bairro sujo,
visitam velhos sós,
lavam-nos com lavanda,
vestem-lhes roupas passadas,
dão-lhes à boca
uma sopa quente!
Os velhos comovidos
Agradecem:
Até amanhã, Anjos!

Maria Olinda Sol

RUA MORIBUNDA

Joaquim Durão


RUA MORIBUNDA

Rua estreita
com fachadas esfareladas,
deserta de sentimentos
onde estão as vendedeiras
de violetas?
Quem te quis abandonada
de lojas fechadas
e ausência de gente?
Os poetas ainda passam
por esta rua esquecida
recitando baixinho poemas!
Os namorados tardios
beijam-se às escancaradas
perdidos nesta ruela,
encaixam bem os poemas!
As velhotas debruçadas
nas janelas enferrujadas,
abrem a madrugada
e enxugam devagarinho
o orvalho preso nelas!
Os raros catraios
reguilas, espevitados,
roubam, da frutaria triste,
as maçãs,
que não têm em casa!
A vida é processada
nesta rotina parada,
diária,
as nossas velhas sentadas,
em decadentes esplanadas
tentam que a vida sorria
nesta rua que se apaga!

terça-feira, 8 de maio de 2012

COMER

Óleo de José González Collado

COMER

Vou comer
rodelas de beringela,
frita em azeite e alho
e ainda um prato inédito:
frango molhado em mel!
Sinto um certo embaraço
ao continuar a desfiar
o meu prazer de comer,
mas vou acrescentando ao repasto
uma mão cheia de morangos
e figos regados por moscatel!
Esta coisa simples que é comer
pode ser algo grande:
a vida em transformação,
o namoro começado,
morta a fome,
saciado o desejo!

TRIBUTO AO 25 DE ABRIL


pintura de Fernanda das Neves
TRIBUTO AO 25 DE ABRIL

Nem a chuva tem já força
para te chorar, Abril !
Este tempo de chumbo,
de ignorância política,
de gritos pesados
e de silêncios globais,
não tendo a Pátria meios
para dominar o nojo
que é limpar o cu à Europa,
velha, gorda, doente!
Que tempo é este
que nos esgota
em novos despejos
e incidentes estranhos
com polícias armados!
Há um cheiro bafiento
erguendo - se da tumba do medo
vergando - nos até à chibata!
A Primavera tão fria
não traz o pão para a mesa,
a angústia penetra até ao umbigo,
os erros sucedem - se
fechando o portal da liberdade!
Não,
não cortem as raízes dos sonhos,
não destruam os recursos da esperança,
não desfigurem este país:
facho, luzeiro, lua,
caravela, nau, marinheiro,
mundo novo, mar presente,
namorados ensaiando
um beijo cheio.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Ministro e o Cão

Cristóvão de Morais (actividade c.1551-73)

O Ministro e o Cão 

Qualquer ministro,
que creio ser gente,
sentado na gloriosa cadeira do poder,
não lhe dói a gente
que é a sua gente !
O cão que não é gente,
olha o ministro como gente
e lambe-lhe a mão!
Moral  da história:
Se me é dada a escolha
prefiro o cão!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

ENCONTRO

J. González Collado
Telefonas-me tu?
Telefono-te eu!
O encontro é às três!
Quem sabe?
Talvez!
Partilhámos o universo
num grande e sentido
abraço,
apertamos as mãos frias
neste calor repartido!
Que é feito dos teus?
E dos meus, também!
Tudo bem por agora!
Olha o chá que arrefece,
as bolachas de amêndoa
e canela,
há muito que esperam,
na mesa posta, da festa!
Que lindo que é o vestido
que trazes hoje contigo!
O vento amainou
o dia emudeceu
e horas incertas
alguém as levou!

O TEU CASACO

J. González Collado
Tenho tanto frio amor,
neste Outono molhado,
deixa-me, por favor, enrolar no teu casaco,
respirar no teu calor!
É de tweed cinzento
e aquece este momento
num forte e longo abraço,
num querer-nos assim tanto
ligados pelo casaco!!
E eu guardo para mim
esta sensação tão boa,
de sermos um
sendo nós dois,
no umbral de uma portada,
debaixo do mesmo casaco,
numa fria madrugada!
Ligados pelo casaco
numa fria madrugada!

NAS PALMAS DA MINHA MÃO

J. González Collado
Nas palmas da minha mão
as rosas estavam desfeitas
perdida a sua cor rubra,
não deixaram a sua marca
na nossa rua deserta!
Ficaram cem pinheiros mansos,
cem abetos doridos,
cem proteas brancas, tristes
enfeitando cem pontes de lua,
no espaço dos dias breves
que encheram as nossas vidas!
A lua cai devagar
na curva do horizonte,
trocando este lugar
por terras virgens, distantes,
com novas janelas nos sonhos
e frutos pendurados na neblina!

NASCIMENTO

J. González Collado
Nasce um verso de citrinos
e cordas em novas guitarras,
nasce um beijo em cada esquina
e ondas a oferecer poemas!
Ressurgem alquimias antigas,
em vasos contemporâneos,
pintadas por uma fada,
com palavras libertadas!
Abrem-se portas fechadas
a cavalos lusitanos
que oferecem no olhar
Primaveras despertadas!
Num jardim adormecido
em cestos de sonhos reais
nascem as rosas, os lírios
e ainda alguns sorrisos
com pétalas de madre – pérola
que se ofertam
a quem os quiser aceitar!

PAISAGEM SENTIMENTAL

J. González Colado
Rios de suor
leme em lume
cais onde o lodo reveste
qualquer desejo perene,
o barlavento assustado
e o gado desassossegado
neste fim do mundo
ausente,
águas salobras
que afectam os narcisos
gritos de uma voz desasada,
quilhas de barcos do tempo,
relógios de sol parados,
gargantas sequiosas
nos espaços inacabados,
destinos densos,
sílabas encadeadas
em amores finados,
frutos com lábios magoados,
cavernas abandonadas,
facas, gumes, queixumes,
poemas, livros, estantes,
e cada vez mais distante
o amor que se sentiu um dia!
Demónios mordidos,
vampiros caídos,
loucuras pensadas,
preces, risos e terços
presos em cada sermão
na triste procissão
do Senhor dos Aflitos!
Siso, choro e lamento
em ais de cais esquecidos,
filhos de um tempo esgotado
num estendal dependurado
nos quatro cantos do medo!
Momentos únicos do ano,
muros sentados na vida,
arpões, peixes castrados,
pátrias de bocas safadas,
monções, recordações,
porões, aleijões,
no adeus desesperado,
sem sentido e sem passado
ao amor que deixou de ser sagrado!

Maria Olinda Sol

sábado, 30 de abril de 2011

DIA PERFEITO

J. González Collado

O dia era perfeito
a festa era a esperada:
anões, duendes, adivinhos,
feirantes, curandeiros, amantes,
e, um terreiro de turbantes
cantando a cidade esquecida!
Depois de muito comer:
frango, enchidos e pão,
depois de muito beber:
palhete, água-pé, e tragos de água ardente
de medronho,
sentamo-nos nos regaços
e demo-nos abraços onde cabia o nosso mundo!
Nos teus alongados braços
companheiro, esteios de milho e sargaço
construi neles a vida
e fiz lá a minha casa
ninho onde se esquece o cansaço!
Ai surpresa de fim de tarde
olhando estrelas cadentes
que riscam o céu de luz,
em hora de aroma a cravo
espalharam-se mil brilhantes
nos cabelos do Atlântico
e confirmaram o ditado
“Todo o amor é ardente”!

FEIRA DA MINHA INFÂNCIA

J. González Collado

A feira da gente da minha aldeia
era à segunda-feira!
O Domingo prolongava-se
num ritual atarefado –
- separar a roupa da arca:
saia de merino preto,
a blusa de chita florida,
o lenço verde estampado,
afagando o cabelo negro
apanhado com ganchos de osso
dourados,
a chinela de tacão
e uma saca de pano bordada
à mão!
O dinheiro não chegava
para a carreira,
ia-se a pé,
em ranchadas
de belas candidatas a namoradas!
Pelo caminho
cantava-se ao desafio
canções de trabalho
suadas!
Comprava-se o que as leiras
não davam:
o bacorinho, o vitelinho
as fazendas para o bragal,
o enxoval de mancebo
que ia a sortes
naquele ano,
os ouros
para as moças casadoiras,
os docinhos de amor
repartidos ao serão!
Os cheiros inebriavam:
fruta, melaço,
o borbulhar da solha frita,
as ervas de cheiro
escolhidas a dedo,
os chás de camomila e cidreira!
Uma leve troca de olhos
anunciava
companhia para a caminhada,
o rapaz com grande lábia
declarava-se
com frases muito alinhadas!
O fim da festa era triste
e cansado
terminado o sonho
que levou uma semana inteira
a encenar!

PEQUENO-ALMOÇO DE DOMINGO

J. González Collado

O Domingo era de amoras,
dispostas por sobre a mesa,
numa geleia gelada,
barrando a fatia escura,
do pão cozido de madrugada!
O leite quente aguçava
a vontade de provar
aquela brancura perfumada
com canela e
pedaços de maça!
O queijo salgado de cabra
rescendia,
em tosta estaladiça,
preparando o paladar
para os figos
pingo de mel,
servidos com o orvalho
da manhã!
O cheiro a café era intenso
caindo de um saco surreal
e as dores morriam
no repasto matinal!
E a família reunida
deitada nesta ternura
fazia parar o tempo
e dava graças à ventura
de poder saborear
esta refeição divinal!

TOADA

Patrícia Filardi



Rezo neste dia cinzento
a todos os fiéis sentimentos
que atravessaram espadas
que conquistaram o mundo
e acabaram em mansardas
no fim do esquecimento!
Vencidos os oceanos
com baionetes em riste,
as negras desenlaçavam suas vestes
garridas,
lentamente,
caindo na areia molhada,
em ritmo de batucada,
e acordes de fados tristes!
Beijos chorados,
mãos cravadas,
bocas acorrentadas,
amores frustados,
e o desejo saciado
ficou naquele bocado
duma praia do Nordeste!

QUERER

Entre dois sorvos de café,
o instante que estava à espera,
ali ao pé,
de algo incandescente,
ficou-se por um tímido sorriso
e pensou que era melhor
ter juízo,
e deixar as tentações
amarradas  a estrofes de poesia!
Mas o querer engenhoso
entrou pelo peito dentro
e fez finca pé,
deitou – se no meu sono
e fez – me sonhar contigo!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

MOMENTO

JOSEFA GALHANO
in:http://salaodaprimaverade2011.blogspot.com/


 
Neste silêncio de gaivotas feridas,
penso o teu rosto vestido de amoras,
em Verões escaldantes
da nossa infância acostada
a cais de navios ausentes!
Eram longos os estios,
os pés enterravam – se nas veigas,
brotando uma frescura que acalmava
corpos e ancestrais nogueiras!
À tardinha esgotados,
baloiçávamos na vontade de partir!
O ruído das cigarras cantadeiras
ensurdecia os ouvidos,
os campos em delírio,
ofereciam trigo maduro
molhado em compota de maçã!
Tudo ficava retido
em momentos únicos
de serões prolongados
que eram contados e recontados
por todos nós!
Á noite as camas de ferro,
cobertas com liteiros de trapo,
apagavam os cansaços,
tudo ficava calado,
e por fim calmamente, adormecia!

terça-feira, 29 de junho de 2010

BARCO NEGREIRO

Albano Neves e Sousa
in:http://vieiraportuense.blogspot.com/

Porque existo
numa terra cobiçada,
África ardente,
ofertando ouro, marfim,
malagueta e mão de obra,
fui arrastado da minha casa,
acorrentado, vergastado,
metido à força
dentro de um navio
negreiro!
Às pressas e sem compaixão,
num dia malfadado,
soube o que era um porão,
apinhado de negros escravos,
onde faltava tudo
até o pão !
Fui humilhado por tudo e por nada,
vi morrer à minha frente
gente desesperada!
Num silêncio amordaçado
fui levado par uma terra distante,
muito pouco abundante,
onde me fizeram criado,
de um fidalgo malcriado!
Vi - me de boca e coração atado,
onde até me foi negado
esse direito de amar!
Separei roupa,
coloquei cabeleiras encaracoladas,
em cabeças tresloucadas,
encerei bigodes claros
de finórios,
calcei meias e sapatos,
e ainda outros artefactos
de cavaleiro falhado,
antes de entrar na caleche
com que passeava no Chiado!
E à noite de mansinho ,eu,
tocava batuque baixinho,
era tudo o que me restava,
da minha terra amada!
Mas a força da batida
entoava e marcava
a história da escravatura!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

DESCOBERTA DO BRASIL

ALBERTO D'ASSUMPÇÃO
in:http://pontesluso-galaicas.blogspot.com/
Eram marinheiros alentados
de cabelos compridos
e olhos claros,
partiram de Belém,
arregimentados, por vezes à força,
para carregar na úbere Índia
mil açafates de especiarias
e todas as magias sonhadas
em madrugadas pardas
de dias amanhecendo nevoeiro!
Num dia venturoso de 1500
arrastados por ventos alísios
e ainda alguns avisos
de adamastores e outros torpores,
viram terra mais cedo que o previsto!
Homens despidos , pintados
e armados de arcos e setas,
com ruídos guturais agudos,
saudaram as lusas naus,
e ofertam papagaios e algum ouro
para selar o tesouro
de futuras trocas e baldrocas!
Esses marinheiros matreiros,
recolheram as ofertas
para as apresentar no regresso
com o preciso espavento
a El-Rei D. Manuel I
E dali seguiram o seu destino
depois de baptizar a terra ardente
de seu nome Vera Cruz,
passando à frente,
rodeando o oceano,
meteram o barco nas rotas
que os haviam de levar a Calecute!
Comandava a frota Pedro Álvares Cabral
que dali partiu com alento
para trazer do Oriente
naus carregadas com pimenta
e canela,
pérolas brancas e frias,
sedas coloridas e porcelanas finas,
perfumes com asas de vento,
chás e outras infusões
que nas solidões das venturosas viagens
aquecerem mil e um corações!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PAISAGEM


Mari Carmen Calviño
in: http://oleoetela.blogspot.com/
No perfume da ventania
levanta–se um inconfundível aroma
a maresia banhada em Natal!
Caem as pinhas chorosas,
parindo pinhões
em rabanadas de gritos,
que naqueles terrenos arenosos,
se enterram aflitos!
Os pássaros lavam -lhes os gritos
o oceano as emoções
e o olhar do mar
em histeria,
condena aquele dia
de paisagens ganhas,
a pátios encantados,
adoçados em vinho e mel!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

MULHER QUOTIDIANA

JOSÉ GONZÁLEZ COLLADO

Sobes a rua cansada,
numa toada apressada,
sacos em ambas as mãos,
nem ouves os palavrões,
dos guardiães do teu bairro!
Medem – te a coxa que balança,
o gingar que embala a dança,
o olhar terno
de seres ainda criança
escrita em letra de fado!
Por piedade,
tréguas nesta cidade,
chega a casa é o leite que falta,
é imperioso lavar a manta,
o fogão já desespera,
para o jantar cozinhar!
Que lindo é o travesseiro,
apara as dores da alma
e dá – lhe alguma calma,
para poder namorar!
Ergue um copo de vinho
bebido de um trago só,
esta noite o quotidiano
não a esmagará!
Colar – se - à a lua
enquanto beberica caldos,
esquentados em fogueiras
que de outra maneira
estariam apagadas!
Arde – lhe o peito
bordado de pássaros,
arena silenciosa
onde cabem todos os desejos!

domingo, 23 de maio de 2010

VAZIO

LENA GAL
in: http://ajudacomarte.blogspot.com/
Neste vazio vertical
vergo a raiva
e apago olhos sem cor!
Ás vezes é difícil dizer:
preciso de ti, hoje!
O nevoeiro ancestral
invade a alma cansada
que não vê acenos de mão
ao passar,devagar!
Não sente abraços lilás
e beijos azuis!
Quantas vezes é o chorar
que abriga o nosso respirar!
Relampejam foguetes
ao longe
num céu boreal
quente,
mas ausente de Picassos!
É um vazio
de querer o mundo
com gaivotas inventadas,
e alfabetos
desenhando aleluias
nos nossos rostos!
Um olhar solitário no horizonte
tentando salpicá - lo de perfumadas açucenas!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

SILÊNCIO


in: http://victorsilvabarros.blogspot.com/
No silêncio nos ouvimos
meu amor,
no Oriente dos nossos afectos,
concretos, discretos,
sem factos para nos distrair!
E eis os poetas renascidos
nos nossos gestos de ternura,
rufando tambores sem medos!
Lutámos contra os filhos de cabra
magra,
arremessando pragas
bradadas
com veemência,
contra quem nos quer ferir!
Subindo desde o umbigo
vai a força e o baraço
que há – de fazer o laço
que unirá tudo que em nós
faz sentido!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

NOITE

Carlos Dugos
in:http://eaobranasce.blogspot.com/
Naquele bar esconso,
um olhar exangue,
vestido de negro e vermelho,
está sempre pronto a vender – se
em laçadas e copos turvos de álcool!
Mãos de lama e trevas
ousam tocar um corpo redondo
numa luxuriante fogueira
saciada em qualquer portal!
Não dás por nada
em cima de altos tacões,
apertada por infindas ilusões,
velada com máscara de Carnaval!
A vida vai a correr
ao redor de outros desejos,
num palco lavado
e pensado
para seres actriz principal!
A herança deita - a fora,
respira um ar enfeitado
e faz uma roda
com as mãos
que não compram num guiché,
para um momento,
um amor de vintém,
mas a luz que conduz
a outras salas, outras horas!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Mendigos

Ignácio Hábrika

MENDIGOS
São mendigos de olhar gasto
numa cidade fugidia
pedem para tudo e para nada
na sua vida emprestada!
Quem saciará tal fome,
quem calará tanto frio,
quem embalará o feitiço
de milhares de olhos
sem lugar de abrigo?
Percorrem as ruas barulhentas
em esgares ensaiados,
quem tem coração, quem tem,
quem me quer dar hoje
o pão?
Metem a moeda ao bolso
sem olharem ao desgosto
de uma partilha forçada!
Mendigos e loucos
que armas transportam
para as fogueiras,
a que algemas se querem acorrentar?

terça-feira, 11 de maio de 2010

SAUDADE

Carlos Dugos
in: http://eaobranasce.blogspot.com/


SAUDADE
Saúda,
há que saudar,
quem fica no cais de embarque,
olhos negros e doces
que choram
a entrada no veleiro
do seu amor,
empurrando um estranho nevoeiro!
Ai saudade tamanha,
presa em mãos suadas
que se alimentarão
de outras vertiginosas estradas!
Num subtil ramo de rosas,
vermelhas e perfumadas,
acabarão as saudades,
magoadas,
de uma vida inteira!
Prender - te à terra
num beijo,
é o meu desejo,
fogo de artificio
para festejar a última chegada!

domingo, 9 de maio de 2010

MULHER

Joaquim António, in "www.espacoloios.com
MULHER
Mulher ribeirinha
de passo cadenciado
ginga a anca larga
no seu passo apressado!
Os seios são um baloiço
cobiçado,
ondeante,
a caminho do mercado!
Galga a viela estreita,
anunciando os frutos
sumarentos e coloridos,
confundindo sentidos!
Terno é o seu olhar
quando abraça o rio
barrento,
junto a um cais barulhento,
com inventados marinheiros
e desejadas partidas!

domingo, 14 de março de 2010

A MINHA CIDADE

JAVIER NIETO VELASCO
in:http://salaodaprimaverade2011.blogspot.com/

A MINHA CIDADE
É de granito molhado
magoado pelas chuvadas
violentas
sedentas de frutos e arados!
Que estranho é este silêncio
dormente,
onde faltam correrias,
tacões que ficam
no empedrado da calçada!
Crianças que aos bandos
deixavam gritos
escritos
nas casas de ferro forjado
adornadas!
Pregões tarimbados em vozes
roucas
que de manhã teciam vida
a caminho dos velhos mercados!
Notícias que passavam
repetidamente no fundo da Avenida,
enquanto se tomava um café
ali ao pé ,no mítico Guarani!
Nota – se uma certa tristeza
nesta cidade negra
esperando melhor sorte,
outro Norte!

VIDA

PACO RAMOS
in:http://artistasgalegosnoporto.blogspot.com/

Espalha – se pela cidade
em muros brancos e vazios
onde loucos escrevem as suas histórias!
São Grafitis, Banda Desenhada,
Poemas, Mensagens,
em tarjetas:
Amo – te Ana!
Pela calada da noite,
o tempo gasta – se em beijos molhados
dados ou vendidos
em bocas loucas
que param em cada esquina
para reinventar - se!
De bares esconsos
saltam seios de decotes
indecentes,
gasta – se em cada copo
alguns medos
e contam – se segredos
outrora fechados!
Já cansados
penduram no trinco das portas
os sonhos
e os ponteiros do relógio,
e tudo volta a ser igual
no dissipar do nevoeiro matinal!

DONA RITA

CARMEN SEVILLANO ESTREMERA
in:http://artistasgalegosnoporto.blogspot.com/

Dona Rita
brinca , sentada no infinito da bruma
onde um cabelo loiro ondulante,
balança na dança do tempo,
e pensa sobre um planalto,
desenhando olhares errantes,
num livro de histórias sentidas!
Princesa galesa
que ficou presa
sem querer
neste druida lugar!
Estranho são olhos azuis
a mordiscar selvagens cerejas
em dias de menires
homenageando deuses
extintos!
Naquela montanha estranha
erguem – se vulcões
nos lumbagos de cavalos
fazendo filas ao longe
para iluminar a cidade!

domingo, 24 de janeiro de 2010

IR POR AÍ



FERNANDO SIMÕES
in:http://salaodaprimaverade2011.blogspot.com/

Por aí eu quero ir
em naves com asas
fazendo voos rasos
nas paisagens espelhadas
nos olhos da vida!
Por aí eu quero ir
antes de cada Verão,

dia sim , dia não,
comer o pão de centeio
embebido em azeite
e mãos fermentadas
pelas horas,
servidas em taças de poesia!
Por aí é que eu quero ir
com canções que florescem
nos cantos nus das cidades,
toadas nos vãos das escadas
fabricando fogueiras
onde antes havia gritos aflitos!
Por aí é que eu vou
criando outros compromissos
em mesas de Domingo Pascal!