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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

VINTAGE

Victor Silva Barros
VINTAGE

O carro descapotável,
azul bebé,
atingia a velocidade que podia,
o vento fustigava a cara
da rapariga,
protegida por um lenço garrido
pintalgado de papoilas!
As unhas esmaltadas de vermelho,
os lábios  cor de desejo,
o rabo de cavalo esvoaçante!
A rádio sonia um tango,
os corpos fermentando
no calor  ocasional!
O rapaz que conduzia,
cabelo delambido em brilhantina,
aporta num bar da moda,
as luzes veladas,
as sombras tombadas,
as palavras abafadas
num cocktail de vodka!
Acenda-se um cigarro,
saia agora um gin tonico gelado!
O perfume atordoante
da rapariga do carro,
leva o Pedro até ao estrado
e dança-se até ser dia!

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

DEUS

Victor Silva Barros
DEUS

Deus quase sempre está surdo,
na pouca audição que lhe resta
ouve só os meninos ricos,
dá-lhes amor, carinho,
boas casas, comida colorida,
roupa de marca, colégios certificados,
livros premiados, professores doutorados,
médicos prestigiados, viagens organizadas,
concertos memoráveis,
aos meninos pobres
manda-os para os bairros de lata,
e esperar na fila da Legião da Boa Vontade
por um prato de comida!

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

VISÃO DA COZINHA

Victor da Silva Barros
VISÃO DA COZINHA

Da cozinha gasta
por muita confecção de comida
e muita vida vivida,
vê-se a velha tangerineira,
robusta,
que ano após ano
floresce
e se enche de fruta madura!
A minha mãe
que partiu recentemente,
bem a distribuía
em saquinhos iguais,
com o mesmo peso,
a mesma medida
pelos seis filhos
com que presenteou a família!
A tangerineira ficou
a lembrar que se foi
quem a regou,
podou,
continua pujante
para fazer sentir
o valor de repartir!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

MORANGOS

Victor Silva Barros
MORANGOS  

Vermelhos, sumarentos,
muitos deles em forma
de coração,
chegam devagarinho
em fins de Fevereiro,
inundando o mundo
no Verão!
Refrescam sobremesas,
deliciam crianças
em gelados gulosos,
encantam os olhos
na salada de fruta!
Numa compota
misturados com maçã,
untando uma tosta,
distribuem a alegria
logo pela manhã!
Rubros,
cor da paixão,
molhados em chocolate
são o caminho exacto
para um beijo redentor!

PÃEZINHOS COM MARMELADA

Victor Silva Barros

PÃEZINHOS COM MARMELADA

Era Outono,
à noite ficava o céu
enevoado,
o vento soprava do mar
e fazia cair as folhas
das árvores,
agora vazias de fruto!
O sol declinava mais cedo,
a mãe apressada,
assentava num caderno
as provisões que precisava
para o Inverno!
Calmamente, escolhia
os marmelos perfeitos,
desde a semana passada
guardados
num cesto de palha
castanho!
Naquela cozinha imperfeita,
era perfeita a azáfama :
descascava-se a fruta,
cozia-se num panelão
de cobre,
esmagava-se numa rede
fina!
Com açúcar,
tempo,
paciência,
fogão,
nascia a marmelada!
Vertida em tigelas
redondas,
cobertas com papel
vegetal
untado de aguardente,
era na janelas da frente
que secavam!
No Inverno,
em pãezinhos
pequeninos,
eram  o conforto
nas longas noites
frias!
Na saca escolar
era o lanche,
transformado
em buchas pequeninas,
repartidas pelos meninos,
para cujas mães
a marmelada era um luxo!

JUNTO AO JARDIM

Victor Silva Barros

JUNTO AO JARDIM

Ao fim da tarde
é vê-las
rebolando as ancas,
compondo um sorriso
matreiro,
usando os olhos
como acerto
da mercadoria a trocar!
São novas, velhas,
magras, gordas,
elegantes, boçais,
com caras angelicais
ou cores de vinho tinto!
O seu nome
é de profissão,
discretas,
vão um passo atrás do cliente,
apressadas,
o negócio
não se compadece
com horas estragadas!
Servem
sem grande conversa,
aqueles senhores
que lhes pagam,
maternais, brutais,
ordinárias, audazes,
colegiais, putas mesmo,
conforme a tara
de quem as tem
por um punhado
de trocados!
Há um mistério trágico
nestas mulheres que se vendem,
serão rameiras desprezíveis
ou santas que salvam vidas?

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

ERA UMA VEZ UM POVO


Victor Silva Barros

ERA UMA VEZ UM POVO

Era uma vez um povo
cantando toda a desgraça,
aceitando mesmo a fome
a que o obrigaram uns,
enchendo cada vez mais a pança!
Era uma vez um povo
chorão,
sentimentalão,
vibrando com a bandeira
ondulante,
hasteada,
em cada vitória atlética,
gritando a cada golo de Ronaldo
acompanhando da Marisa o fado!
Era uma vez um povo
arrastando-se na desgraça,
esquecendo a grandeza
que a pátria
já construi um dia!
Levanta-te povo que é hora
de correr com  a gentalha,
de tomares nas tuas mãos,
o teu,
os nossos destinos!
Afasta os estranhos Restelos
que vivem do teu suor
e encontraremos no dia a dia
um 25 de Abril melhor!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

TELA

Victor Silva Barros

TELA

No principio era o nada,
a brancura infinita
do vazio,
pronto ou não
a ser preenchido!
As ideias fervilham
na cabeça
do pintor ousado!
Sem palavras,
com tintas e pincéis
salta para a tela
a vida,
a cidade,
o barco que navega
sem perturbar o rio,
as  pessoas,
as memórias!
A pintura ganha sentido,
emociona,
brinca com o pintor
e com quem a olha!

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

PROCURAR


PROCURAR

Procuro um afago,
uma palavra doce,
a lua a varrer
o pátio antigo,
onde nos vamos encontrar
a ler
poemas,
escritos ao entardecer!
Procuro um beijo salgado
enlaçando rosas sangue,
salpicando cortejos
de noivas
que nenhum cavalheiro quer!
Procuro alegria,
arredia,
escondida,
num prato de framboesas!
Ah! O céu
do qual não vejo
princípio
nem fim,
entre o verde
do mar de Kivis
e a música de Chopin!
Procuro-te a ti
na simplicidade
do dia a dia
com uma chávena
de chá quente
e uns biscoitos
de cereja!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

LIBERDADE


LIBERDADE

Sei lá como nasci
se com a cabeça redonda
a rasgar o ventre
da minha mãe,
ou de pés
ajustando-me ao útero,
não querendo ser capaz
de trocar a quentura
de um lugar,
pela aridez do desconhecido!
Sei sim que nasci pássaro
a planar com asas de papel,
onde cabiam poemas
riscando o céu!
Nasci a pensar
e penso ainda hoje
sem encontrar soluções
para este país tão doente!
Onde está a lógica
de sermos peças de xadrez
que não conseguimos controlar?
Veneramos uma elite
podre,
que nos reduz a pobres,
para continuar a enricar!
Pisam-nos,
humilham-nos,
reduzem-nos a nada,
e no entanto
continuámos a respirar,
com gritos afivelados nos olhos
e cavalos  feridos de Guernica
querendo cavalgar
em solos não contaminados!

sábado, 3 de agosto de 2013

HOMENAGEM A UMA PSICÓLOGA

Victor Silva Barros

HOMENAGEM A UMA PSICÓLOGA

A noite entra pela janela,
fria,
envolta em neblina,
espessa,
como se fosse um segredo,
sem sequelas,
dito ao ouvido
de enamorados!
Eu sei
quando ao vestires-te,
linda,
frente ao espelho,
arranjando pela enésima vez
a franja do teu cabelo,
negro,
costumas rir-te
e nunca vês a escuridão
lá fora,
tendo ainda
o teu turno tardio
a começar
daqui a nada!
Que raio de profissão
ter que ouvir ao telefone
S.O.S. desesperados
de solidão
quando podíamos
beber um copo de vinho
tinto,
e darmos as mãos
enquanto escolhíamos o papel
com que embrulharemos
embasbacados,
as prendas de Natal!
Não te proponho outra arte
porque sei que gostas
das vozes
que ao telefone ouves,
diariamente,
seriamente,
apaixonadamente,
tendo a extraordinária ilusão
que podes ser a salvação
de alguns que gritam socorro!
Maria Olinda Sol

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

É PRECISO TER VERGONHA

Victor Silva Barros


É PRECISO TER VERGONHA

Tenham vergonha
quando todos os dias
nos roubam os cravos
e tentam escandalosamente
convencer-nos
que só sobreviveremos
sendo escravos!
Tenham alguma decência
e chorem
pelo desemprego
a Norte,
pela morte
dos que se suicidam
quando as suas vidas
não têm solução,
pela destruição
que as vossas decisões criaram!
Pensem que sem nós
vocês não existem,
precisam do nosso dinheiro
para se manterem
e gulosos como são
rapam tudo
e deixam-nos quase nada!
Aviso,
aviso urgente:
o tempo escasseia,
os prazos expiram
não queremos filosofias baratas,
comentadores inquinados
que nos dão recados
partidários,
discursos inflamados
do primeiro ministro
que não levam a qualquer lado!
Só queremos Abril de novo!
As nossas lágrimas choradas,
povo,
já tornaram o céu enevoado
que valham a pena
à boca das urnas!
Que seja claro esse dia,
limpo,
decisivo,
como se o caminho a traçar
nascesse lá!

Maria Olinda Sol

quinta-feira, 4 de julho de 2013

PRETENSÃO


Victor Silva Barros
PRETENSÃO

É a ti que eu quero
neste dia de névoas cinzentas
com trovoadas nos olhos!
É a ti que eu quero
para fazermos um altar
a Santa Maria
onde vou rezar noite e dia
para serem levados daqui
os diabos de lábios rachados,
deitados nas arestas deste país
hoje e ontem adiado!
É a ti que eu quero
para esganar as palavras,
sempre as mesmas,
dos políticos de pacotilha
com cursos a tiracolo,
e ideias perdidas em nicotina!
É a ti que eu quero
presente na minha casa
quando este povo manso
descobrir
que faz mais e melhor
sem as gamelas costumeiras
sem as mentiras urdideiras
sem os tiros certeiros
dos coveiros
que nos querem enterrar!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

SILÊNCIO


in: http://victorsilvabarros.blogspot.com/
No silêncio nos ouvimos
meu amor,
no Oriente dos nossos afectos,
concretos, discretos,
sem factos para nos distrair!
E eis os poetas renascidos
nos nossos gestos de ternura,
rufando tambores sem medos!
Lutámos contra os filhos de cabra
magra,
arremessando pragas
bradadas
com veemência,
contra quem nos quer ferir!
Subindo desde o umbigo
vai a força e o baraço
que há – de fazer o laço
que unirá tudo que em nós
faz sentido!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

APELO



VICTOR SILVA BARROS
in:victorsilvabarros.blogspot.com/


APELO
Apelo à pele dele
que não se esqueça da minha!
De distracção em distracção
às vezes foge-lhe a mão,
para afagar a vizinha!
Ai Luisinha
que pouca sorte a minha,
nem sei se chore se ria!
Um dia hei-de fugir pela janela
com a maleta azul cheia
de vidas para viver!
Longe daquele lugar,
penso que vou encontrar,
gargalhadas loucas
espalhando pelas sarjetas,
poemas de embalar!

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

INVERNO

VICTOR SILVA BARROS


A chuva cai no telhado,
traz-me ao presente o passado
com danças naquela mansarda,
onde bocas sedentas bebiam
ao mesmo tempo que os pássaros
aquelas gotas divinas!
Os sons eram mais reais
faziam no silêncio um garrote,
pendurando nas varandas
chícaras de café Sical
e alguns bolinhos mais!
Não havia
dias em que não acontecia nada!
A água torrencial
nem sempre corria para o mar,
galga caminhos e montes,
enche algumas fontes
e vai adormecer na serra!
A chuva cai no telhado
e molha o meu coração!