sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

UMA TARDE NO CAMPO

José Gonzales Collado

UMA TARDE NO CAMPO

Levei-te a merenda
num cesto de verga,
a meio da tarde
suada,
num dia de calmaria surda!
As vinhas maduras
bordejavam a quinta
e os bagos soltavam-se
sem pressa!
O restolho do trigo
quedava-se caído
depois da farta colheita!
A água da levada
dessedentava as hortas!
Arregaçado
no meio do campo
abrasado
recebeste-me à sombra
de uma figueira!
Comemos os dois
fatias finas de broa de milho,
petingas fritas em azeite
bebendo
vinho verde tinto!
Momentos de descanso
sem inimigos
por perto,
tendo o fruto das sementes
brotado por todo o lado!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

TELA

Victor Silva Barros

TELA

No principio era o nada,
a brancura infinita
do vazio,
pronto ou não
a ser preenchido!
As ideias fervilham
na cabeça
do pintor ousado!
Sem palavras,
com tintas e pincéis
salta para a tela
a vida,
a cidade,
o barco que navega
sem perturbar o rio,
as  pessoas,
as memórias!
A pintura ganha sentido,
emociona,
brinca com o pintor
e com quem a olha!

DIA NA ALDEIA

José Gonzalez Collado
DIA NA ALDEIA

Ali sentados,
no muro divisório
da courela,      
o sol abrasador
amadurava
os cachos que pendiam
da ramada!
O silêncio
dos trigais dourados
era quebrado
pelo arrulhar das pombas
e tudo era tão perfeito,
tão equilibrado!
O que é nosso
ali nos foi ter,
a água fria da fonte,
o pão negro de centeio
regado a mel de urze!
A lua
para onde  nos transportámos
à noite,
as colinas
onde desenhámos barcos
para navegar!

COR DE AMORA

José González Collado
COR DE AMORA

O que eu sofri
por aquele vestido
cor de amora!
Vi o tecido
na montra
 da única loja da aldeia,
cobicei-o,
namorei-o,
roguei à minha mãe
que mo oferecesse!
Chorei
perante a iminência
de o não ter!
Em redor de mim
a explosão
da negação,
acendia!
Mãe eu queria tanto
um vestido cor de amora,
uns sapatos malva a condizer!
No baile anual
da colectividade musical,
serei um arraso
voltando
o vestido cor de amora!
Perante um não rotundo
da mãe enervada,
a avó tirou o varaço
do  seu saco gasto!
Um punhado de moedas
saltou
para a minha mão,
comprou um sonho
maior que o Natal!

DO NORTE

José González Collado
DO NORTE

Eu sou do Norte,
lá onde a bruma
é mais fria,
as mãos mais calejadas,
o clima mais duro!
Não estou acocorada
à espera que me tragam
dado,
o pão que amasso
em suor!
Vou à luta,
acordo cedo,
ligo a turbina mecânica,
ponho a fábrica
a laborar!
Entro no barco de pesca,
de arrastão,
distribuo refeições
a um povo esfomeado!
Limpo as ruas,
 as valetas,
sirvo café a ferver,
ajudo outros
que estão a trabalhar!
É pena contar tostões
enquanto alguns figurões
por mal nos governarem
enchem os bolsos de milhões!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

PARTIDA

Domingos

PARTIDA

Adeus cidade,
adeus paisagem,
adeus cais
de navios esquecidos!
Adeus mistérios,
ameixas grandes,
coloridas,
em xarope de amêndoa amarga!
Adeus  dias ressentidos
a meio caminho da vida!
Adeus colar de pérolas
sem brilho,
enroladas a pulsos hirtos
em noites  sofridas!
Adeus vento,
fome infame,
vinho tinto,
e, milhos aquecidos!
Adeus olhos molhados,
esplendor na nudez,
preces sentidas
e lágrimas de alegria!
Adeus pobreza de ideias
encarcerando-nos
na inconsequente
submissão consentida!
Adeus tu,
que sem qualquer decência
pedes constantemente
pimenta na comida,
pondo  de lado a vida!

A MINHA ESCRITA


Domingos
A MINHA ESCRITA

Às vezes escrevo
palavras sentidas
por mim
que ninguém entende!
Vou simplificar,
burilar,
adoçar as frases
para que me vejam
com a alma desnuda!
Sendo as minhas palavras
de toda a gente
preenchem lacunas,
tornam-se audíveis!
Sonhos arrastados,
levados,
por quem me segue!
Ocupo-as,
distribuo-as,
há sempre alguém
que as coloca em cestos
para as desembrulhar
em tardes de desassossego!

AMOR

Domingos
AMOR

Amar-te é como
planar num  cometa,
algures entre a alma
e o fogo,              
pretendendo secretamente
que nasça num deserto
um rio,
saindo de vez em quando
do leito,
saciando redes de infinito!
Amei-te desde que te vi,
no fim de uma tarde,
ao arredar a cortina
do seu sítio!
Olhei,
corrias para o autocarro
vazio,
compenetradamente,
como quem precisava,
meticulosamente,
de  chegar a qualquer lado!
Alguém tão metódico,
só podia ser preciso,
na complexa
construção do futuro!
Amar-te
foi a aposta,
com as tuas mãos
sobre os meus olhos,
mansamente,
acomodando-me
nos teus braços
olhando a eternidade!

NUM SEGUNDO


Domingos
NUM SEGUNDO

Senti-me morrer,
quase morri,
e só pensava
que te deixava
a ti!
Não sei
se te importavas
com a perspectiva de solidão,
eu só  via
a  tua pele,
a  cor dos desejos,
nas tardes enroscadas
à  lareira,
ouvindo o vento
levar ramos de árvores!
Naquele instante
acabaram-se as tardes de sábado,
o cinema   ao findar do dia,
o café quente na chávena fria,
os marchantes
nos passeios gastos
da foz velha,
a vida reinventada!
A rota que traçaram
para nós
às vezes dá-nos coça,
é como a vida,
incenso e fossa!
Quando a morte
nos bate à porta,
por mim,
só queria estar sentada
no jardim,
ao pé do lago,
a olhar,
simplesmente olhar,
o dia brilhante,
comovido,
a findar!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

MÃOS

COLLADO


MÃOS

São mãos
gadanhos no jardim,
capazes de revolver
a terra,
e espalhar doçura
nas açucenas!
Mãos precisas
a cortar os legumes,
preparando a ceia,
mãos aquecendo as tuas
geladas pelo frio do Inverno!
Não são mãos mágicas,
são humanas,
sussubrando ao tentar agarrar
a vida!
Mãos que partilham
um chá, um doce,
companhia!
Mãos que distribuem
em manhãs radiosas
amoras negras
em cestos de orvalho

BANQUETE DO PODER

COLLADO


BANQUETE DO PODER

A mesa está posta,
com  rapidez
tiram a casca às ostras
e cozinham os moluscos
com a acidez da lima!
Limpam o peixe das espinhas
e assam a carne na grelha,
enfeitam o pudim com cerejas,
escaldam as chávenas do café!
Os ossos atiram-nos aos cães
e guardam em  caixas os restos
para ofertar aos coitadinhos!
Lambuzam-se de comida,
sentem a maciez dos hidratos
e a textura crocante das hortícolas!
Ficam aflitos
se pensam que um dia
a fome lhes baterá à porta!
O cigarro,
o wisky,
são os vícios finais
para descontrair!
O melhor
não é para nós,
mas para quem vive
em condomínios fechados,
comprados por dinheiros
ganhos estranhamente
em negócios irregulares!
E haverá sempre muralhas
a proteger essa gente
a afastar-nos de lá!
Tarda o banquete global
para a população  em geral,
galguemos as escadas,
cortemos os cadeados,
tomemos as rédeas da cozinha!