sexta-feira, 21 de março de 2014

VIDA

J. Eliseu
VIDA

A vida é tudo
o que está nas coisas
e o que não está!
É a horta coberta
de legumes verdes,
as fruteiras diversas
cheias,
as rosas explodindo
por entre os espinhos,
o oceano inteiro,
a Ucrânia ferida,
interesses alheios,
o medo dos ucranianos,
a guerra iminente,
os mercenários pagos!
A pueril opinião
dos comentadores
de profissão!
As coisas que sentimos
e as ocultas
que  fazem de nós números
prontos a abater!
A brevidade dos actos,
a eternidade
que há no direito
a amar!
Nestes desequilíbrios
provocados,
há sempre alguém
que cantando
acorda os adormecidos
e os desperta
para lutar!

quinta-feira, 13 de março de 2014

CAFÉ DA ALDEIA

Collado
CAFÉ DA ALDEIA

Quando eu era criança
senhora que se prezasse
não entrava no café sozinha!
Lugar de homens,
homens macho,
beata ao canto da boca,
emborcando copos de três,
jogando à sueca
com muita ordinarice à mistura!
Futebol, rameiras,
vidas alheias
perpassavam nas conversas!
Era rasca o café,
escuro,
aliviavam-se
numa barraca dos fundos,
voltavam à mesa descascada
pelo tempo e pelo uso!
Quebravam-se ali tensões
esqueciam-se desilusões
numa violência verbal afirmativa!

TECNOLOGIA

Luís Morgadinho



TECNOLOGIA

Do país longínquo,
em que interesses,
mais ou menos ocultos
fomentam a guerra civil,
chega-nos,
à hora da refeição,
via satélite
o extermínio,
em pratos rasos!
Corpos enrolados
em trajos claros,
imaculados,
choros animalescos,
dor ilimitada,
bombas,
estrondos,
ao longe rajadas,
alguém que festeja
o início da caçada!
As redes sociais
postam imagens tristes
de maldade anunciada,
perante a impotência
das gentes acossadas!
Tanta tecnologia,
tanta ineficácia,
sentados nos sofás
agimos com likes,
sinceramente,
não chega!

PENSAMENTO


Jorge Gumbe


PENSAMENTO

Creio
não ser daqui,
onde a memória
guarda tudo,
o de ontem,
o de hoje,
prevendo o amanhã!
Sou de outro planeta
onde o silêncio
transporta anjos
guardando por nós
os desenganos!
Têm acesso ao nosso sangue,
libertando a rigidez dos dias
que nos consomem!
As lembranças más
são apagadas
com espaços de luz
e cria-se na fronte
um novo mapa
para lermos
com exactidão real,
o nosso destino final! 

MARESIA

Collado


MARESIA

Cheira a maresia,
cheira a pinheiros,
cheira a rocas
com lapas agarradas,
a barcos com musgos
putrefactos,
a redes
transportando mar!
Cheira a mundo,
a navios naufragados,
a tribos antigas,
extintas
em nome da fé
e do rosário!
Cheira a arcas
com onças de ouro,
aventura,
a música sacra,
sacerdotes a  rezar!
Cheira a fruta tropical,
a invasões,
amores cruzados,
pele negra,
olhos azuis!
Cheira a fado, a morna,
a samba,
a árvores plantadas
que ainda não secaram!
que  irão permanecer!
Cheira a núpcias
a filhos bastardos,
a ausências, a regressos,
a viagens sem findar!
A luz, a escuridão.
à História que ficou escrita
e à outra
que mais vale não saber nunca!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

ERA UMA VEZ UM POVO


Victor Silva Barros

ERA UMA VEZ UM POVO

Era uma vez um povo
cantando toda a desgraça,
aceitando mesmo a fome
a que o obrigaram uns,
enchendo cada vez mais a pança!
Era uma vez um povo
chorão,
sentimentalão,
vibrando com a bandeira
ondulante,
hasteada,
em cada vitória atlética,
gritando a cada golo de Ronaldo
acompanhando da Marisa o fado!
Era uma vez um povo
arrastando-se na desgraça,
esquecendo a grandeza
que a pátria
já construi um dia!
Levanta-te povo que é hora
de correr com  a gentalha,
de tomares nas tuas mãos,
o teu,
os nossos destinos!
Afasta os estranhos Restelos
que vivem do teu suor
e encontraremos no dia a dia
um 25 de Abril melhor!

FELICIDADE


Artur Bual

FELICIDADE

Hoje fui feliz,
nada aconteceu
de especial,
mas, havia uma leveza
no ar,
o coração serenado!
Ter-te a meu lado
a tomar, simplesmente
um café,
fui canto e dança,
contradança, despique,
respirar, descansar,
tocar, beijar,
rebolar na areia,
ler a Odisseia,
estar na Grécia ,
percorrer ilhas pequenos
passear à noite em Atenas,
festejar com os deuses
na Acrópole
a vida, a terra,
a imensidão do mar!

ANIVERSÁRIO

Júlio Pomar

ANIVERSÁRIO

Mais uma vez perdemos
o aniversário
anunciado por email
do nosso amigo Tiago!
Ninguém nos viu
nessa jantarada
de churrasco,
regada a sangria tinta,
abrilhantada com um grande bolo
de chocolate amargo!
Imaginei da nossa janela
a música tocada:
pop anos oitenta
e muitos corpos vibrando!
Recordo entristecida
a lonjura
que nos afasta,
lembro-te menino,
carregando a pesada mochila
a caminho da escola primária!
Caíu o livro da leitura,
corri e apanhei-o,
levando-o na mão
até à tua carteira!
Desde aí ficámos amigos
olhando a vida
com os mesmos sonhos,
deixadas cair as mágoas,
debruçados no crepúsculo,
descuidado e quente
dos Verões que passámos juntos!

UMA TARDE NO CAMPO


COLLADO

UMA TARDE NO CAMPO

Levei-te a merenda
num cesto de verga,
a meio da tarde
suada,
num dia de calmaria surda!
As vinhas maduras
bordejavam a quinta
e os bagos soltavam-se
sem pressa!
O restolho do trigo
quedava-se caído
depois da farta colheita!
A água da levada
dessedentava as hortas!
Arregaçado,
no meio do campo
abrasado,
recebeste-me à sombra
de uma figueira!
Comemos os dois
fatias finas de broa de milho,
petingas fritas em azeite,
bebendo
vinho verde tinto!
Momentos de descanso,
sem inimigos
por perto,
tendo o fruto das sementes
brotado por todo o lado!

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

POESIA


José Gonzalez Collado
POESIA

A poesia
buscou-me a mim
ou procurei-a eu?
Não sei de onde veio
esta vontade meticulosa
de agarrar na caneta,
escrever frases curtas
com alguma sonoridade!
Eram vozes estranhas
acordando-me,
pedindo-me,
cria poesia!
Sempre que um farol
esquecido
brilhava na neblina,
alumiando a praia,
eu escrevia!
Sempre que alguém
solitário,
contava as estrelas
de um céu confuso,
eu escrevia!
Sempre que um amor
se perdia
num erro de partilha,
eu escrevia!
Sempre que a alma
sangrava,
não podendo
ter asas,
eu escrevia!
Escrevi o primeiro poema,
o segundo,
depois era a caneta
que já escrevia sozinha!
Desenhava fogo, lama,
o som do vento agreste,
crepitação da madeira
aquecendo
uma sala fria!

NAVIDAD

José González Collado

NAVIDAD

Nasci,
num dia de Maio frio,
sem ter sido programada!
Todos olhavam
pasmados:
as avós, as tias avós,
as tias simplesmente,
aparando
o rebento,
após infindas horas de parto!
Era rechonchuda,
de olhos claros
e careca!
Deixei a mãe exaurida,
rasgada,
retiraram-me a ferros,
difícil foi nascer!
Descansou finalmente
a parteira,
a avó Maria,
depois da louca correria
entre o quarto e a cozinha,
aquecendo água,
toalhas
e outras tralhas
que me trouxeram à vida!
O partro foi obscuro
com muita oração
à mistura,
em coro,
como as carpideiras,
pedindo a Deus
hora pequenina!
Entrei no mundo
com o florir das cerejeiras,
ventos moderados
e muitos espaços largos
para eu os preencher!

TERTÚLIA


TERTÚLIA

Todos os terceiros sábados
de cada mês
estamos aqui sentados,
perfilhados em mesas redondas,
trincando bolinhos caseiros
e bebericando vinho do Porto
rubi!
Estamos felizes
a partilhar a nossa poesia,
umas mais agressiva,
panfletária,
outra mais redonda,
mais bucólica!
Mas toda, toda,
tendo a alma despida,
pondo à prova
sentimentos, dores,
sonhos, ânsias,
decepções, ilusões,
e força!
Vale a pena lutar
com as armas que temos!
Vale a pena abraçar
causas em que acreditámos!
Tertúlia despretensiosa,
aproximando pessoas,
traduzindo mistérios,
sossegando vidas!
Todos diferentes
e todos iguais
construíndo com as palavras
edifícios para ficar!
Permanecemos juntos
desde há cinco anos,
lendo,
declamando,
sorrindo,
partilhando,
o que é tão nosso
a POESIA!