quarta-feira, 18 de junho de 2014

O RELÓGIO VELHO

Salvador Dalí
O RELÓGIO VELHO

O relógio do avô António
marcava um tempo
já escasso,
os abraços que nos dava
eram o último elo do baraço
que o prendia à vida!
Tinha sido menino
com olhos cor de avelã,
rápido e ladino
saltou o destino
para conquistar minha avó!
Velho e cansado
porque as forças lhe faltavam
regia tudo pele relógio
de pulso!
No dia da sua partida,
cheio de nostalgia,
apontou para o relógio,
perguntou pelo café da manhã
e queria partilhá-lo
com a minha avó
que o deixara no ano transacto!
Eu já mocinha feita
olhando o jardim sem ver
filmei-o no meu olhar
para aí permanecer!

DIA ESPECIAL

Pilar López Román
DIA ESPECIAL

O Lino
que todos conhecem,
pôs gravata azul bebé, 
fato cinza escuro,
sapato preto!
Penteou o cabelo
com risca ao lado,
enformou-o
com brilhantina
vibrante!
Colocou no bolso
 do casaco,
um lenço impregnado
de água de colónia,
cheirando a mar!
Sentou-se muito direito
num banco de jardim,
de ferro verde
e esperou pacientemente!
O corpo balançava
à medida que o tempo
passava,
nem a natureza o distraía
dos passos  que queria
ouvir na gravilha
dos passeios do jardim!
No arrastar das horas
a gravata foi caindo,
o fato enrugando,
o suor empapando
o corpo e a alma!
No exacto momento
em que desistia,
uns tacões ruidosos,
trouxeram o mundo,
pousaram imóveis
os seus olhos profundos,
nos azuis da mulher
amada!

MEDITAÇÃO

Patrícia Filardi
MEDITAÇÃO

Hoje é um dia meu
quero-o espaçoso,
para me espreguiçar,
não pensar!
Olho através da janela
e as alfaias alinhadas
esperam a minha vontade
de as usar!
Preguiça, é o que eu digo,
os quiabos, nabos vermelhos
e abóboras  anãs,
podem esperar!
O segredo da germinação
é um deus,
acostado ao barraco
onde guardo
de um ano para o outro
úberes sementes !
É uma forma de amor,
cavar,
e alisar a terra ardente
que desenvolvendo o mistério
da criação,
em poucas semanas
rebenta em frutos
prontos a comer!
Extasiados estão os meus olhos
perante a beleza
de um campo multicor,
há que fazer a colheita
e  usá-la com descrição
diante da fome
que nos confunde!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

NA MINHA INFÂNCIA

Collado
NA MINHA INFÂNCIA

Na minha infância
passada numa aldeia rural,
as velhas sentadas à lareira
aqueciam-se do frio,
esqueciam-se da violência
do marido,
contavam histórias medonhas
de cavalos sem cabeça,
lobisomens
levando com eles
em dias de lua cheia,
meninas solteiras,
luzes voando do cemitério
para assustar
moradas abertas!
Eu tremia de medo,
persignava-me,
rezava um Padre Nosso
e uma Avé Maria
como me ensinara
a avó Olinda,
afastando por ora o mafarrico!
Os olhos das velhas eram tristes
como a sua vida
a criar filhos,
e, a apanhar porrada de criar bicho!
Com a fome por companhia,
era na igreja,
no padre de voz rouca
e sábia
que tinham algum refrigério,
mesmo sem perceber
o que ele dizia,
lavavam a alma!
Algumas suicidavam-se,
mas disso
nunca se falava!

AMIGO

Collado
AMIGO 

Sou amigo
de todos
que sem gritos,
de manhã cedo,
saem para o trabalho
mal remunerado,
e à noite contam
o pão que podem comer!
Prescindem do autocarro
fazendo alguns  quilómetros
a pé,
levam a marmita,
enfadonha,
sempre com o mesmo guisado,
e, ao entardecer,
sorrindo,
brincam com os filhos!
Mostram-lhes as estrelas
e afirmam:
com esforço chegámos lá!

MOMENTOS

Collado
MOMENTOS

Hoje,
passados  muitos anos,
vendo de dentro
a vida que passa lá fora,
dou mais valor
à refeição simples
que como
sentada na cadeira velha,
à fatia de bolo de chocolate
oferecida pela vizinha
do primeiro direito,
à árvore que floresce
todas as Primaveras,
a ti que me acompanhas
no Verão e na borrasca!

NA CIDADE

Collado
NA CIDADE

Pelas seis da tarde
tudo é mais frenético,
as raparigas de cabelos
bem penteados,
olhos negros
marcados a eyeliner,
saltos altos
a afirmar as pernas
modeladas,
malas coloridas
imitando marcas consagradas,
correm desvairadas para o metro
que as transporta a casa!
As donas de casa
vergadas ao peso
dos sacos de fruta
e verduras,
já cansadas por um dia de labuta,
pensam devagar, na refeição última,
esperada
pela família esfomeada!
Jovens barulhentos,
vestidos com jeans
à medida da sua bolsa,
tshirts estampadas
com ídolos pop,
bebem nas esplanadas
dos bares,
um fino gelado!
Se há futebol,
come-se francesinhas
e batatas fritas,
no café marcado,
a vitória é colectiva,
o jogo uma catarse
anunciada!
Os turistas sorridentes
fotografam tudo:
D. Pedro IV,
os pombos que nas mesas
da confeitaria Ateneia
comem as migalhas,
a mendiga maltrapilha
que pede e chora
na esquina do Hotel das Cardosas!
Sentado no café habitual
queria fazer parte
de todo este bulício,
continuo só e triste,
à espera que alguém repare
que eu existo!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

RETRATO ANTIGO

Collado
RETRATO ANTIGO

Pendurado
num pedaço de parede
vazio,
junto à porta,
o retrato do meu avô,
gordo e digno,
numa gravata fininha
que lhe apertava o colarinho,
engomado,
de uma camisa branca!
Eu não quero ser pendurada,
nem de pé,
nem sentada,
façam de mim uma mão
pintada numa tela,
escrevendo
até morrer
contra a inépcia humana!

UM LUAR

Leo Haas
UM LUAR  

O luar hoje não reflecte
festa,
nem lençóis alvos
e virgens,
ou eiras cheias de grão!
Mas um fedor a ventos
pútridos,
de outras eras,
em que não tomando
nós as rédeas,
permitimos holocaustos,
mortes vorazes,
festins vampirescos,
de cobardes,
ávidos das nossas fraquezas,
da nossa descrença,
da nossa preguiça
em enfrentar novas guerras!

FUGA

Collado
Fugimos da luta
medrosos do outro dia,
digo-vos:  
não há outro dia dado,
oferecido,
cada dia somos nós,
com rosas ou sangue
nas mãos,
como nos aprouver!


Lurdes Rodrigues
de papo para o ar,
é um dado adquirido,
esperando a lua  inundar-me,
querendo incorporar
a semente do mar!
Dos outros sei que existem,
tristes,
sem ideias novas!
É inútil compreender
a imensidão
da mansidão
quando nos é roubada a vida!
Conviver com o zero
é um elo ténue que esmaga
sem pesar!
é não ter pátria séria,
nem família compatível,
nem colo que embala,
nem esperança amanhã!