quinta-feira, 4 de julho de 2013

PRETENSÃO


Victor Silva Barros
PRETENSÃO

É a ti que eu quero
neste dia de névoas cinzentas
com trovoadas nos olhos!
É a ti que eu quero
para fazermos um altar
a Santa Maria
onde vou rezar noite e dia
para serem levados daqui
os diabos de lábios rachados,
deitados nas arestas deste país
hoje e ontem adiado!
É a ti que eu quero
para esganar as palavras,
sempre as mesmas,
dos políticos de pacotilha
com cursos a tiracolo,
e ideias perdidas em nicotina!
É a ti que eu quero
presente na minha casa
quando este povo manso
descobrir
que faz mais e melhor
sem as gamelas costumeiras
sem as mentiras urdideiras
sem os tiros certeiros
dos coveiros
que nos querem enterrar!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

UM DIA MAU


Carlos Dugos


UM DIA MAU

O bar fechou,
o dia findou,
a dor não acalmou!
Sento-me ao frio,
enrolado numa escada
e pergunto porquê,
antes que a tristeza me liquide!
O tempo é escuro,
as montras iluminadas
dão algum brilho
à sórdida e suja viela!
Passa gingando a mulher
saída de um canto qualquer,
os tacões rangem na calçada,
a bolsa balança
acompanhando o ritmado passo!
Boca vermelha a provocar,
chispas de escândalo no olhar,
sem querer roubo-lhe um beijo!
A rua estava deserta,
faz-se ali alcova, leito!
A dor terminou,
o dia amansou
a vida continuou!

terça-feira, 18 de junho de 2013

RELÓGIO


RELÓGIO

O relógio é sempre o mesmo,
grande, imenso,
empurrando o tempo,
empurrando a vida!
Acorda esta casa,
impreterivelmente,
às sete horas, TMG,
sem dó, nem piedade!
Não tem em conta
este sono mal resolvido,
o travesseiro que agarra,
a tua mão que afaga!
Os ponteiros negros,
espetados,
estão sempre tão apressados
de chegar ao outro dia!
Pelo toque do relógio
sou lançada
no mundo robotizado,
onde tudo tem hora certa!
Poder parar o relógio,
rasgar todas as fronteiras,
e almoçar com decência,
neste dia, de Primavera, molhado!
Saciar, devagar, a fome,
nas brumas do nevoeiro,
sentado nas varandas do rio,
deste denso Porto velho!

FLASH


José Eliseu, in: 2pintaroporto.blogspot.pt 
FLASH

Do outro lado da avenida
um homem estranho,
atarefado,
acenava
e eu respondia sorrindo!
Entre ele e eu
não havia só a distância de uma rua
mas toda a distância do desconhecimento
e no entretanto eu sorria!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

PORTUGAL


Alberto D'Assumpção, in: http://dassumpcao.blogspot.pt/
PORTUGAL

Por detrás da perra canela
perfilhado no fundo da Europa,
guerreiro ancestral
sem viseira,
ingenuamente deixando-se
imolar,
por quem vê em nós
mais dez milhões de consumidores!
Envolvido pela neblina
que sopra dos mares dos Açores,
não respira a solidariedade
de quem semeia atoleiros
que não queríamos cá!
Que feio pormo-nos de joelhos
diante do capital!
Sugam-nos, de olhos cerrados,
os proventos tão suados
da jornada laboral!
Tomam decisões,
discutem, opinam,
não explicam porque nos empobrecem
do alto da sua sabedoria
liberal!
Avança a fome
servida em pratos de cristal,
desinfectados,
inspecionados,
visionados,
pelas normas do mercado global!
Pugnemos pelo nosso direito
a carne de porco preto
tostada em brasa quente!
Canecas de cerveja fresca
passando de mão em mão!
Somos filhos de Deus,
queremos cordeiro assado
com batatas e hortelã,
tarte de nozes e coco,
escolas com gerânios à janela,
professores pulando nos recreios,
operários laborando pela manhã!
Venha o mundo novo,
outros dirigentes,
outras leis
e um povo pensador
empunhando liberdade
nas bandeiras desfraldadas
gritando nas janelas de cada casa!

SAUDADE



Saudade
O meu avô
tinha umas mãos grandes
que aqueciam as minhas
nas manhãs de Outono
quando subíamos ao pinhal
para colher as últimas amoras,
matéria prima
da compota doce, escura,
pegajosa,
que barrava generosamente
o pão amargo de centeio!
Tinha curiosidade,
eu um pequeno fedelho,
em relação a tudo:
o cheiro molhado da terra,
o arado a rasgar a leira,
o chilrear da passarada,
a água a correr na caneja!
Enquanto se desviava a água
para a rega,
brincava com o relógio de bolso,
do avô Manel,
adiantava os ponteiros
para que chegasse depressa
a merenda!
Numa toalha improvisada de folhas,
retirava-se da cesta de verga:
pão, azeitonas, tiras de presunto
e um pichel de vinho tinto!
No fim do dia, cansada,
os meus braços ainda transportavam
as azedas,
com que a minha avó fazia a açorda
para a ceia!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

RETRATO DE FAMÍLIA



RETRATO DE FAMÍLIA

A minha mãe
quer de Verão
quer de Inverno
acordava cedo!
Os Invernos eram longos,
escuros, frios,
ela sentada na cama
aquecia as mãos
nas agulhas de tricot
com que compunha
malha a malha
as camisolas que nos confortavam
a caminho da escola!
O meu pai, calado,
de manhã cedo
lia o jornal diário
enquanto bebia o café quente
texturado com gema de ovo!
À noite era a reunião geral
todos sentados à mesa
em redor da panela velha!
Rescendia a sopa
de abóbora, cebola e alho
e alguma couve galega!
O prato principal
era muitas vezes:
bacalhau à espanhola
em lascas,
alternadas com cebola,
alho e salsa
e algum colorau,
tudo regado a preceito
com azeite transmontano
e um copo de vinho branco
americano!
Ficava por aí o repasto
o que vinha a seguir
era mais chato,
lavar a loiça
com esfregão e sabão,
rezar o terço,
lentamente,
repetidamente,
sem perceber muito bem
a função da lenga lenga
que nos fazia abrir a boca
de pasmo!

MISERERE DEI


Lima de Freitas, in: http://artexmultipla.blogspot.pt/
MISERERE DEI

Foi anunciado
com alguma pompa
e circunstância,
em todos os jornais,
com letras garrafais:
viragem política,
ou seria voragem?,
o PSD ganhou as eleições!
Miserere Dei!
Perdeu-se o futuro
começou a destruição
de um país fragilizado,
querendo muito encontrar soluções!
Miserere Dei!
Tudo, segundo consta,
programado
por economistas iluminados,
neo liberais,
político europeístas convictos,
desejosos de um cadinho
para experimentar
a eliminação do Estado Social!
Miserere Dei!
Estávamos aqui em sossego,
expectante,
numa ajuda fraterna,
sem darmos por isso,
puseram-nos o açaime,
arrastaram-nos para o abismo,
esperando dar o pontapé final!
Miserere Dei!
Não há pão
para pôr na mesa,
nem trabalho
onde o ganhar,
os velhos em soluços
encostam-se aos muros,
temem que a esmola
mingue cada vez mais!
Miserere Dei!
Quanto tempo durará o degredo,
o apocalipse do medo,
o susto,
a pobreza?
Miserere Dei!
O que será preciso
para nos livrar da carraça
que nos dá bem que coçar!
Miserere Dei!
Portugal é um campo de batalha,
as nossas armas o grito,
a praça pública o eco
da nossa inquietação!
Miserere Dei!
Que filosofia política é esta,
cheira a bafio,
não é esta a Europa que queríamos,
da solidariedade fraterna!
Miserere Dei!
Anjos da Guarda nos acompanhem
e se Deus não ajudar,
não atrapalhe ao menos
os encontros ao luar,
a esperança que ainda temos!
Miserere Dei!
Geração das lousas e ardósias,
que viram os dois lados da vida,
inventem uma nova História
sem vendilhões,
antes que nos esmaguem
com o peso das suas botas cardadas!
Miserere Dei!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

RETRATO DE UM POETA



RETRATO DE UM POETA

Luís Miguel Espinosa
auto intitulado poeta,
escrevia a sua poesia
à noitinha!
As palavras cruzavam-se,
interligavam-se,
dançavam na sua cabeça
e desciam pelos dedos,
falando de amor
ou de vidas,
conforme os dias!
Quando os políticos decadentes,
delirantes, caducos,
se perfilhavam alinhados
diante das câmaras televisivas,
em prime time,
o poeta, fodido,
empunhava a sua esferográfica Bic
e intervinha,
desmascarando cada mentira,
omissão, corrupção,
desses interesseiros, matreiros,
que nos empurram para o abismo!
Da Europa cega
e sem visão
recusava-se a falar,
mas, crucificava os agiotas
que, sentados em estofos de couro,
no décimo sétimo andar
em Wall Street, condenam países inteiros
à subsistência
enquanto enchem os bolsos
dos seus fatos Armani!
O povo, caro poeta,
anda cabisbaixo,
mas o futuro é tão grande
que congregará novas vontades
reescrevendo a História!
E acabaremos todos
os escrevinhadores de poesia,
diante da mesa colorida
da Democracia
onde o herói é Luís Miguel Espinosa,
dando voz ou vida
aos versos de intervenção!

AGUARELA


João Marrocos, in: http://2pintaroporto.blogspot.pt/

AGUARELA

Da Ribeira de Gaia
vê-se o mar
e madrugadas amanhecidas
em maresia!
O Zé Espichel anuncia,
em voz nasalada,
tardes sentadas na esplanada,
envolvendo pataniscas
e vinho verde Espadal!
Na esquina da rua ribeirinha,
a velha esquecida, vende doces,
em pregões cansados,
a turistas atarefados,
retendo tudo em fotografias!
Os barcos rabelos,
apressados,
sobem e descem o rio,
suspensos na maré alta
contemplando a cascata
que emerge do outro lado!
O vinho bebe-se depois
em copos de pé esguio,
ao som do pio das gaivotas
bordejando a água de ouro!
E um par de namorados
vende flores de pano
aos navegantes modernos
que enchem os velhos arcos!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

HOJE



HOJE

Neste tempo de durezas
puseste uma gravata cinza,
camisa branca,
sapatos de verniz,
calça justa, bem vincada!
Criaste uma atmosfera rara,
lúcida, brilhante
e tudo cheirava a jasmim!
Curvaste-te devagar,
e colheste no jardim
uma rosa vermelha
que ajustaste à lapela!
Pensaste que assim polido
terias o meu amor,
mas, ninguém o obtém,
sem suor,
sem tormentos,
sem madrugadas sofridas!
São precisas manhãs encarnadas,
rios de vidro,
potes escurecidos com vinho,
fermento,
margens de desejo
e poesia!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

DESCONHECIMENTO



DESCONHECIMENTO

Há lugares em ti que desconheço,
aros de festas, cilíndricos,
onda de festas para nós,
palavras escapadas sem inocência
que derrubam sem recurso
altares de egos frágeis,
não convencionais,
sentenciando hibernação,
deixando de adorar-se
os deuses construídos pelas nossas mãos!
Nestes momentos difíceis
há um campo imenso
as macieiras floridas,
os mirtilos negros,
as roseiras por podar!
O fogo da lareira,
a trepidação da lenha,
uma menina suspirando,
uma chávena de chá quente, aromático!
O luar que entra
para voltar todos os sonhos
ainda por concretizar!

NUMA NOITE



NUMA NOITE

A noite cai
a penumbra aparece,
o silêncio desce
nos degraus do teu corpo
que é mortal,
com uma vontade imortal
de redimir todos os pecados!
As nossas mãos
são tantas mãos
a conhecer-se do avesso,
nada se repete,
nesta noite intensa
em que o meu é teu
e o teu é meu!
O longo abraço
não é amarra do braço
que toca o meu!
Cruzam-se os olhares
percorrendo a paisagem do quarto
demasiado pequeno
para conter as emoções!
A lua esconde-se,
a noite dissipa-se,
estamos sozinhos
diante da eternidade!

domingo, 14 de abril de 2013

DISCURSO



DISCURSO


Não estou vergada
mas perturbada,
com as palavras de alguém,
algures!
Enrolam-se,
ficam presas
em mentiras públicas
e vícios privados
sem exercerem a sua função!
Correm indiferentes,
ao mal que fazem,
narrativas fúteis!
Centenas de pessoas,
rua acima, rua abaixo,
nesta tristeza muda
de nem saberem
que perderam o futuro!
Beba-se o café quente,
trinque-se as torradas,
alinhem com a doçura do açúcar!
O bocejo é difuso
nem infiltra a inutilidade
da verborreia politiqueira!
Ridículos são os discursos,
com palavras que não se entendem,
ausência de ideias,
propostas nulas,
e nós?
Gastos, apáticos
sentados, adormecidos,
que pena!
Vagamente querendo,
com pouca força,
uma milagrosa mudança!

terça-feira, 9 de abril de 2013

NATUREZA MORTA



NATUREZA MORTA

O prato era branco,
quadrado,
grande,
debruado a azul cobalto!
Bem no centro,
brilhava a ostra,
rugosa,
cheirando a mar!
E perguntei-me:
que raio faz esta ostra,
no centro,
de um prato vazio
cheirando a mar?
Comi a ostra
e o mar
inundou a minha boca,
e eu fui marinheiro,
barco, tempestade,
cantador do futuro!
Procurei soluções,
escorracei ladrões,
planeei caminhos
para este país falido,
em redor de um prato branco
com uma ostra rugosa,
no centro,
cheirando a mar!

PORTO




PORTO

A cidade nasceu,
granítica,
e, depois acordou
com vasos de sardinheiras,
inventadas,
colocadas, sabe-se lá,
por quem,
nas sacadas
de ferro forjado!
Os passantes misteriosos
segredavam-lhe ao ouvido:
como és bela
sobressaindo do nevoeiro
que se vai soltando do rio!
À cidade agradava-lhe,
a leitura de um livro,
de Camilo,
estar numa sala de cinema,
animada,
e, ter casais de namorados,
em janelas enfeitadas,
abraçados pela ténue madrugada!
O cais embalado,
pela agitação da água,
os rabelos coloridos,
e os copos de vinho do Porto
vazios,
depois de saciadas as bocas!

MANHÃ NO RIO


MANHÃ NO RIO

As gaivotas bojudas
deixam as margens do rio,
agastadas,
vêm junto das tendas montadas
comer as migalhas
que vão caindo!
O sol depois da chuva
brilha,
dá cor aos balões festivos,
que as crianças levam
nas suas pequenas mãos!
A tua Kodak
ajusta com pormenor
um momento terno!
O teu sorriso, hoje,
é gratuito, dizendo esperança,
no colo dobrado do mundo!
Sentado no parapeito
da janela, Dona Elisa,
ajusta um bule
de chá de laranja e canela,
como gente,
acompanhado de fogaça
torrada com manteiga!
Dia azul, este,
sem sacrifícios,
morrendo, sem penas,
no poente do Atlântico!

RIMAS


RIMAS

Amor rima com dor,
mar com mergulhar,
a tua mão com luar,
um beijo com a minha boca!
Neste doce balançar,
nos dias de dizer sim,
ai amor não sei-te amar,
se o telefone não toca!
É inútil lamentar
as lágrimas que cada um chora,
se o tema é amar,
não é errado chorar!
Telúrico é o gostar
na noite de sufocar,
umas luzes a apagar,
o lobo a uivar,
na floresta inventada
em frente desta vidraça!

VESTIDO DE DOMINGO




VESTIDO DE DOMINGO

Que lindo é o meu vestido
de ir à Missa ao Domingo!
Tem pintinhas encarnadas,
gargalhadas espontâneas
e salpicos de primavera!
Faz balão,
mostra as pernas!
E os rapazes marotos
rodopiam,
à volta do vestido
que estremece
diante da perspectiva
de se rasgar!
Nunca é demais lembrar
que a mãe o fez com carinho
nos longos serões,
de inverno,
com linhas de amor-perfeito!
Entro na igreja,
ajoelho,
não há nada que eu veja,
só existe o rodopio do vestido,

na exaltação do domingo!