terça-feira, 25 de outubro de 2016

VIAGEM AO INTERIOR DE NÓS

Júlio Capela

VIAGEM AO INTERIOR DE NÓS

Tudo acordou brilhante
o céu, as árvores, nós.
O rio Douro corria
mais abaixo
e os barcos deslizando
diziam-nos adeus.
De mãos dadas
queríamos ser um só,
na leveza rara
de um dia mágico.
Celebrámos o amor
e soltámos de nós
para o cais silencioso
da Foz.

MAIS UM OUTONO

Agostinho da Silva

MAIS UM OUTONO

Desceu o frio
neste Outono humedecido,
torna-se a vida
tão mais breve,
o cinza da neblina acosta-se
e fica dormitando no meu colo.
As mãos escondem-se
na manta de lã,
as folhas cor da terra esvoaçam
e caem no alpendre devagar.
Os sonhos de época
são os mesmos
os filmes da rentré
candidatos ou não aos Óscares,
o lanhe na confeitaria da moda,
pratos com cogumelos e castanhas,
a vidraça da janela da sala
a filtrar o pulsar das gentes
apressadas
que passam lá fora.

RETRATO FALADO

Nuno Duque

RETRATO FALADO

Que grito
se encolhe na garganta,
Que pranto
se amarra no meu canto,
que boca
se desata e te alcança,
que medo
me envolve e me emperra.
Não prossigo, não corro
deitada na sombra
que o castanheiro derrama

CANTILENA

Collado

CANTILENA

Quando a vida
se levanta
nos ramos do meu jardim,
quase sou feliz.
quando as laranjas
espremidas
se erguem em espuma
no jarro verde,
herança pouca
deixada pela minha avó
quase vou
por estradas quase lume,
quase quase destino
lançando o que sou
em ti...

terça-feira, 18 de outubro de 2016

LÁGRIMAS

COLLADO

LÁGRIMAS  

Tremem e comprimem
os olhos já magoados,
pérolas escondidas
que na dor descaem.
Fios de alma libertando
simplesmente

a tristeza acumulada.

VERMELHO

COLLADO

VERMELHO  

Vermelho fogo,
brasa, brasido,
romã, toranja
laranja sanguínea,
amor, adoração,
paixão, perdão,
derrape, junção,
ardor, dor,
tempo ainda a tempo
de no arame correr

até à meta.

PORTO

COLLADO

PORTO  

O  Porto é um sotaque
agreste, semântico,
um cimbalino quente
na mesa de mármore
do café Progresso,
uma vendedeira ambulante
de avental e chinela
que numa frase vocifera
mais palavrões
que o comum dos mortais
a vida inteira.
O cauteleiro de voz rouca
na esquina de Sampaio Bruno
anunciando displicente:
amanhã anda a roda.
Uma francesinha picante,
generosa, aconchegante.
Um fino muito fresco
com espuma na garganta.
As raparigas afoitas
de tatuagens nos braços
com gargalhadas contidas
a rasgar-lhes a boca.
Uma nuvem granítica
espalhada sobre o Douro,
uma gaivota atrevida
voando para novas paragens.
Um labirinto de ruelas,
enxovais dependurados
em gastas janelas.
Garotos jogando à bola
descalços e atrevidos
levando pelo braço os turistas
a comer os petiscos

típicos do seu bairro.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

NORDESTE TRANSMONTANO

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NORDESTE TRANSMONTANO  

Sobrevive-se
nesta aldeia agreste
a norte de Portugal.
Por instinto,
por teimosia,
recomeça-se a vida
cada dia.
O solo é duro, seco,
trata-se a vinha,
limpa-se a amendoeira.
O governo em Lisboa
assobia para o lado,
não há investimento
nem rasgo
para fazer deste interior
um lugar sagrado.
Os cães ladram muito
são solidários,
na partilha da comida.
Escorraçam-se os atrevidos
querendo de graça
o pão suado.
Respira-se ar puro,
o futuro é incerto,
quem cá fica
está entre a burrice
e a vontade irrefreável
de fazer da serra
o paraíso.

PENSAMENTOS

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PENSAMENTOS  

O pensamento flui
rasante sobre a vida,
casamentos, nascimentos,
partidas, chegadas.
Sonhos realizados,
sonhos esvaídos,
banquetes deslumbrantes,
brinquedos desmanchados
no pátio da entrada.
Queixas sussurradas,
 a escola, o trabalho, os outros.
A saudade é um baque
socando o coração,
é difícil o equilíbrio
entre o que querer e a razão.

FALANDO

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FALANDO  

Fala-se de Deus,
fala-se de Fátima
postamo-nos ajoelhados,
no fim
só nos lembrámos
dos joelhos machucados

ESTE DIA TERÇA-FEIRA

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ESTE DIA TERÇA-FEIRA

Ergue-se no horizonte
um dia mais,
claro e limpo,
atravessado por uma luz
brilhante.
Traz consigo
uma fragrância a jasmim.
Eu aqui sentado
no banco rústico, de pedra,
presente no meu jardim.
Ergo-me e sou aquecido
por um forte raio de sol.
Que mais querer
que um dia lindo
e uma deslumbrante paisagem
mais imaginária que real.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

AMIGOS

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AMIGOS

Os amigos foram aparecendo,
raros, espaçados,
sentando-se sob a mesa,
servindo-se do  vinho branco seco
das torradas de azeite e alho.
Confiei nos amigos,
abri-lhes  as portas,
com o tempo mostraram-se
mais inimigos que amigos.
Agora sou eu e a minha casa,
de quando em vez um ou outro entra,
diz-se amigo do peito
e põe se a jeito para ficar.
Vai e não volta,
cada um na sua vida.
É cerrado o ciclo,
não me lembro já de muitos rostos.
Há sempre alguém que quer voltar
na ilusão de uma suposta partilha,
não os quero aprisionar,
alinho na realidade

que é sozinha.

PENSANDO

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PENSANDO

Que janela se abre
dentro de um temporal
que alegria se alcança
no meio do lamaçal?
Que és tu
no meio do meu corpo
adormecido,
uma pedra, um rio,

uma montanha a deslizar.

UM DIA DE DOMINGO

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UM DIA DE DOMINGO

Bate descompassadamente
um coração animal
frente à pastelaria Paris.
Sentada numa mesa
diante da montra farta
de bolos, docinhos,
tartes e tarteletes
está a moça de baton vermelho,
riso de desdém
para quem a olhava,
Espreitei-a do outro lado
sento-me mesa com mesa,
pego num guardanapo,
numa bic de aparo fino
e declaro-me.
De rompante um jovem homem
retira do saco surrado
um oboé e toca.
Parou na ruela da confeitaria
uma bicicleta antiga,
a moça elegante escapuliu-se,
monta à garupa e parte.
As pontes permaneceram pontes,
os rios correm para o mar.
No meu dia não
deixo cair no chão
a minha declaração.
Acabo num alfarrabista
da rua das Flores
a folhear livros antigos
de poesia.
Num silêncio apropriado
esqueço o mundo,

as minha desilusões.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

DIA INVERNOSO

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DIA INVERNOSO  

Acordou sobressaltada
uma trovoada forte
feria os seus ouvidos,
o granizo caía impiedosamente
sobre as plantas da horta.
Os ventos vindo do Norte
cortavam ramos
rebolando-os pelos caminhos
da vila antiga.
Rolam carros apressados
todos querem chegar depressa
a qualquer lado.
Os carregadores
com capas atá aos tornozelos
descarregavam apressados
os caixotes junto ao mercado.
O noticiário matinal
anuncia agravamento do temporal.
Um fim de semana perfeito
para dormir
para experimentar o bolo de ruibarbo,

framboesas e especiarias.

SUBÚRBIO


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SUBÚRBIO  
  
Condenada por ser assim
roseira selvagem,
bicho sem trela, sem açaime.
Provoca a ira
de decote até ao umbigo,
saia bem justa, curta,
peito farto, livre.
Rebola a anca
nas ruas da cidade
faz rodar cabeças,
provoca quedas,
Mandam-lhe beijos da janela,
o que queriam mesmo

era dormir com ela.

RELEMBRANDO

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RELEMBRANDO

Dois poetas velhos
conversam,
sentados na esplanada,
da confeitaria Ateneia,
num dia farrusco
do mês de Abril passado.
Lamentavam-se de tudo :
da falta de educação
dos mais novos,
da chuva que caía,
da reforma parca.
Queriam a Primavera de outrora
que de amena
fazia descer os decotes
das pequenas da cidade.
Olhavam para o cimo da fachada
do actual Continental,
falta-lhe os cabeçalhos
dos matutinos do Porto
passando continuamente,
informando, avisando.
Queriam o café de saco
servido em chícaras
de porcelana,
os pregões dos muitos vendedores
ambulantes, circulando,
das beatas papa missas
madrugadoras e recatadas,
dos cavalheiros de bigode
penteado
tomando café e conhaque
ao fim da tarde.
O tempos são outros, mudam
só os velhos poetas
ficaram parados.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

ELISA E A VIDA

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ELISA E A VIDA  

Perdeste o fogo Elisa,
meu deus, o que perdeste.
Corres pela rua apressada,
ah o trabalho, o salário,
é teu  o objectivo do patrão:
crescer a custos mínimos.
Quem quiser que pense,
em casa há os miúdos,
os banhos,
o prato de comida doseado,
o marido desconcentrado
no sofá da sala,
a televisão ligada
a quem ninguém atende.
Todos re determinam
os filhos, o marido, o patrão.
Custa chegar o sono –
a vida, estilhaçada!
Confusos os pensamentos,
enrosca-se no cobertor quente,

amanhã é o último dia da semana.

SIM


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SIM 

Afirmo
como poeta do meu tempo:
hei-de combater até à morte
essa força obscura
saindo das entranhas do passado,
querendo de novo
amordaçar-nos.

MARIANA

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MARIANA  

Dói Mariana dói,
o rapaz que parte,
de repente,
sem qualquer zanga,
explicação,
exaltação.
Há bálsamos para tudo,
queimaduras, equizema,
cortes, arranhões.
Nada há, Mariana,
para as dores de amor.
Reprovam se chorámos
reprovam se disfarçamos,
confundem o torpemente
o que pensam e a vida.
Engalfinhas-te no livro,
último na montanha
que está à cabeceira,
deixas que a ficção
sare o teu coração sangrando.

A MINHA MANHÃ

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A MINHA MANHà 

Sabe a manhã a café com leite,
a torradas com manteiga,
a compota de pêssego e ameixa,
a mel de flor de eucalipto.
Sabe a um tempo longo,
sobrando,
a um infinito
tamanho do nosso olhar,
a lugares longínquos,
a templos por visitar.
A um príncipe de conto de fadas
que não chegava.
A savanas densas
com muitas feras à mistura
A pomares mágicos
com frutas inventadas.
A ti que escolhi
para tomar comigo

a primeira refeição da manhã.