sexta-feira, 17 de julho de 2015

PEDIDOS

Roberto Sguanci

PEDIDOS  

Retirara o mel das colmeias,
lambuza a boca,
os dedos,
roça os sentidos pela doçura,
bate na cortiça,
afasta as abelhas,
dá-me um beijo pegajoso,
reacende o dia morno,
afoga-me com mimos,
cava a horta,
planta morangueiros,
dá-me notícias de ontem,
não quero o seu efeito imediato,
põe no meu pescoço
um leve colar de prata,
dança comigo
na margem do rio,
assume as tuas falhas,
abana a palmeira,
inventa tâmaras,
movimenta o barco,
leva-me contigo
ao sítio onde nasce

a esperança.

GRÉCIA

Botticelli

GRÉCIA  

Hei-de regressar
Grécia,
não sei quando
mas hei-de regressar,
percorrerei com redobrada
curiosidade
cada templo,
onde ainda moram deuses
cansados,
não amparando os Gregos.
Visitarei
os antigos estádios
onde  o louro pagava
o esforço humano.
Gritarei nas falésias
das praias
as glórias eternas
de um povo grande.
Apontam-lhe uma arma
à cabeça e dizem-lhe:
os fazedores da democracia
também ajoelham.
Permanecerei algum tempo
no Parténon
onde se elaboraram justas leis,
hoje refém dos verbos deve e haver
e das soluções hediondas

remendadas em Bruxelas.

PERCALÇO

Roberto Sguanci

PERCALÇO   

Pé ante pé
espreitei de soslaio
o teu sorriso maroto,
tropecei
e sem querer
fiquei
agarrada ao teu pescoço.
Nem para a frente
nem para trás,
ali onde fui capaz
para não cair
apertei as tuas mãos.
Sorri
envergonhada,
espantada
com tal aparato.
Tiraste do bolso
um caramelo,
ofereceste-mo,

acabou o embaraço.

terça-feira, 7 de julho de 2015

LUCÍLIA

Dana Schutz

LUCÍLIA  

Abriu a porta,
não estava o seu amado,
é um facto
tudo devia regressar
há algum tempo atrás.
Viu algures num filme:
não estar deliberadamente.
é sinónimo de cansaço.
Essa realidade
não devia caber
na sua linda história.
Lembra-se
do seu hálito a maçãs,
das suas mãos
determinadas,
a percorrer o seu corpo,
vento de monção,
disposto
a causar tempestade.
Alguém o quis perfeito
para encaixar no seu peito

de costureirinha enamorada.

O MUNDO DO TOMÉ


Mimmo Paladino

O MUNDO DO TOMÉ

Tocaram os sinos
às trindades,
chegou a casa cansado,
sabem,
o mundo é chegar a casa,
sentir o cheiro adocicado
da sopa de favas e hortelã,
o sabor suado
da broa de milho
cozida de manhã,
ouvir palavras,
soltas,
várias,
desmontando um dia
acidentado.
Foi domingo
só porque estou contigo,
comi com sofreguidão
a fruta doce,
pensei que a grandeza,
o equilíbrio do universo,

existem por ter-te.

UM OLHAR APURADO

Beatriz Balen Susin

UM OLHAR APURADO  

Olhei-te
como se fosses uma sombra,
tens tantos defeitos,
a tua maldade é estranha.
Os teus olhos semi-cerrados
não olham, vergastam
tudo e quem se aproxima
mais que a tua deixa.
Sabes a fruta amarga
daquela que se prende à língua,
a deixa espessa e ácida.
Plantaste silêncios
colhes tempestades,
à semelhança de Pilatos,
lavei as mãos,
afastei-me

para longe dos teus passos.

PÉROLAS A PORCOS


Van Gogh

PÉROLAS A PORCOS  

Ofereci-te
sem razão aparente 
um coração de filigrana,
comprado
numa ourivesaria
improvisada,
plantada numa cave
da parte velha da cidade.
Demorei uma semana
a namorá-lo,
meio ano a poupar
para to comprar.
Em ânsias
só queria vê-lo
pendurado  no teu pescoço
de gazela.
Combinamos uma saída,
supostamente alegre,
disseste que a jóia
era grande,
dava nas vistas.
Tens razão
o tamanho do meu amor
não cabe
no teu pequeno peito.
O mundo que inventei
é só meu
as cores
que lhe deste

não existem.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

JUNTO AO MAR

Collado

JUNTO AO MAR

O fim da tarde
pôs-se frio,
junto à orla do mar,
corria um ventinho
incomodativo,
 o mar galgava a costa,
era perigoso estar ali.
Pouco agasalhada
tentava proteger-me
da maresia,
com os braços enrolados.
Um homem
dormia  num barco
abandonado.
De mansinho
para não o perturbar,
encostamo-nos ao barco
contando as estrelas

que estavam a despertar.

SONHO DE UM DIA DE VERÃO

Albino Moura

SONHO DE UM DIA DE VERÃO

Quero
um encontro marcado
no parque frondoso
da cidade.
Quero
oferecer-te
como quem quer
e não quer,
uma fatia de pão de figos
amassado esta madrugada.
Quero
sorrir,
meio afoita
meio envergonhada,
esperando
que os perfumes
do jardim
nos embriaguem,
forcem o beijo,
o começo do romance.
Peço
um silêncio organizado,
um banco desocupado,
ler-te o último poema,
esperando de ti
emoção, atenção,
algumas palmas sentidas.
Está um homem
de chapéu,
sentado perto,
é ele
que de repente,
encena
o fim do acto.
Colhe duas margaridas
selvagens

e vem pô-las no meu regaço.

VALENTINA

Tarsila do Amaral

VALENTINA

Coubeste na vida
qual pé delicado,
no sapato chique
comprado no Chiado.
Fizeste tudo bem
em bebé,
em menina,
dormias toda a noitinha,
comias legumes variados
sem enfado.
As notas na escola
rebentavam com estrondo
toda e qualquer escala.
Que foi que aconteceu
durante as chuvas mornas
daquele Verão?
Deixaste de caber em mim,
soltaste no vento
ao desbarato
as curvas do teu corpo
perfeito,
chamaste a atenção
da malandragem,
Mataste  o meu amor
embrulhado agora
no meu fato de linho pérola

amarrotado.

ANA

António Sampaio

ANA

Acredito nela
como acredito em mim.
Numa tarde auspiciosa,
embrulhada em Primavera,
levei um ramalhete de orquídeas,
um frasco de compota
de mirtilos
para celebrarmos o dia.
Deve ter razão a Ana
enchendo a mesa
de ferro forjado
com bules de chá de menta
e caixinhas de doces de mel
e gengibre,
para dar brilho à coisa
um cesto de cerejas do Fundão.
Esperámos os dois,
sentados displicentemente,
bebericando o chá,
trincando os bolinhos,
falando com saudade
dos ninhos,
só espreitados,
nas  árvores gigantes
do pomar.
Que entre alguém:
um duende,
um ser de luz,
uma fada,
aprovando os nossos gestos
agendados,
novos deuses,
amoras douradas,
acrescentando brilho
a um lanche  burguês,
numa casa velha,
numa quinta improdutiva

herdada pela Ana.

PERFIL

Picasso

PERFIL

Mar revolto,
seda azul, desbotada,
corpo esfrangalhado,
loucura cercando,
roupa comprada
na feira da ladra,
pirata a rondar o barco.
Apaga-se a luz,
o pesadelo espreita,
os animais falam,
a fruta é azeda.
Hoje teve coragem,
depilou as pernas,
expô-las-à
numa saia curta,
desavergonhada,
os seios roliços,
vadios,
sem decência,
espreitam
no decote acentuado.
Dar-se-à de presente,
nesta tarde quente,
numa taça
a transbordar

de frutos vermelhos.