terça-feira, 7 de novembro de 2017

URGÊNCIA

Collado

URGÊNCIA

Sê hoje o meu lume,
a minha lenha,
a lareira, o aconchego
nesta noite de tempestade.
Sê a luz a entrar
na cama meia desfeita,
o cobertor quente
cobrindo frestas da alma.
As orquidias raras
no solitário vermelho,
antigo, com memórias.
Sê os meus olhos
vendo além,
torna as horas comuns
em raios de eternidade.

ARCO-ÍRIS

Collado

TAF
Agostinho

ARCO-ÍRIS  

Esplendoroso o arco-íris
surgindo sob o céu cinza,
capricho de cores, brilhos,
aliado de seres míticos.
Marcador de horas,
portador de chuva,
estabelecendo o equilíbrio
entre a natureza e o céu.
Depois, depois,
torna tudo mais claro,
trazendo à tona formas, cores,
sabores, perfumes.
Toda a obra da criação
é uma explosão incontida,
centelha de paioxão
vivida por homens,
bichos e terra
em religioso silêncio.

HÁ DIAS ASSIM

Collado

HÁ DIAS ASSIM

Quebrar,
não conseguir segurar
os pedaços.
Não adiantar soluções,
esperar
as voltas que a vida dará.
Quedar-se no vazio,
não subir à tona,
Admitir amos no mundo,
senhores de nós.
Não gritar
adormecer no caos nascente,
Ser definitivamente
ausente,
aceitar as mentiras,
falsos caminhos,
malévolos destinos.

RECORDAÇÕES


José Gonzalez Collado
RECORDAÇÕES 

Antes era assim
a alegria persistia
cada dia.
As penúrias rompiam
todas as Primaveras.
Os namorados juravam
repetidamente
amor eterno
até que a carne se rasgasse.
Planeava-se
viagens ao Árctico,
não se mediam emoções,
falava-se alto.
As amoras negras
colhiam-se ao fim da tarde,
tingiam a boca
enquanto o sumo escorria
entre a boca e as mãos.
Silenciados os medos
éramos o mundo inteiro

e sorríamos.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

REFLEXÃO SOBRE A EUROPA


José Gonzalez Collado
REFLEXÃO SOBRE A EUROPA  

A luz exilou-se de vez
é a sombra que guia
esta Europa velha.
Inaudíveis são as vozes
dos países pobres do sul
não chegam à lonjura
da fria Bruxelas.
Destino comum?
Não parece,
no arrefecimento agreste
dos sonhos perdidos.
Falta-nos instrução, pensar,
falta reflexão,
a eles o nosso brilho,
o sol quente, ardente

na mesa cinzenta da distribuição.

PEDIDO


José Gonzalez Collado
PEDIDO  

Depois de te conhecer
não sou o mesmo.
Tonto de todo
esperando-te diariamente
à saída do emprego.
Dar-te boleia é um ritual
embora cada dia seja diferente
dependendo da cor do batom
ou do tamanho do tacão
do sapato.
Vou agindo de acordo
com o teu sorriso
pedindo à S. Rita

que não saias do meu caminho.

COMBINAÇÃO

José Gonçalez Collado

COMBINAÇÃO   

À noite,
num encontro fortuito
no portal da entrada
ele e ela,
mais ele que ela,
selam a combinação
com um beijo.
Subir amanhã o rio Douro
num barco rabelo
até à Régua
pensando ser igual

a caminhar nas pegadas da lua.

DIZENDO


José Gonçalez Collado
DIZENDO  

A onda será um barco
a areia argamassa
a partida um abraço
a chegada uma casa.
A marginal autoestrada
iniciada a viagem,
o poeta um armário
guardando tantos poemas.
Os livros arrecadados
sonhos,
pássaros alados  voando…
O ofício, isso mesmo
algo pagando-nos as contas.
O canto do sofá azul
o espaço do aconchego,
muro entre nós e lá fora
 onde a vida é como é

sem pudor, desenvergonhada.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O COMPLEXO DA ESCRITA

José Gonçalez Collado

O COMPLEXO DA ESCRITA

Escreves,
teimas em escrever
todos os
em sítios vários.
São simplesmente palavras
atravessadas de ti
com  letras de terra
e pontos  de luz.
Escreves,
fica tudo mais certo,
a alma aquece,
o sono desce,

apaga-se o dia

DESCRIÇÃO



José Gonçalez Collado

DESCRIÇÃO
Estendes-te no sofá
embrulhado na manta quente,
levas à boca repetidamente
cada cereja rubra, resplandecente,
Brilham as achas na fogueiras,
a pele aquece, a alma aquece.
Nada de dúvidas,
esquecidas as perguntas,
é vasta a sala

para pensar na vida.

A ESTUPEFAÇÃO DE TERESA

José Gonçalez Collado

A ESTUPEFACÇÃO DE TERESA

Sentada a um canto
de um botequim
da nova cidade
a ser renovada.
É olhada constantemente
por alguém desconhecido.
Porque a olham?
não tem poemas
escritos na testa,
é discreta, paciente,
não entende
ser objecto de avaliação.
Perdão,
tem a camisola ao contrário,
que diabo,
afinal era chacota
pela sua distracção.

VIZINHANÇA

José Gonçalez Collado

VIZINHANÇA

Tenho uma vizinha
gente fina,
não lhe conheço defeitos
de vizinha.
Admiro a sua forma de vestir
muito vintage.
Não se mete em confusões,
não ouve televisão
em alto som.
Não treina o cão
nas escadas,
não deixa aberto o portão
nem sacode o pó
na cabeça de quem passa.
Mas um dia
assustou-se com um fio
da TV cabo,
servindo a minha casa
passava-lhe ao lado.
De dedo em riste
soltou-o da parede.
Foi má a opção
era tal a burocracia
da operadora
para encontrar solução
que continua dependurado,
a vizinha permanece emburrada

desde então.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ABANDONO



José Gonçalez Collado
ABANDONO  

ABANDONO

Escapar
sem saber como
ao inferno de Dante,
sem G.P.S.,
sem ajuda de homem,
anjo ou arcanjo.
O corpo enfrentando
chamas que queimam
primeiro a alma
depois o corpo.
Fugir, fugir
sempre para a frente
com poças de lume
a toldar os paços.
Esta angústia sem nome,
um abandono perene
como se a gente do interior
não fosse gente.
Que país este
achando que alguns
não têm direito
ao pão diário.
Cerram-se os dentes
a boca fecha-se
não sai o grito libertário.

FALAR SEM SER

José Gonçalez Collado

FALAR SEM SER  

Só têm língua viperina
de aço,
quando oposição,
dentro, entram no sistema,
olham pela sua vida,
o alheio entrega-se à sorte.
Desancando
perante a televisão
é só um som a sair da boca.
Fonética, guião de palavras
que não calam
a dor no peito
de quem ficou sem nada.
Não têm que se levantar
de madrugada,
contar cada cêntimo
para o pão de cada dia,
não gritam, não fedem,
dormem de vendas nos olhos,
mandam mensagens rápidas
com instruções presas
a seus pares,
Riem sem mostrar os dentes,
elaboram discursos
sobre dicionários abertos,
vendem o país ao desbarato,
tornam-nos tristes,
estamos fartos.

ESCREVER UM POEMA

José Gonçalez Collado

ESCREVER UM POEMA  

Escrever um poema
em Outubro quente,
um poema com ruas,
gente, ruído,
silêncios momentâneos,
noites dormidas,
outras em claro.
Contigo seguramente,
rigorosamente,
bebendo champanhe rosé
regando as ostras negras
da ria Formosa.
Acaba o poema,
a cabeça vazia
sem palavras de ponto final.

UM DIA DE OUTONO FRIO

José Gonçalez Collado

UM DIA DE OUTONO FRIO  

Um nevoeiro fino
impregna a cidade
vestida de parkas
e casacões.
O capuz tapa os cabelos,
a humidade atravessa
o pescoço,
desce até ao umbigo.
Na rua ninguém vê ninguém,
os contornos
dos monumentos antigos,
são manchas.
A respiração é ofegante,
o bafo embacia os óculos.
A fila é imensa no metro,
por minutos o lar
onde se pretende algum calor.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

COMIGO

Collado

COMIGO  

No meu regaço
podes fugir de tudo,
tomar uma taça
de vinho tinto,
fumar um cigarro
dentro de casa,
sair da rotina,
rodopiar mesmo coxo,
espiar a vizinha,
ver um filme de Chaplin.
Esquecer a vida,
ensaiar com empenho
o dia novo
rompendo com paixão
a madrugada serena,

amanhã e depois de amanhã.