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terça-feira, 26 de março de 2019

ÁRVORES

COLLADO
ÁRVORES  

Telúricas, poderosas
no cruzamento anual
entre Inverno e Primavera,
vencem o interior da terra
e gloriosas acrescentam força
à mãe natureza.
Agarradas pela funda raiz
ao húmus fecundo
florescem e dão frutos,
frascos de sabor em cada merenda.
Despem-se no Outono
ao som dos primeiros ventos,
sem pudor e sem pressas,
renascem na Primavera
e serão no Verão cestos de pêras,
maçãs e ameixas.

terça-feira, 19 de março de 2019

A POMBA

COLLADO
A POMBA 

A pomba caída no chão, inerte
balança com o trepidar  ruidoso
dos carros,
as asas penduradas, depenadas
num corpo já nada.
O sopro apagou-se em silêncio,
os pássaros não têm alma,
não têm céu nem expiação,
morrem e acabou-se.
Não há obrigação
de lhes assistir com missas,
de os enfeitar com flores,
dão-se à natureza, quietos
e assim ficam eternamente.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

NATAL DA INFÂNCIA


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NATAL DA INFÂNCIA 

Véspera de Natal
24 de Dezembro,
as meninas de azul,
laçarotes no cabelo,
sapatos de verniz.
Os rapazes de tremelo
e casacos de lã.
Era uma lata velha
resfalgando  qual cavalo
a caminho de Argoncilhe.
Num cruzamento
sem sinalização, pum.
A lata velha bate na esquina
de uma drogaria e faz pião.
A criançada excitada grita,
o pai limpa o sangue
do nariz.
A mãe tenta acalmar
a inesperada situação.
Atrasou-se a inauguração
do presépio,
arrefeceram as rabanadas
mas o calor da recepção
da avó Maria manteve-se.
Mesa grande, muita gente,
à hora pertinente
entrou o bacalhau
com infusão de azeite e alho.
O avô António solfejava
sem conhecer uma nota
do tamanho de um camião.
Toda a gente sorria
como se o dia amanhecesse
singular e santo.
O Jesus menino tardava,
a criançada cabeceava
sem querer perder pitada,
sonho ou realidade,
queriam-no companheiro
de brincadeiras,
esconder as prendas
para as abrir
a 25 de Dezembro
enquanto bebericavam
chocolate quente
e comiam coscorões com canela.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

ACREDITAR

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ACREDITAR  

Luz solar
tão real como a realidade
não deixa a sombra ensombrar
 a esperança que sobra
nas dobras dos olhos cansados
de esperar.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

PORTA

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PORTA

Era uma porta velha
com fissuras
de ventos e temporais,
porta de carvalho ressequido,
forte como aço
e aconchegante no abraço
com que nos recebia.
No Natal a criançada
entrava algariada
com prendas coloridas
penduradas nos olhos claros.
A avó atarefada, na cozinha
oferecia coscorões e rabanadas,
o calor da lareira acesa
e um beijo repenicado.
Pela porta aberta a todos
os de boa vontade
entrou alegria, tristeza,
o médico na hora da doença,
o padre com o cristo redentor
que se beijava na Páscoa.
Os familiares próximos
e os amigos chegados,
os vizinhos com recados,
e pedintes fixos
buscando o soldo ajustado
e semanal.
Durou, durou, durou
o tempo que a matriarca ficou
à frente daquela casa.
Hoje é uma ruína à espera
que alguém a cobice
e inicie uma nova vida
entrando com gosto
pela vetusta porta
firme e disposta a abrir-se
a outra realidade.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

POEMA

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POEMA

Quando o último raio de sol
pousa sobre a mesa
o café da chávena
fica mais brilhante,
o meu corpo imperfeito
estremece,
a mão direita freneticamente
procura uma caneta
e nasce um  outro poema.
Cada um tem o álcool que merece.

DIA DE OUTONO

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DIA DE OUTONO

O sofá é grande,
uma manta protege o corpo
frio,
dois cálices de Porto
é demais.
O telejornal desencantado
na edição das oito,
deixo passar o tempo,
a depressão Catrina
empurra os ramos das árvores
em dança furiosa
contra a janela.
Os olhos perdidos,
os pés nos chinelos,
o dia valeu a pena
porque fiz dois poemas.
É noite escura,
as crianças da vizinhança
choram alto,
por um instante
o prédio é deles,
a sua liberdade
cabe dentro de um quadrado,
o choro atravessa as paredes
e chove torrencialmente.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

PAISAGEM MARINHA

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PAISAGEM  MARINHA

O dia amanheceu triste
sem razão nem porquê,
um friozinho atrofiava
a vontade de sair.
A praia defronte à janela
salpicada de salitre,
o muralhar do mar
em sons de búzios
e cânticos de sereias
escondidas nas rochas
moldadas pelas ondas.
O vento enrolando a areia
que fustiga a pele
e se pega ao corpo.
As ânsias acomodam-se,
os olhos presos
nos fios do horizonte
esvaindo-se
nas saudades de mundo novo.
O céu é a tela exacta
enfileiradas as estrelas, a lua,
grafite-se o finito do infinito
dos homens e sua existência.

FACEBOOK

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FACEBOOK

Que me vendem
nos media
e nas redes sociais
senão imagens vagas
desfocadas
fora do dia a dia
do comum mortal
Descarregam postes
de cores fortes
envoltos em neblina
a lembrar
que a existência
é  fora do écran.
Trocam de perfil
conforme a conveniência,
rude respondo
sem beijos nem abraços
dentro do tema
ou da falta de ideias válidas.
Dou o recado
e vou-me embora
antes que alguém se lembre
de me insultar.

UM VENTO ATLÂNTICO

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UM VENTO ATLÂNTICO

O vento sopra como nunca
amassando o ímpeto
e a vontade
de sair e gritar liberdade.
Não há transporte
que leve à lua,
de caras no solo
 os vis mortais
mais uma vez serão capachos
onde botas cardadas pisarão.
Mas há sempre alguém
que resiste,
esquece a porta e o cadeado,
desafia leis injustas
e luta pela paz, pela democracia,
pelo pão partilhado, igualdade
de oportunidades,
pelas cidades, pelo interior,
pelas favelas, pelos índios
esquecidos  na hora de repartir,
por Imanjá, pelo terreiro
pela vendedeira de picolé,
pela mãe que chora
fechando os olhos
do filho assassinado.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

OUTONO

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OUTONO 

Nem dia nem noite,
luscofusco,
a tarde sem chuva,
dormente.
As cores terra exangue
levadas
por um vento agreste.
Onde está o espelho
de ouro velho
onde possa arranjar o cabelo?
Um gato vadio
corre pelas folhas mortas
num jardim pintado
de tons fortes.
Um cheiro intenso,
a brasa, a castanha assada,
queimam-se as mãos,
degusta-se o Outono.

VER


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VER 

Sentada na cadeira escura
de um café da cidade,
esperando o cappucino,
vejo, para além do muro
de cimento e cal,
a vida
enfiada num cubo
balançando sobre um rio
de cristal.
Bem me quer
mal me quer
onde está
quem me quer bem?
Existo, febril
entre querer, não querer,
ser e não ser.
Eis o destino
em cartas de Tarot
caminhos estreitinhos,
pouco ouro
e metas atrás de metas
para cumprir.
Perco palavras cifradas,
registo,
tudo acaba bem
no absoluto desprendimento
de tudo.

SOL AINDA


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SOL AINDA 

À noite
cai a neblina,
cheira a mar,
conversas cochicadas,
pedaços de nada.
O sono serenamente
a chegar,
Beethoven a tocar
uma ária
com paixão.
Tudo é uma passagem
pela ponte
pelo rio
ao encontro de um navio
naufragado em Miramar.
Cordas
enroladas no cais,
ais pendurados
em fios eléctricos,
o tempo a passar
tão rápido
que o vento leste
não o consegue apanhar.
A chuva não cai
a terra está tão seca,
as mãos espremem
um lenço
que não deita água.
Os sonhos subiram
ao sótão da minha avó,
encaixoto-os
numa arca de pinho,
quero barulho,
pés a bater no chão,
ler Marcuse, Platão.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

PEDIDO

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PEDIDO 

Caíram-lhe as asas
com elas se foi
a vontade de voar.
O céu está longe de mais,
as estrelas arrefeceram,
um frio estranho
percorre-a da cabeça aos pés,
estremece
e pensa que não merece
ouvir Verdi.
Ficou-se com o caldo verde
sem rodela,
encostada ao canto,
mais canto do sofá.
Olha pela janela,
a noite caiu.
Só lhe apetece enroscar-se
na manta quente, desformatada,
cair no sono e esperar
que o novo dia frua
e lhe traga
um flute de champanhe
e tostas com caviar.

QUERERES

Coladdo

QUERERES 

Quero esse tempo
em que não havia tempo
só a inocência do momento
e o futuro para vir.
O fugaz era intenso
e por cima
do umbral da janela
no meio do nevoeiro
havia sempre um cavaleiro
pronto para me levar.
Quero o meu
e o que está ao lado
tal como um pássaro alado
voando rumo a sul
Fora de mim plano
à procura de luminosa nave
que do telhado faz rampa,
me rapta
para onde o pensamento humano
não alcança.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

QUESTIONANDO

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QUESTIONANDO

Para onde vais
por essa vereda estreita,
a noite é cerrada
e a lanterna gasta.
Amor entornado
em dias iguais,
o frio arrefece
os batentes dos portais.
A vida enregelou
nas noites de espera,
empacotada em surdina
em fios de colchas de renda.

terça-feira, 17 de julho de 2018

SÁBADO


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SÁBADO

Sozinha,
tomando o café
pós almoço
na esplanada
de sempre.
As conversas
das mesas vizinhas
entrecruzam-se,
um ruído característico
de gente que fala alto
cola-se aos ouvidos.
Difícil ler o jornal,
as notícias destacadas,
folheio o Expresso,
meia alheia, meia longe.
A tarde está farrusca,
não tenho mensagem
no telemóvel,
as gaivotas encostam-se
no portal.
Há menos turistas,
ainda sobrará cidade
para as gentes do Porto
habitarem.

ROTINAS


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ROTINAS 

Às onze da noite
calam-se os vizinhos,
deixa de se ouvir
o arrastar de cadeiras,
as discussões sem sentido,
as horas a bater
num relógio antigo.
Aqueço café com leite,
como todos os dias
passo de canal para canal
à espera de alguma coisa
descolando as pestanas,
abrindo de espanto o olhar.
O aparador de castanho novo,
assiste imóvel,
ao frenesim da procura.
Não encontro o pijama,
a beberagem está fria,
o carro do lixo
começa a apitar.
Fala-se de futebol
em todas as estações
televisivas,
é sempre tempo de tudo desafinar.

DIA DE TEMPESTADE


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DIA DE TEMPESTADE

O mar em fúria
explodindo em sal e bruma,
eleva-se do leito
e cresce, cresce,
submergindo o grande areal.
Ao longe encolhem-se os navios,
no ronco da tempestade,
a quilha descreve meias luas,
o negro do céu
anuncia mais vento, mais chuva,
empurrando os barcos
sabe-se lá para onde.
Sem solução à vista
concertam-se as comunicações,
Santa Bárbara nos acuda,
não há engenho que resista
quando a Terra se agiganta
semeando desespero.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

VIVA PORTUGAL


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VIVA PORTUGAL

A menina
do quinto esquerdo
à janela,
linda, de pele macia,
vestida a rigor
de vermelho e verde,
agita a bandeira pátria.
A televisão em alto som
transmite os resultados
do jogo decisivo
Portugal - Irão.
O seu corpo moço
estremece,
solta-se jorrando emoção,
golo, golo, golo,
do Quaresma
e desta pequena nação.