quarta-feira, 1 de julho de 2015

JUNTO AO MAR

Collado

JUNTO AO MAR

O fim da tarde
pôs-se frio,
junto à orla do mar,
corria um ventinho
incomodativo,
 o mar galgava a costa,
era perigoso estar ali.
Pouco agasalhada
tentava proteger-me
da maresia,
com os braços enrolados.
Um homem
dormia  num barco
abandonado.
De mansinho
para não o perturbar,
encostamo-nos ao barco
contando as estrelas

que estavam a despertar.

SONHO DE UM DIA DE VERÃO

Albino Moura

SONHO DE UM DIA DE VERÃO

Quero
um encontro marcado
no parque frondoso
da cidade.
Quero
oferecer-te
como quem quer
e não quer,
uma fatia de pão de figos
amassado esta madrugada.
Quero
sorrir,
meio afoita
meio envergonhada,
esperando
que os perfumes
do jardim
nos embriaguem,
forcem o beijo,
o começo do romance.
Peço
um silêncio organizado,
um banco desocupado,
ler-te o último poema,
esperando de ti
emoção, atenção,
algumas palmas sentidas.
Está um homem
de chapéu,
sentado perto,
é ele
que de repente,
encena
o fim do acto.
Colhe duas margaridas
selvagens

e vem pô-las no meu regaço.

VALENTINA

Tarsila do Amaral

VALENTINA

Coubeste na vida
qual pé delicado,
no sapato chique
comprado no Chiado.
Fizeste tudo bem
em bebé,
em menina,
dormias toda a noitinha,
comias legumes variados
sem enfado.
As notas na escola
rebentavam com estrondo
toda e qualquer escala.
Que foi que aconteceu
durante as chuvas mornas
daquele Verão?
Deixaste de caber em mim,
soltaste no vento
ao desbarato
as curvas do teu corpo
perfeito,
chamaste a atenção
da malandragem,
Mataste  o meu amor
embrulhado agora
no meu fato de linho pérola

amarrotado.

ANA

António Sampaio

ANA

Acredito nela
como acredito em mim.
Numa tarde auspiciosa,
embrulhada em Primavera,
levei um ramalhete de orquídeas,
um frasco de compota
de mirtilos
para celebrarmos o dia.
Deve ter razão a Ana
enchendo a mesa
de ferro forjado
com bules de chá de menta
e caixinhas de doces de mel
e gengibre,
para dar brilho à coisa
um cesto de cerejas do Fundão.
Esperámos os dois,
sentados displicentemente,
bebericando o chá,
trincando os bolinhos,
falando com saudade
dos ninhos,
só espreitados,
nas  árvores gigantes
do pomar.
Que entre alguém:
um duende,
um ser de luz,
uma fada,
aprovando os nossos gestos
agendados,
novos deuses,
amoras douradas,
acrescentando brilho
a um lanche  burguês,
numa casa velha,
numa quinta improdutiva

herdada pela Ana.

PERFIL

Picasso

PERFIL

Mar revolto,
seda azul, desbotada,
corpo esfrangalhado,
loucura cercando,
roupa comprada
na feira da ladra,
pirata a rondar o barco.
Apaga-se a luz,
o pesadelo espreita,
os animais falam,
a fruta é azeda.
Hoje teve coragem,
depilou as pernas,
expô-las-à
numa saia curta,
desavergonhada,
os seios roliços,
vadios,
sem decência,
espreitam
no decote acentuado.
Dar-se-à de presente,
nesta tarde quente,
numa taça
a transbordar

de frutos vermelhos.

terça-feira, 16 de junho de 2015

ESTUDANTES

Umberto Boccioni

ESTUDANTES

Vinham em bando
pelo fim da tarde,
sentavam-se
nas mesas antigas
do café Piolho.
Fardados a rigor
riam de coisas banais,
contavam a última
das conquistas,
uns zunzuns da política,
a chatice da guerra colonial.
Chamados à razão
depois da queima,
preparavam os exames,
lendo e relendo
as sebentas gastas.
Pelo meio da tarde
faziam uma pausa,
olhavam com doçura
as namoradas,
pespegavam-lhe de leve
um beijo carinhoso
na boca rosada.

PEDIDO


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PEDIDO

Olha-me
com esses teus olhos verdes
onde as lágrimas tremem
e não caem.
Verde desmaiado
como um limão
que o sol não tingiu.
Fixas-me
com as esmeraldas do teu olhar,
frias, paradas,
iguais a uma criança
sem infância.

DIA NO CAMPO

Collado

DIA NO CAMPO

Eram duas da tarde
de um dia escaldante,
no horizonte
filas de trigo
ondulante.
Cerrava-se os olhos
a uma luminosidade
bravia,
eu ajoelhada
tirava ervas daninhas
de uma horta
que não será minha:
No fim da jornada
apanhava-se amoras,
doces, sumarentas,
olhando sentidamente
o sol a declinar.

PERCEPÇÃO

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PERCEPÇÃO

Hoje sou eterno
não penso na morte,
mero facto estatístico!
Sei o que sou,
quantos dias preciso
para fazer acontecer
um cálculo quântico.
Percebo o mundo,
as dificuldades de viver
com a serenidade precisa,
sei o significado da existência!
As palavras dão-nos sempre
qualquer coisa,
amarram-nos
como a terra os frutos.
A liberdade é um facto,
a troika não existe,
somos pássaros,
não mordemos a língua,
temos orgulho,
somos portugueses!
Renascer de raiz,
começar,
lutar todos os dias,
ainda somos capazes?

CIDADE

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CIDADE

A cidade em camadas
estende-se do cimo da colina
até ao rio,
reflectindo o casario
na água parada!
O vento sopra de Espanha
e leva em cascata
as folhas multicores
das árvores,
deslizando até à foz.
Passam barcos de recreio,
famílias de polichinelo
fotografando a bruma do rio,
as gaivotas planando,
as pontes novas e velhas.
Não captam a história,
a alma, os pregões com raça,
o linguajar castiço
e o feitiço mouro
envolvendo muros,
velhas quintas,
a morte
dos barcos rabelos.

terça-feira, 9 de junho de 2015

FIM DE TARDE

António Palolo

FIM DE TARDE

Estavas sentado no muro velho
musguento e negro,
esperavas-me certamente,
tiraste do alforge o vinho fino,
no côncavo da tua mão
pousei a boca,
sorvendo a doçura da vindima.
Estreitas-me contra o teu peito,
bati apressado no teu coração
pedindo licença para ficar.

INCÊNDIOS

Albano Neves e Sousa

INCÊNDIOS

Sua-se ao sol do meio-dia,
só a água refresca,
anseia-se sombra,
o dia tornou-se num inferno.
Tudo arde,
reconhecida a negligência,
a ausência de determinação,
não vinga a floresta.
De repente, o verde,
é um deserto com cinza.
Nem alimento, nem  riqueza,
só pó triste.

PALAVRAS


Collado

PALAVRAS

As palavras,
o encontro, o desencontro,
o descanso, o refúgio.
Um cavalo veloz
não parando nas portagens.
Um suspiro, uma reza,
candeia alumiando
o escuro de caminhos .
As palavras,
caem lentamente no papel,
escorrem, espalham-se,
conectam-se,
nasce a mensagem.
Perdem-se
entre o cérebro e a caneta,
de repente,
saltam para o último
raio de de sol
e fazem nascer o poema.

CASA

Collado

CASA  

A casa plantou-se
junto
de um espelho de água,
aberta às árvores,
aos pássaros,
a todos que a querem.
Ao fim da tarde,
sentada na mesa grande,
tudo embriaga.
A caneta gasta
que escreveu toda a semana,
poesia agitada,
o odor das flores de laranjeira,
o verde das maçãs,
o despertar do Verão.
O sol bate, agressivo,
queima a pele,
enche a alma.
Sorvo a doçura
do silêncio que se pôs
e a paz descida numa asa
de cristal.
Há um rumor de mar,
a envolvência de uma tarte
de chocolate e framboesas,
vermelhas como sangue.
Trincá-la devagar,
a boca confundindo-se
com desejo,
o peito aberto ao dia,

existo certamente.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

LAMENTO

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LAMENTO

Esperei-te todo o dia,
perfumada,
cabelo arrumado,
enfeitado
com uma rosa encarnada.
A porta entreaberta
facilitava a tua entrada,
à socapa,
sem o visionamento
do meu pai.
Tudo em mim cintilava
esperando ansiosamente
a tua chegada.
Passou o dia,
passou a noite,
mais uma vez falhaste,
perdi a vontade de amar-te.

NOITE SECRETA

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NOITE SECRETA

O calor avassalador
queima a janela do quarto,
o vento é fraco,
nada acalma dois corpos
alados.
Da boca ao colo
um fim do mundo
anunciado.
A sede é tanta
volteando a água fresca.
um rumor de vulcão
activo,
tão misterioso
como o princípio de tudo,
a explosão é o que resta
no último acto da criação.

DIA DE SÁBADO

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DIA DE SÁBADO

Amar-te assim sentidamente
entre o húmus húmido
e os damasqueiros em flor.
Beber uma taça de água
com cascas de limão.
Ouvir música decadente
dos anos oitenta
num silêncio fabricado.
Contar
com os lábios queimando,
cada beijo
dado na despedida.
Fazer um café fraquinho,
quente, amargo,
adoçá-lo com mel de urze.
Saber que as estrelas no céu
permanecem
para lá deste sábado
e do próximo domingo.

UM DIA DE INFÂNCIA

Collado

UM DIA DE INFÂNCIA

De nós ficaram
Verões sadios,
nadando nus
nos redemoinhos
do límpido rio.
Brincadeiras inocentes
nas margens sombreadas,
pedras atiradas
empurrando nenúfares.
O medo não toldava
e saltávamos
mergulhando à procura
de peixes acossados.
Em casa,
na mesa de pedra
espreitando no jardim,
havia sempre um prato
de figos pingo de mel,
broa escura, de centeio,
fatias de presunto negral.
Ficou a sede de infinito,
o querer sempre mais,
o nadar para além do rio,
o embarcar nas marés.

NATUREZA MORTA

Collado

NATUREZA MORTA

Brilham
os teus olhos azuis,
fundindo-se no regato,
pacato,
serpenteando mansamente
a nossa aldeia.
Os gomos de tangerina
num xarope de açúcar e canela
enfeitam o prato
esperando a boca,
seu destino.
A geleia vermelha de marmelo
desliza no pão de mistura,
saciando-nos na merenda
merecida
preparada pela avó Maria.
Uma luzinha no telhado,
é o quarto na mansarda,
onde tenho a minha cama.
Observatório improvisado
das noites estreladas
passando tu na estrada
balançando no vestido
de papoilas coloridas.
Cantigas desfiadas
em vagas
de saudade e ousadia.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

OFERTA

Silvana Violante

OFERTA  

Confio
neste dia diferente,
entrei na chocolataria,
escolhi com os olhos
a caixa mais doce
de chocolate com nozes.
Sofri até à noite,
momento exacto
em que  a coloquei
em cima
da tua secretária.
Deste de caras
com a caixa chique,
desembrulhaste
demoradamente
um bombom azul.
Alguma razão
terás
para nem sequer
me agradeceres
a despretenciosa
oferta.

UM ABRAÇO NO MEIO DA RUA

Emanuel Teixeira

UM ABRAÇO NO MEIO DA RUA

Abraçamo-nos,
é  indelevelmente boa
a sensação de ter-te
abandonada a mim.
Não gosto
que algum passante
diga:
é piegas abraçar assim
no meio da rua.
Não pertenço à rua
sentindo
o teu coração a bater
descompassado.
Quero só
que sintas
o cavalo alado
que é o meu
batendo por ti!

PARTIR

NEIRO

PARTIR

É o fim.
Não há mantas que cubram,
o frio entranha-se,
fica.
O coração bate fraco,
por todo o lado
há alguém que parte.
Aproveito,
escrevo um S M S:
também vou.
Espero um pouco,
penso:
não há espaço
para adiar a resolução,
vou, com uma nação na mão.

PENSAMENTO

Porfírio Alves Pires

PENSAMENTO  

Chega o dia
em que é preciso largar
a leveza de pensar
que a vida é fácil.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

VISITA

Picasso

VISITA  

Apareceste,
melhoraste o meu dia,
tua lufada fresca
de saia rodada,
o riso dobrado,
o passo apressado,
correndo
para me desejar boa jornada,
Outra coisa importante,
trazias debaixo do braço,
resguardado,
como se fosse um tesouro
antigo,
um livro de poesia
de Eugénio de Andrade.
A oferta
era, sem dúvida, apetecida.
Confesso,
fiquei comovido,
dei-te como paga
o que estava ali à mão,
uma mão cheia de rosas encarnadas.

POESIA SEMPRE

Collado

POESIA SEMPRE  

Basta um poema
que alguém escreva
num dia claro
para valer a pena
ter presente
e ter passado.