terça-feira, 26 de março de 2019

ÁRVORES

COLLADO
ÁRVORES  

Telúricas, poderosas
no cruzamento anual
entre Inverno e Primavera,
vencem o interior da terra
e gloriosas acrescentam força
à mãe natureza.
Agarradas pela funda raiz
ao húmus fecundo
florescem e dão frutos,
frascos de sabor em cada merenda.
Despem-se no Outono
ao som dos primeiros ventos,
sem pudor e sem pressas,
renascem na Primavera
e serão no Verão cestos de pêras,
maçãs e ameixas.

PENSAMENTOS

Gionanni Bellini

PENSAMENTOS  

Poderá a minha cabeça
reter esta ânsia de sentir
com mágoa
o mundo onde estou?
Fruto das chuvas da Primavera,
de fugitivos raios de sol,
de pensamentos não cabendo
na minha vida comum.
Silêncio na sala
será que quero mudar
de país, de lugar?
Com todas as minhas forças
digo não
ao assassinato a frio das crianças
do IEMAN

terça-feira, 19 de março de 2019

SER


COLLADO
SER 

Ser, não ser,
partir, permanecer,
ouvir, calar,
rir até doer a boca,
brincar com a chuva
de lágrimas,
avançar, devagar.
Dançar em frente
ao espelho,
ver reflectido
quem não se é.
Ser cor rasgando
a tela,
vulcão de lava
incandescente,
soro curando
a maleita,
sono intermitente,
almofada decadente,
bordada a ouro e azul.
A história escrita
e que não é entendida,
pássaro andante,
raízes fortes
amarrando tudo à terra.

A POMBA

COLLADO
A POMBA 

A pomba caída no chão, inerte
balança com o trepidar  ruidoso
dos carros,
as asas penduradas, depenadas
num corpo já nada.
O sopro apagou-se em silêncio,
os pássaros não têm alma,
não têm céu nem expiação,
morrem e acabou-se.
Não há obrigação
de lhes assistir com missas,
de os enfeitar com flores,
dão-se à natureza, quietos
e assim ficam eternamente.

terça-feira, 12 de março de 2019

ESCRITÓRIO



ESCRITÓRIO

Há um canto preferido na casa,
o escabelo junto à janela
pejado de almofadas
onde me recosto, onde penso.
Olho o frio enevoado,
o dia feio,
clamo pelo fim do Inverno
que pesa nas pernas e na cabeça.
À volta dos livros, mais livros
amontoados nas prateleiras
de madeira.
Por mais anos que viva
nunca os lerei todos,
só o facto de os ter
é uma reserva de calor
para o ano inteiro.
Há também um repositório
de fotografias,
das viagens, dos encontros,
ah como fomos novos,
inocentes,
vivendo e fazendo viver
sem receios.
Um cálice de Porto Rosé,
é o fim perfeito
para este momento intenso
dispondo-me a escolher palavras
alinhando-as em poemas.

DESCREVENDO

José Gonzalez Collado

DESCREVENDO

Os olhos circundam o arvoredo,
insinuam-se entre a raiz e o fruto,
o vento sussurra perto,
vergam os ramos indefesos.
As fruteiras de tronco rugoso,
nobres e fartas,
homenageiam os deuses,
entre a crença e a dúvida
um melro passa em voo raso.
Torcem-se as mãos à procura de cerejas,
os lábios são lápis
inventando poemas.
Faz-se um silêncio silencioso,
a horta respladece
debaixo do arco-íris,
o hibisco ganha penas, bico, asas,
torna-se um pássaro
no céu infinito.
Olho a natureza
e cinjo-me à minha condição
pequena de ser só um ponto
entre tantos pontos intensos.

sexta-feira, 8 de março de 2019

A VARANDA

José Gonzalez Collado

A VARANDA

Na casa da minha avó materna
havia uma varanda de Inverno
mais estufa que varanda,
depositório de vasos mil
com begónias e avenca.
A minha tia Maria
solteira e pequenina
cuidava delas com mestria.
No fundo dessa varanda
ficava o seu quarto
o único perfumado da casa
à conta dos sabonetes Pati.
No outro topo da varanda
havia uma estante fechada
com grandes gavetas  
de conteúdo misterioso.
À socapa surripiava revistas
com lindas mulheres na capa,
receitas, truques de maquiagem,
dicas para arranjar cavalheiro ideal.
Não sei quem as deixou ali
certo é que me arrastavam
para outros mundos
diferentes e vibrantes,
nada a haver com a humilde
e simples casa da minha avó.
Além de revistas
havia panfletos, propaganda
séria a um senhor chamado
Humberto Delgado.
Na minha tenra idade
não sabia quem era
mas achava-o revolucionário.
Pedia mudança,
troca de governantes,
manifestações.
A minha tia Maria
solteira e pequenita
arrancava-me os papéis
da mão e avisava:
isto não é para ti rapariga.
Vistas bem as coisas
esta escolha dos meus tios
tinha razão de ser,
o regime já cheirava mal.
Tios cultos e viajados
à conta de serem músicos
correram o mundo inteiro.
Apesar de toda a sua revolta
tiveram que esperar muitos anos
até que o ditador caísse do poder.

NOITE DE FÉRIAS


Edvar Munch
NOITE DE FÉRIAS

As noites eram enervantes,
a luz fraquita perdia-se
iluminando apenas a mesa
da cozinha.
Enquanto alguém lavava
a louça do jantar,
a mãe em alta voz despachava
o terço infindável.
Um resto de azeite caído no chão,
o gato pardo lambia a mancha
como lambia tudo.
Morriam as férias devagar
num quotidiano sem surpresas,
nada acontecendo de relevante.
Olhavamos por cima do muro
à espera de um grito,
de um balão de hélio,
qualquer coisa inusitada,
extravagante, diferente.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

PAISAGEM

Fidel Latiesas
PAISAGEM  

Cinza nos muros rugosos
da casa abandonada,
roseiras, azáleas, dálias,
lírios, jarros, agapantos
sarapintando o jardim aquietado.
Abre-se a natureza em flor,
cheira a fertilidade,
abanam os ramos das árvores
ao som da brisa que se faz sentir.
Sentada no banco de ferro
enferrujado,
olho os montes ao longe,
um vento marítimo
dança com os cabelos
diante dos olhos,
chegam notícias de longe,
esperam vorazmente
o sacrifício do cordeiro,
no altar dos interesses
de quem precisa do petróleo
da  dorida Venezuela.

PEDIDO

José Gonzalez Collado
PEDIDO

Nós, mortais,
pequenos, indefesos
perante as armas do poder,
apenas temos
o pensamento livre,
com as restrições devidas
a informações manietadas.
A ideia de homens-bons
sentados na Casa dos Vinte e Quatro
decidindo sabiamente
o destino dos vizinhos
foi-se.
Resta o abuso, a corrupção,
o viver principescamente
à nossa custa
enquanto contámos tostões.
Ah poetas do meu país
indignem-se,
sejam o facho, a luz,
o inicio de algo mágico,
limpo, bom, novo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

INVERNO

José Gonzalez Collado

INVERNO  

Falo no Inverno,
as laranjeiras cheias
e os limões
quebrando os ramos.
O resto a geada queimou.
Retiro as últimas pencas,
os últimos brócolos roxos
espigados.
Há muita compota
no frigorífico,
doce, cremosa,
para saborear devagar
no pão quente de centeio.
As courelas ficam num alto,
os olhos bem abertos
fotografam a paisagem.
O silêncio absoluto,
roçam as palavras na cabeça,
é certo quererem
impressão na página última
do caderno de poemas.
Parada, sou dali,
daquela natureza verde, desperta,
presente, eterna,
parte da vida, parte dos sonhos.

A POMBA

Jorge Feio

A POMBA 

A pomba caída no chão
baloiçando com o trepidar
dos carros,
as asas penduradas
num corpo que não é nada.
O sopro apagou-se
os pássaros não têm alma,
não vão para o céu,
morrem e acabou-se.
Não há obrigação
de lhes assistir com missas,
de os enfeitar com flores,
dão-se à natureza
e assim ficam.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

CAPELA DO LUGAR

José Gonzalez Collado

CAPELA DO LUGAR

A porta de madeira maciça,
entreaberta,
da capela saía uma fumaça,
vestígios de incenso
dos cultos de Maio.
A Senhora das Neves
rechonchuda, de azul vestida,
sorria,
elevando nas mãos
dois cachos de uvas maduras.
Um bêbado de bagaceira
bebida à boca do alambique
entra de rompante
e cai no banco de madeira.
Os anjinhos olharam
a cena inusitada,
ser a casa de um sem abrigo.
O frio lá fora gelava,
a capela era a janela
donde se via a aldeia
pintada de geada,
o rio preguiçoso, dolente,
sem pressas a caminho
de cair no Douro.
A menina ensonada
e que nada incomodava,
deitou-se na outra ponta do banco,
apagou-se não vendo mais nada.

DEVANEIOS

José Gonzalez Collado

DEVANEIOS

Nas incertezas do presente,
num tronco rasgado
traço círculos de ouro
encostados a cubos filetados.
Pouso os olhos neste sítio
que podia ser o meu sítio,
onde aguardo o voo da borboleta,
num resguardo protegido
de natureza ainda intacta.
Abandono-me ao meu respirar
sem gente nem pássaros,
contando a cores do arco-íris
no curvado céu plúmbeo.
Ao lado uma prenda
o cesto de ameixas doces,
o pão de nozes e canela,
água da fonte, fresca e cristalina.
Na mão um copo de vidro
verde e martelado,
uma sede sôfrega
emborca a água.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

DIZERES

José Gonzalez Collado
DIZERES  

Corredores sem fim.
Vagas mansas.
Mar avançando.
Sonhos purpurina.
Presença de cavalos
sem freio.
Sol iluminando.
Um lavar de alma.
Filmes muitos,
passando em écrans
mágicos.
O tempo curto.
O fogo sagrado.
Os corpos suados.
Um anúncio de néon
com poemas de amor
dentro.

FAMÍLIA

José Gonzalez Collado
FAMÍLIA  

Sandim,
lugar do Calvário,
ao cimo a capelinha
da senhora das Neves,
uma casa igual
a muitas outras,
ali nasceu o meu pai,
na casa que foi dos meus avós.
Soalho de tábuas corridas,
a sala, uma mesa grande,
santuário cheio de imagens
divinas.
A cozinha, centro da casa,
o louceiro de pinho,
guardando a louça
de barro cozido,
a lareira sempre acesa,
achava-a
do tamanho do mundo.
O fumeiro rescendendo,
a resina estourando
na lenha mal seca.
As batatas cozidas com pele
na panela enorme de ferro.
Os tios cheios de fome
comendo à socapa,
engasgando-se.
A visavó Margarida
cortando a broa de milho,
meticulosamente,
como se fosse avaliada por isso.
Os rituais repetidos
no dia a dia de gente pobre.
Trabalhar, alimentar,
sobreviver em tempos difíceis.
O relógio antigo
batendo compassadamente
as horas.
As tias mais novas
alisando os cabelos pretos.
O meu avô tirando do baú
o violino
e eu espantada a ouvir
os sons lindos
saídos da caixa de madeira.
Na parede alinhados os retratos,
a visavó paterna,
o avô e a avó,
os quatro primeiros rebentos
de uma prole imensa.
Dessas gerações entrelaçadas
restámos nós os bisnetos,
ainda ardendo em chama
enquanto vislumbrámos
a eternidade.