terça-feira, 8 de julho de 2014

QUESTIONAR

Collado
QUESTIONAR

Neste fim de tarde
prolongado,
de um Verão indeciso,
ora chuva, ora sol,
ora calor, ora frio
espreitámos as prateleiras,
dos livros já esquecidos!
Encontrámos os clássicos:
Sócrates, Platão,
Voltaire,
Sartre, Marcuse,
Agostinho da Silva,
todos filósofos,
todos estudiosos
da condição humana!
Debaixo do braço
levámos o Agostinho da Silva,
abrimo-lo
num banco de jardim
e meditámos!
Quem precisa
 de morangos amarelos.
se os vermelhos
são deliciosos
diante dos nossos olhos!
Quem precisa
de ar condicionado,
se a brisa do mar,
poderosa,
vergasta o nosso rosto!
Quem precisa
do supérfluo,
se é tão pouco
o que nos faz viver!
Entre ser rosa ou cacto
antes cacto que dá figos!

SOLIDÁRIA



Collado
SOLIDÁRIA

Ah Judite,
como se diz a alguém:
está morto!
Como se fala da morte
sem perder a compostura,
quem nos põe um rosário
na mão
e  diz que o nosso amor
partiu para sempre!
Como é possível
roubarem-nos alguém
na placidez do dia
que continua a fruir!
A morte não pede licença,
abraça,
não deixando
tomar o café,
degustar as torradas,
picar o ponto
no emprego desejado!
Morrer, assim
na flor da idade,
mais vale ser de repente,
tornando o momento
menos indecente!

quinta-feira, 3 de julho de 2014

CONEXÃO

Luís Morgadinho
CONEXÃO

Não vou por aí
pelas ruas,
como os cegos
contra os obstáculos,
meio bailarino,
meio adormecido,
permitindo que se riam
de mim
e dos meus passos!
Estou convicta
que a rede dos caminhos
a percorrer,
é traçada aqui
na sala pequena
e mal iluminada
do apartamento
que possuo!
Evocarei outros
que me sigam,
não podemos
estar acomodados
à tecnologia,
devorando-nos,
obtendo proveito
alguém desconhecido,
sempre obscuro!
O freio da besta é nosso,
saibamos apreciar
a alegria única
de sermos livres,
donos do nosso destino!

PORTUGAL

Luís Morgadinho
PORTUGAL

Fechada neste país
assombrado,
com os meus companheiros
de luta,
cansados,
não vejo nada,
senão escombros!
Não quero, por ora,
pensar que foi engano
a revolução dos cravos,
deixamo-los lá,
agora pagámos as favas!
Os ganhos que tivemos
não os entendem os novos,
cheiram já
velhos enganos,
embandeirados
por filosofias sinistras
que se for preciso,
matam!
Só com a partilha
nos ergueremos,
distribuindo a refeição
por todos! 

MATAM O INTERIOR

Luís Morgadinho
MATAM O INTERIOR

Em nome da poupança
e da direcção certa
que levará ao equilíbrio,
fecham escolas,
postos de saúde,
valências  em  hospitais,
tribunais ,
as finanças podem fechar
à vontade,
só nos levam a massa!
A larguesa dessa gente
é curta,
com as casas desabitadas
encerram História,
riqueza,
distribuição da população
e tudo fica desolado,
triste!
Apinaremos um dia
em direcção ao mar
quando o povo do litoral
alcançar a rotura!
Lutaremos por cada parcela
de terra,
destruiremos palácios antigos
para lá morarmos,
mandaremos
para de trás dos montes,
os políticos que estão a mais
na distribuição equitativa
dos portugueses estupefactos!

VERÃO

Anacelia Guerra
VERÃO

O sol bate a pino,
as pedras fervem,
a terra quente, sua,
pede  suplicantemente
a água que a reinvente!
Despem-se as moças
mostrando formas roliças,
sorriem para quem passa,
como se todos
as cumprimentassem!
Há velhas lembranças
de outros Verões,
mais sossegados,
onde bebíamos refrescos
gelados,
partilhávamos segredos
ousados,
enquanto as avós velhas
dormiam sestas
sagradas,
em camas herdades
de ferro pintado!
No silêncio campestre
da tarde,
ouviam-se ralas
e os deuses pacientemente
esperavam o fresco
do final do dia
para nos mostrar o sentido
da existência!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

GAIA

António Joaquim
GAIA

Na cidade de Gaia
há também poetas
vivendo junto do rio,
embarcando no cais
da vida
partilhado com o mundo!
Na bruma intensificada
à noitinha,
escondem as lágrimas
escrevendo um poema!

ERRADO

Alvarez
ERRADO

Alto,
ossos bem equilibrados,
braços regulamentares
para puxar da enxada,
deram-lhe o trabalho
insonso
de atender todo o dia
o telefone
fechado num cubículo!

POLÍTICOS

Rafael Bordalo Pinheiro
POLÍTICOS

Vêmo-los apressados
com sorrisos velados
a caminho do  Parlamento,
dos Ministérios,
saindo de carrões pretos,
conduzidos por motoristas,
fardados a rigor!
Falam exclusivamente
para as câmaras de filmar
dando recados do poder,
ignorando o povão
que de lado grita:
estamos fartos!
São inúteis
como as suas palavras
gastas,
há anos que os vemos,
sempre os mesmos,
embora de quando em vez
mudem as caras!
Levaram-nos ao lodaçal
com toda a ligeireza
e agora não sabem
como saír da lama
em que nos prenderam!
Em que escola se formaram?
Neles é tudo vaidade:
fato único,
gravata a condizer
com a camisa Versace,
o sapato italiano!
Forjam-nos como se fossemos
marionetas
e exigem
ajoelhem
diante de tanta majestade!

ACUSAÇÃO

Rafael Bordalo Pinheiro

ACUSAÇÃO

Acusadores apontamos o dedo:
são eles
os que nos tiraram o pão!
Está ao nosso alcance
derrubá-los do pedestal,
no entanto deixámos
que continuem a roubar-nos,
doridos
na nossa inépcia
estorvando o nosso querer!
Arriscado é agir
mas a vida é um risco
desde que nascemos
até morrer!

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A NOSSA EXISTÊNCIA

Júlio Pomar
A NOSSA EXISTÊNCIA

Tudo começou com Adão e Eva
no paraíso,
pecando,
entrou-se no mundo real,
trabalhar para comer,
sobreviver entre as feras,
manter as bocas fechadas
diante da humilhação
perpetuada pelo patrão,
capataz,
chefe,
dirigente,
ministro
e até do cão
mijando
no nosso portão!

O RELÓGIO VELHO

Salvador Dalí
O RELÓGIO VELHO

O relógio do avô António
marcava um tempo
já escasso,
os abraços que nos dava
eram o último elo do baraço
que o prendia à vida!
Tinha sido menino
com olhos cor de avelã,
rápido e ladino
saltou o destino
para conquistar minha avó!
Velho e cansado
porque as forças lhe faltavam
regia tudo pele relógio
de pulso!
No dia da sua partida,
cheio de nostalgia,
apontou para o relógio,
perguntou pelo café da manhã
e queria partilhá-lo
com a minha avó
que o deixara no ano transacto!
Eu já mocinha feita
olhando o jardim sem ver
filmei-o no meu olhar
para aí permanecer!